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Medos

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Data de Publicação: 21 de fevereiro de 2008
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EdsonVidigal

Menino, não faz isso, não faz aquilo, senão o bicho te pega, o bicho te fere, o bicho te come. E não era só um bicho, não, eram muitos. Variavam os nomes, conforme a dose de desobediência ou de danação.

E que bichos eram esses? Só de ouvir o nome era grande o medo. Mula sem cabeça, curaganga, alma do padre aranha, cabeça de cuia, e de quebra, ainda havia o lobisomem.

Sem falar no lobo mau, mas este só fingia ter fome daquela menina de chapeuzinho vermelho, viemos a saber muito depois, e ele não era tão mau assim. Aquilo tudo era truque para ver se comia a vovozinha.

Então, fomos todos crescendo sob o poder manipulador dos medos. Nenhuma escola no nosso tempo nos ensinou a coragem, a determinação, a firmeza. Com o discurso do medo nos ensinaram o conformismo, a resignação, as promessas de um vidão no céu, sim, mas depois da morte.

Não nos ensinaram a importância da prudencia, a força do equilíbrio e da serenidade, a grandeza da paz interior. Daí esse resultado. Quase todos nós irresponsavelmente desassombrados ou deploravelmente medrosos. Alguns, algumas vezes, inescondivelmente covardes.

Tem gente que até hoje não dorme no escuro, com medo do lobisomem, aquele que segundo a lenda nasceu de um sétimo parto e que toda sexta-feira, à meia-noite, se lambuza de coco e depois, transformado num cão enorme, bigodudo, sai por sete bairros a aterrorizar sete famílias antes de amanhecer.

A mula sem cabeça sai matando a coices quem encontra pela frente. Era, antes de se encantar, uma linda mulher de cabelos soltos, mas que virou essa coisa horrorosa porque resolveu dar para um padre. É a guardiã do celibato.

Por falar em padre, é causa de assombração nas encruzilhadas, a alma do padre Aranha. Diz a lenda que se alguém larga uma correia pelo chão, e se a alma do padre está por perto, a correia começa se mexer até dar uma tremenda surra em cada pecador do lugar.

Com esse medo, quem diabo é que vai querer pecar sabendo que a alma do padre truculento pode estar por perto, na primeira encruzilhada?

Para nos impor medo nunca faltou diabo. Quem não se lembra do Fama Leal, um diabinho preso numa garrafa? Quem o encontra fica rico na hora, mas tem que pagar juros dando seu sangue ao diabo chefe maior toda sexta-feira à meia-noite.

Tem gente adulta que até se livrou das amarras do medo só para sair caçando esse diabinho da garrafa. Alguns já estariam ricos, poderosos, até donos de mandatos na política.

Mas quando chega a meia-noite de sexta-feira e o diabo chefe maior aparece para levar o sangue, é um Deus-nos-acuda.

Um desses ricos, poderosos, famosos, acostumado a enganar todo mundo, teria dito, na hora de pagar os juros semanais, que estava com Aids. Achou que podia impor o medo até ao demônio.

Não sacio a minha sede com teu sangue, seu idiota, respondeu o diabo. Eu quero te ver assim rico e poderoso, mas secando, chupado pelos falsos amigos e pela anemia. Pense agora na cena, naquela escandalosa gargalhada de desprezo que, dizem, só diabo sabe fazer.

Ultimamente, por conta das eleições, outros medos de outras fontes nos alvejam. Ou se faz uma frente, ou eles voltam. Vamos ficar bonzinhos porque as luzes da casa mal assombrada ainda estão acesas. O velho é feiticeiro. Quanta lenda boba de amedrontar criancinhas.

Milan Kundera, aquele da Insustentável Leveza do Ser, escreveu em Les Testaments Trahis que na neblina a pessoa é livre, mas é a liberdade de uma pessoa na neblina. Quanto a nós aqui, somos livres, mas é a liberdade das pessoas sob os medos. Muitos medos.

Edson Vidigal, ex-presidente do STJ, professor de Direito na Ufma, escreve para o Jornal Pequeno às quintas-feiras.

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