UM HOMEM DE VERDADE
O Conselho Permanente da Auditoria da 6ª Região Militar da Bahia, em Salvador, estava reunido para julgá-lo, depois do golpe de 64. Alguns oficiais e dois civis: o auditor doutor Amílcar e o promotor dr. Antonio Brandão. Sentado no banco de réu, ele não quis ser defendido por advogado. Seu advogado seria ele mesmo, também advogado.
O promotor, já conhecido como exaltado, começou a denúncia:
- Sei que ele não é comunista. Sei que foi um bom administrador. Mas sei que se cercou de muitos comunistas. Sei que foi um inocente útil dos comunistas.
Ele foi se irritando, mas ficou calado. O promotor continuou:
- Na verdade, ele era mesmo um oportunista político.
Não agüentou. Levantou-se, apontou o dedo para o promotor e gritou:
- Oportunista político é a puta que lhe pariu.
Foi a maior confusão. O promotor quis sair no braço. No final, depois de um longo discurso dele, defendendo-se, foi absolvido. O promotor recorreu e o Superior Tribunal Militar confirmou a absolvição. Ele era assim. Ele foi assim a vida inteira. Um homem de verdade.
FRANCISCO PINTO
Esta história, nos minimos detalhes, está no livro “Autênticos do MDB – Semeadores da Democracia”, da pesquisadora e historiadora Ana Beatriz Nader (Editora Paz e Terra, 1998, páginas 139 a 193).
Ontem, a Bahia enterrou Francisco Pinto em Feira de Santana, sua cidade. Se uma cidade tem o direito de guardar o corpo de um filho, que foi um homem de verdade, não terá mais do que Feira de Santana.
Em 1964, pelo país inteiro, de norte a sul, o Congresso Nacional, as Assembléias Legislativas, as Câmaras de Vereadores, encurraladas, cercadas e coagidas pelo golpe e pelas tropas militares, cederam, cassaram, derrubaram governadores, senadores, deputados, prefeitos, vereadores.
Só uma, exclusivamente uma, a Câmara de Vereadores de Feira de Santana, resistiu, não se entregou e se negou até o fim a cassar seu prefeito, Francisco Pinto. O Exército e a Polícia Militar invadiram a prefeitura, prenderam-no e o levaram para o Forte do Barbalho, em Salvador, uma masmorra construída entre os séculos 16 e 17, onde já estavamos presos os deputados Mário Lima e eu, o prefeito Pedral Sampaio, de Vitória da Conquista, e outros professores, jornalistas e lideres sindicais e estudantis.
FEIRA DE SANTANA
Ele mesmo contou:
1 - “As tropas do Exército, sob o comando do major Hélvio Moreira, chegaram em Feira, se alojaram em um armazém de fumo e me prenderam. Enquanto encontrava-me preso no porão do quartel da Polícia Militar de Feira, o major convocou a Câmara de Vereadores para votar meu impeachment. Os vereadores foram conduzidos por soldados e a Câmara cercada. No seu próprio plenário, os vereadores tiveram as metralhadoras apontadas contra eles, a fim de aterrorizá-los”.
2 - “Em determinado momento, as luzes se apagaram no plenário, os vereadores aliados atiraram-se ao chão, protegendo-se de um possível atentado. A votação, que deveria ser secreta, foi aberta e, apesar de tudo, não conseguiram os dois terços necessários para me destituir.
Encerrada a sessão, prenderam o vereador-sargento Aranha por desobediência à ordem do seu superior, pois votou contra o impeachment. Conduziram-no para Salvador, onde ficou preso por 30 dias”.
A RESISTÊNCIA
3 - “Convocaram nova reunião da Câmara, com o suplente do vereador preso. As mulheres dos vereadores deram uma lição extraordinária de coragem, dizendo aos maridos que preferiam vê-los presos a votarem pela minha destituição. O aparato militar aumentou. O resultado da votação, porém, não mudou. Ao contrário, ganhamos mais um voto de um companheiro que fraquejou na primeira votação. Diante do impasse, os oficiais decidiram decretar por sua conta o impeachment”.
4 - “Não conheço no Brasil um caso idêntico de bravura e lealdade como o da Câmara de Vereadores de Feira de Santana. Em Salvador, por exemplo, o seu prefeito Virgildásio Sena só tinha dois vereadores na oposição. Na hora de votar seu impedimento, porém, apenas dois votaram contra” (um deles até hoje está aí para contar a história, o bravo Luiz Leal).
Na Assembléia Legislativa, os deputados agiram da mesma forma: acovardados diante do cerco militar, cassaram imediatamente os mandatos dos deputados Ênio Mendes, Diógenes Ferroviário e o meu).
PINOCHET
Esta semana, a imprensa relembrou seu histórico discurso, na Câmara, no dia 14 de março de 74, denunciando a presença do ditador Pinochet, do Chile, que veio para a posse de Geisel. O Supremo Tribunal o condenou à perda do mandato e a seis meses de prisão, por “ofensa a chefe de Estado”. Dias atrás, em dezembro, com os ex-deputados Mário Lima, Hélio Duque e eu, no hospital de Salvador, onde já se sabia desenganado, ele relembrava sua vida politica e insistia na necesssidade de todos, sempre, continuarmos a luta por um país melhor, mais soberano e mais justo.
Começou cedo. Nascido em abril de 30, aos 20 anos, em 50, já participava das lutas estudantis na Faculdade de Direito e era vereador de Feira de Santana. Prefeito em 62, fez uma administração revolucionária. Em 70, chegou deputado à Câmara e foi o principal criador e líder do Grupo dos Autênticos, que levou o MDB a fazer oposição de verdade.
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