A farra com os cartões corporativos, coisa de cuja existência muito poucos tinham conhecimento, é uma mancha a mais para um Governo que ainda tenta escapar da imagem sujismunda do mensalão.
É preciso que cada vez mais se imponha controle aos administradores deste país, para que entendam que gastos de dinheiro público, por reduzidos que sejam, ferem a imagem da democracia e colocam sob suspeita toda a máquina governamental.
É salutar que os ministros do Planejamento, Paulo Bernardo e da Controladoria Geral da União, Jorge Hage, anunciem novas regras para uso desses cartões crédito. Mas talvez não baste.
Entre as medidas anunciadas está a proibição de saques em dinheiro para pagamento das despesas cobertas pelo cartão. Mas custa entender essa de “órgãos essenciais”, como se para alguns a farra fosse permitida em razão do status do órgão ou entidade.
De qualquer modo, é absurdo que nada menos de 7.145 pessoas possuam os tais cartões corporativos na administração federal, ainda mais que 56% delas sequer ocupam cargos de confiança.
Se, de um lado. é compreensível que a realização dos censos agropecuário e populacional tenha estimulado esses gastos, além das operações da Polícia Federal nos Jogos Pan-americanos, de outro é absurdo que ministros de primeiro escalão usem um cartão de crédito para comprar tapioca, conhecida no Nordeste como beiju, um alimento que, afinal, tem alimentado sucessivas gerações.
Custa imaginar que as despesas de uma única ministra, Matilde Ribeiro, com o cartão corporativo, tenham chegado à elevada quantia de 171 mil reais em apenas um ano. Ou que um único almoço do ministro Gregolin tenha custado 512 reais. Aqui no Nordeste tem gente que come o mês inteiro com bem menos disso.
Mais sintomático ainda é o volume de saques em dinheiro desses cartões: 45 milhões de reais. O mais provável é que a ministra Matilde Ribeiro deixe o governo. Ela não vai conseguir explicar tal montante de gastos com um único cartão de crédito.
Para quem não sabe, o cartão de Crédito Corporativo, criado por iniciativa do Ministério do Planejamento é de uso exclusivo das unidades gestoras de órgãos e entidades da administração pública federal, direta, autárquica e fundacional e fruto de um contrato com a BB –Administradora de Cartões de Crédito. Confundiram tudo. Não é bem para comprar beiju que ele serve.