A DIFERENÇA ESTÁ NA COR
Ele apareceu de repente na porta do hotel de Los Angeles, desceu do carro, entrou rápido e subiu quase correndo as escadas para o grande salão, onde uma pequena multidão o esperava com balões coloridos e gritava histericamente seu nome. Parecia que ia cantar. Não era cantor.
Ninguém acreditava nele. Dias antes, no Congresso Internacional dos Municípios, em San Diego, na Califórnia, em 1960, os jornalistas americanos, europeus, latino-americanos, e políticos me garantiam que a eleição estava decidida. Não havia hipótese de Nixon, vice de Eisenhower, o herói que terminava seu segundo mandato, perder as eleições. Todas as pesquisas davam a Nixon uma vitória segura, certa, tranqüila.
Ex-governador da Califórnia, candidato de Wall Street, do stablishment, das elites e da classe política, Nixon venceria fácil. Tinha com ele o rolo compressor da imprensa, do dinheiro e do poder, herdeiro do herói da Segunda Guerra e dos grandes interesses norte-americanos.
KENNEDY
Quando John Kennedy começou a falar, percebi que podiam estar enganados. Jovem, alto, simpático, brilhante, linguagem clara, firme e poderosa, os defeitos e desvantagens do senador de Boston poderiam ser exatamente as razões de sua chance: “jovem demais” (43 anos), “imaturo”, “sem estrutura política”, “sem base de apoio”, “sem vínculos sólidos com o poder em Washington”e “nem mesmo com a cúpula do Partido Democrata”.
Dos jornalistas brasileiros que cobriam a campanha lá, só o saudoso José Guilherme Mendes, da “Última Hora”, achava possível Kennedy ganhar. Todo mundo era Nixon. Mas quem me deu argumentos sólidos foi o silencioso e sábio Rubem Braga, com sua cara de lobo manso, as sobrancelhas imensas sobre os olhos, bebendo seu uísque no fundo do bar.
RUBEM BRAGA
- Você é jovem, está aqui pela primeira vez, não conhece os Estados Unidos. Não vá na conversa de seus colegas. Preste atenção nesse senador católico, vai ser uma zebra eleitoral. E lhe digo por quê:
1 – Católico do Leste em um pais de protestantes, onde as eleições sempre foram vencidas por evangélicos do Oeste ou do Sul, bonitão no meio de políticos desengonçados, casado com uma mulher linda numa terra de mulheres feias, muito jovem quando todos os outros já passaram dos 50, todas essas contradições podem funcionar ao contrário, a favor dele.
2 - E o mais importante: veja bem o que ele está falando. É quem está dizendo coisas novas, numa linguagem nova, atingindo as gerações mais novas. O discurso de Nixon é velho, antigo, o mesmo do fim da Guerra, do Eisenhower candidato em 52 e 56, mal voltando da guerra. A guerra passou, deixou muitas feridas, o país está querendo uma nova mensagem, um novo projeto, um novo líder, que não é o Nixon.
SAMUEL WAINER
Comecei a escrever o que o Rubem Braga me disse. Quando, em outubro, Nixon e Kennedy fizeram em Los Angeles o debate final e decisivo, lá atrás, nos bastidores da TV, vendo bem de perto o duelo histórico, senti claramente que Rubem Braga tinha razão.
Escrevi, acertei. Um dia, anos depois, já os dois na Folha de S. Paulo, o mestre Samuel Wainer me perguntou como é que eu tinha apostado com tanta segurança na vitória de Kennedy, quando, com exceção do José Guilherme Mendes, toda a grande imprensa brasileira dizia que Nixon ia vencer. Eu lhe contei as conversas com Rubem Braga.
- Eu bem que vi. Ninguém acerta assim, numa eleição de 100 milhões que terminou com 300 mil votos de diferença, sem conhecer muito bem o país. E o Braga conhecia bem os Estados Unidos e viveu a guerra.
BARACK
Negro, muçulmano e jovem (47 anos, nasceu em 1961). As enormes diferenças entre Barack e Kennedy é que os unem.
1 – John Fitzgerald Kennedy nasceu em Brookline, perto de Boston, em 1917, no coração do poder político, econômico e financeiro dos Estados Unidos, descendente de nobres e ricos imigrantes católicos irlandeses.
Barack Hussein Obama nasceu em Honolulu, no Havaí, numa família pobre, filho de um imigrante africano do Quênia e uma norte-americana.
2 – Kennedy estudou nas Universidades de Princeton, Harvard e Stanford (Historia, Ciências Políticas, Direito).
Barack estudou nas Universidades de Columbia e Harvard (Ciências Politicas e Direito). Ensinou Direito na Universidade de Chicago.
3 – Kennedy elegeu-se deputado em 1947, reeleito em 48 e 50. Em 52, elegeu-se senador nacional, reeleito em 58.
Barack elegeu-se senador estadual por Illinois em 1996, em 2000 disputou e perdeu para deputado federal, em 2002 reelegeu-se senador estadual, e em 2004 se elegeu senador nacional, sempre por Illinois.
4 – Kennedy escrevia livros, fazia conferências, era um senador atuante, tornou-se uma das lideranças mais fortes do Partido Democrata e uma das personalidades políticas mais importantes do país.
Barack escreveu livros, faz conferencias pelo país todo, é um senador muito atuante, tornou-se uma das lideranças mais fortes do Partido Democrata e uma das personalidades políticas mais importantes do país.
5 – Kennedy foi para a guerra, quase morreu, voltou condecorado. Barack desde o primeiro instante ficou contra a covarde invasão do Iraque. A guerra elegeu Kennedy. Ser contra a guerra pode eleger Barack.
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