Por Oswaldo Viviani
Colunista da Folha dá como certo que Sarney deixará 'amigo' Lula na mão num momento político delicado
Os políticos de Brasília mais próximos de José Sarney (PMDB-AP) foram pegos de surpresa, ontem, com a suposta decisão do senador de solicitar, nos próximos dias, licença do cargo por quatro meses (120 dias). A informação sobre a licença de Sarney foi divulgada ontem na coluna da jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo.
De acordo com a coluna, o senador amapaense pretende dedicar o tempo que ficar longe do Senado à literatura: Sarney escreve sua 69ª obra, um livro de memórias (“não uma autobiografia, e sim uma obra sobre a memória e as idéias do meu tempo”, explicou recentemente o senador).
No entanto, segundo a colunista da Folha, o que intriga o mundo político é que outras motivações podem estar por trás da licença de José Sarney, “afinal ele já escreveu dezenas de livros e nunca de retirou de cena”, argumenta a jornalista.
Para ela, não é por acaso que esse “retiro” de Sarney ocorre no instante em que ele vive uma crise com a ministra chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff – um ‘braço-de-ferro’ pelo preenchimento de cargos no setor elétrico –, e num momento especialmente delicado do governo, que vai enfrentar no Senado a perigosa CPI (essa, mais que outras, todos sabem como vai começar, mas não como terminará) dos cartões corporativos.
É nesse momento delicado que José Sarney, um dos mais importantes aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, prepara-se para deixá-lo na mão por quatro meses. Ou melhor, na mão de seu primeiro suplente (mais um...) Jorge Nova da Costa, ou do segundo, Salomão Alcolumbre (alguém sabe quem são esses dois?).
Críticas a Lula – A suposta licença é a segunda atitude do senador José Sarney a surpreender políticos e amigos do clã chefiado pelo ex-oligarca nos últimos dias. Na segunda-feira, a Folha de S. Paulo já trazia uma entrevista do senador, na qual ele apontou como “falha” do governo Lula não ter se esforçado para promover uma reforma política. “O governo não tem feito o esforço necessário para fazer a reforma política. Porque, se o presidente colocasse o seu prestígio a serviço de fazer uma reforma política de profundidade no país, seria sem dúvida um marco histórico muito importante”, disse Sarney.
Na entrevista, ele declarou, ainda, que o PT não tem “cultura de parceria”. “O PT, como um partido ideológico, não tem cultura de coligação, não tem essa cultura de parceria. Sempre defendeu o contrário. De maneira que isso deve criar alguma dificuldade de convivência.”
Licença revelará, mais uma vez, político que despreza as lealdades políticas
Caso o pedido de licença do Senado se concretize, José Sarney deixará demonstrado, uma vez mais, o que para ele significa a atividade política: estar bem próximo dos poderosos nos momentos bons e o mais distante possível nos complicados.
Sarney já mostrou, em outras ocasiões, que não é homem de correr o risco de sair chamuscado por conta de lealdades políticas. Foi assim quando deixou o PDS do regime militar e de Paulo Maluf para se atirar nos braços do PMDB de Tancredo Neves e Ulisses Guimarães, quando viu que os ventos da ditadura – a quem servira por mais de duas décadas – seriam suplantados pelos da democracia, em 1985.
Agora, Sarney arquiteta se afastar das chateações da CPI da Farra dos Cartões, que, mesmo com cheiro de pizza no ar, promete ser desgastante o suficiente para minar o poder já reduzido do velho ex-oligarca.
Depois de assentada a poeira, ninguém tem dúvida de que Sarney grudará novamente em Lula e seus resistentes índices de popularidade.
(OV)