Ao defender uma ação articulada de combate à violência com a participação da sociedade, no Seminário “Violência: uma epidemia silenciosa”, o governador Jackson Lago repete um discurso que deve ser o discurso de tantos quanto se preocupam com os níveis de violência no Maranhão, no Brasil e no mundo.
A violência é de fato uma epidemia com transmissores mais diversos. Ela nasce de vírus perfeitamente detectáveis, mas diferenciados, como os vírus da fome e da miséria, da ambição desmedida, da falta de educação e saúde, da sede incontrolável de poder e até da ausência de dignidade espiritual.
É preciso dizer, entretanto, que mais que um problema de saúde pública, a violência deve ser encarada como o grande mal do século XXI. Ela está em toda parte: se movimenta nas escolas, nos lares, nas creches, nos transportes, nas ruas, no mundo. Não há desculpas nem explicações plausíveis para o que o homem é capaz de fazer. Da lesão à tortura, do assassinato ao genocídio estamos hoje plenos de consciência de que grande parte dos homens perdeu a alma. A vida, que deveria ser o bem mais inestimável de uma sociedade, é tratada com desprezo, é ceifada por atentados, assaltos e, principalmente por crimes invisíveis como improbidade administrativa, assalto à merenda escolar das crianças, desemprego, inanição e tantos outros.
Os crimes invisíveis, daqueles que só pensam em se dar bem, que engordam com a porcaria alheia, que se alimentam do mau cheiro dos circundantes e se vestem com os farrapos dos seminus, são os crimes de colarinho branco, de cuecas roxas e gravatas importadas.
A violência invisível também gera essa violência palpável, traduzida em trabucos, facas peixeiras e punhais; em duelos de morte, em dor anunciada, em sangue e areia, em terror e solidão. Em guerras.
De fato os níveis de violência no Brasil extrapolaram todas as expectativas. Tanto que ela está deixando de ser tratada na esfera policial e do Direito para açambarcar setores sensíveis como a saúde e a educação. Tenha embora o secretário de Saúde, Edmundo Gomes, lembrado que pelos indicadores de órgãos oficiais o Maranhão não é um Estado violento, está correto quando ressalva que não podemos negligenciar medidas preventivas e de intervenção na questão violência.
Só para citar alguns dados, o Relatório Mundial Sobre Violência e Saúde da OMS traz estudos realizados na África do Sul, Austrália, Estados Unidos, Canadá e Israel que mostram que entre mulheres vítimas de assassinato de 40 a 70% foram mortas por seus maridos ou namorados, num contexto de abusos recorrentes. Da década de 80 para a de 90 a mortalidade por acidentes e violência passou do 4 para o 2º lugar. Uma análise de morbidade hospitalar por lesões realizada entre os anos de 1984 a 2000 indica que esta foi a principal causa de internação no sexo masculino nas idades de 10 a 19 anos.
Sem dúvida nenhuma, portanto, de que a violência é de fato epidêmica, no Brasil e no mundo. E que os crimes, visíveis e invisíveis estão se tornando meio de vida de gente que perdeu a alma.