Por Oswaldo Viviani
Fuga de Brasília
Para analistas, pai e filha querem pressionar Lula na disputa por cargos no setor elétrico e mostrar insatisfação com atos do governo que contrariam seus interesses
Dois dias depois de seu pai, o senador José Sarney (PMDB-AP), confirmar que vai pedir afastamento do cargo por quatro meses, “para escrever um livro”, a senadora (e líder do governo Lula no Congresso) Roseana Sarney (PMDB-MA) informou que vai fazer o mesmo, por motivo de saúde. As licenças de pai e filha senadores coincidem com a disputa por cargos no setor elétrico, travada entre o grupo deles no PMDB e a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), e a instalação da perigosa CPI dos cartões corporativos, da qual os Sarney querem distância.
Para analistas políticos que conhecem os métodos sarneisistas, os pedidos simultâneos de licença de José Sarney e Roseana nada têm a ver com o 69º livro do velho ex-oligarca – “Boa noite, presidente – Testamento para Roseana” – nem com supostos problemas de saúde de Roseana.
Para quem conhece José Sarney, ele quer, com as licenças, pressionar o presidente Lula a ficar do seu lado na questão do preenchimento de cargos no setor elétrico. Sarney também pretenderia sinalizar seu descontentamento com uma série de atos do governo e do PT que o deixaram insatisfeito.
Chateações – As chateações de Sarney começaram com o afastamento de seu apadrinhado Silas Rondeau do Ministério de Minas e Energia, em maio passado, sob suspeita de corrupção. Aumentou com a descoberta de que seu filho mais velho, o empresário Fernando José Macieira Sarney (todo-poderoso chefão do Sistema Mirante de Comunicação), foi “grampeado” pela Polícia Federal, que o investiga por lavagem de dinheiro. Chegou ao ponto mais alto com os sucessivos vetos da ministra Dilma Rousseff às indicações de José Sarney/Edison Lobão para a presidência da Eletrobrás.
Sarney começou a deixar transparecer seu descontentamento com o governo Lula numa entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, publicada na segunda-feira, 18. Numa das respostas, ele apontou como “falha” do governo Lula não ter se esforçado para promover uma reforma política.
“O governo não tem feito o esforço necessário para fazer a reforma política. Porque, se o presidente colocasse o seu prestígio a serviço de fazer uma reforma política de profundidade no país, seria sem dúvida um marco histórico muito importante”, disse Sarney.
Na entrevista, ele declarou, ainda, que o PT não tem “cultura de parceria”. “O PT, como um partido ideológico, não tem cultura de coligação, não tem essa cultura de parceria. Sempre defendeu o contrário. De maneira que isso deve criar alguma dificuldade de convivência.”
Fecury assume – Com sua licença – cujo período ainda não foi definido –, Roseana Sarney abre as portas do Senado para mais um suplente: Mauro Fecury. Não é a primeira vez que Fecury assume o lugar da senadora. Ele já ocupou sua cadeira no Senado em 2004 e 2005, quando Roseana se licenciou também por motivo de saúde.
O acreano Mauro Fecury, de 67 anos, foi prefeito de São Luís nos governos João Castelo e Luís Rocha, presidente da Novacap no governo Elmo Serejo Farias e deputado federal. Ele é formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e casado com Ana Lucia Chaves Fecury, com quem tem quatro filhos. Antes de pertencer aos quadros do PMDB, Fecury militou na extinta Arena, no PDS, no PTB e no PFL (atual DEM).