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Data de Publicação: 17 de fevereiro de 2008
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POR AURELIO CARVALHO

Especial para o JP

MUITOS FÓSSEIS, POUCOS RECURSOS

Atuando num dos estados com maior número de fósseis já encontrados, pesquisadores maranhenses são barrados pela falta de recursos e acabam cedendo descobertas para paleontólogos de fora

Centro-Leste, Norte e Sul do Maranhão, incluindo cidades como Alcântara (Ilha do Cajual), Carolina, Nova York (Ma), e região do Vale do Itapecuru (Itapecuru-Mirim e Coroatá) – em todos estes locais já foram descobertos fósseis e, segundo pesquisadores, ainda há muitas espécies a serem encontradas. O problema é que os investimentos para bancar as pesquisas são mínimos e a burocracia é grande.

De acordo com o professor do Departamento de Biologia da Universidade Federal do Maranhão (Ufma), Manoel Alfredo Araújo Medeiros, o custo de uma coleta de fósseis que pretenda ser bem-sucedida gira em torno de R$ 15 mil a R$ 20 mil reais, incluindo revezamento de equipes de pesquisadores nos locais propícios.

“Os investimentos são fracos para o potencial do nosso Estado. Atualmente, por exemplo, só temos o apoio da Petrobras, que é extremamente burocrática na escolha dos projetos que vai patrocinar, exigindo, inclusive, uma aprovação perante o Ministério da Cultura. Em nível estadual, o apoio praticamente não existe”, disse Manoel Alfredo.

Fotos:GILSON TEIXEIRA
O pesquisador Manoel Alfredo e a arraia espadarte: poucos recursos para o potencial do MA

A arraia espadarte teria certa semelhança com o tubarão

“Para se ter uma idéia, a região de Itapecuru-Mirim é vasta e propícia para nossos estudos, mas não conseguimos explorá-la porque não temos recursos. Aí vêm os grandes centros do país, com enorme apoio à pesquisa, e acabam coletando o material no Maranhão e levando para estudo em seus estados. O que vamos fazer? Impedir? Claro que não. O material está lá, disponível para os pesquisadores de qualquer lugar coletarem. Não poder realizar essa tarefa nos entristece. Temos o produto diante dos nossos olhos e não contamos com apoio para pesquisá-lo”, lamentou o professor.

Arraia e serpente – Recentemente, a encarregada do setor de paleontologia do Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Maranhão (CPHNAM), Agostinha Araújo Pereira, e o professor Manoel Alfredo encontraram na Ilha do Cajual, em Alcântara, dentes de um animal pré-histórico, com cerca de dois metros de comprimento – um tipo de arraia, chamada espadarte. O achado intrigou os pesquisadores, que nunca haviam visto algo parecido.

“Enviamos o material encontrado para o alemão Henri Cappetta, paleontólogo e especialista em peixe. Ele conhece tudo de peixe. Quando ele viu os dentes que enviamos, principalmente os 15 que estavam em bom estado, disse que não reconhecia o que era aquilo. Por isso, entraremos agora em processo de estudo para nomear a espécie e, assim, termos um novo gênero a partir dos fósseis encontrados”, explicou Agostinha Araújo.

Também na Ilha do Cajual foram achados dentes e vértebras que podem ser de uma espécie nova de serpente. Mas, segundo Manoel Alfredo, a hipótese está sendo estudada e ainda não foi confirmada.

No próximo dia 22 de fevereiro, cerca de 12 estudantes do 1º ao 8º período da Ufma e Uniceuma participarão de uma expedição rumo à Ilha do Cajual, onde realizarão novas coletas de troncos de fósseis. Os custos serão bancados pelas próprias universidades.

O Maranhão conta hoje com apenas três especialistas em paleontologia e três alunos com trabalhos concluídos nesta área. De acordo com Agostinha Araújo e Manoel Alfredo, já foram coletados no estado cerca de seis mil peças de fósseis. Na Ufma, estariam expostas 3 mil delas, entre cetrum vertebral de dinossauro, dentes etc. Outras 2 mil estão no Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Maranhão. “Imagina se tivéssemos apoio, quantas peças de fósseis a mais não teríamos conseguido?”, disse o professor da Ufma.

Maranhão, terra dos fósseis

De acordo com a pesquisadora Agostinha Araújo, o sítio fossilífero da Ilha do Cajual foi descoberto em 1994, pelo professor e geólogo Francisco Correia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele estava no Maranhão estudando as rochas, e, por meio de imagens de satélite, avistou um ponto preto no material. O geólogo procurou, então, o professor Manoel Alfredo, da Ufma, junto com o sr. Coringa, morador da Ilha do Cajual, e mostrou o que tinha achado.

Alguns dos fósseis expostos no Centro de Arqueologia

Mas foi somente a partir de 1999 que a Ufma realizou sua primeira coleta sistemática de fósseis para a coleção.

A triagem foi feita por lupa manual (no caso da rocha) e óptica, em outros casos estudados posteriormente.

Hoje, sabe-se que a Ilha do Cajual possui o maior número de fósseis identificados do país, sendo que em Itapecuru-Mirim predominam as espécies amazonsauro e candidodon; e em Coroatá predominam os ossos de dinossauros (80 deles estão expostos na Casa de Cultura do Maranhão).

Reconhecimento do fóssil pode demorar até 2 anos

Encontrado o material, faz-se um primeiro estudo. Em seguida, os pesquisadores preparam o trabalho e levam a um Congresso de Paleontologia. Lá, o trabalho é apresentado, e se for constatado por estudiosos que não existe nada em comum com o exposto, inicia-se o processo de estudo para nomear a espécie – o que demora cerca de dois anos.

Dentes da arraia foram enviados a pesquisador alemão

Para que essa nova espécie exista, os pesquisadores precisam preparar um artigo com a descrição minuciosa do suposto fóssil, e enviá-lo à Sociedade Brasileira de Paleontologia, que faz a correção, devolve e orienta o pesquisador nas modificações. Após esgotados os ajustes e falhas, é autorizada a publicação em revistas nacionais e internacionais de renome, como a Revista Brasileira de Paleontologia e a Scientific American. A partir daí, passa a existir o registro da espécie para a história da paleontologia no mundo.

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