Opinião
(Tributo a Maria Aragão / 1910-2008)
Cesar Teixeira
De ti não carrego o adeus,
mas a ferida exposta no peito
– insaciável como uma rosa
pulsando entre punhais.
Não cabes mais nas palavras,
e tanto é o abismo da língua
que te recrio em silêncio
na fome convexa dos mendigos,
barro do teu verbo invisível.
Tua ausência, extraída à foice
em parto cesariano,
inunda o meu coração:
descobri que era uma estrela
essa luz entre os lençóis.
Na falta de uma política
de primeiros socorros para o planeta,
que este poema
(cujo tecido é de alma)
sirva de agasalho e hóstia
aos famintos;
que, não estando nas palavras,
sirva de trincheira e gaze
aos aleijados
– inclusive poetas sem pátria.
E, para não vê-lo queimado
em praça pública,
feito bandeira ou bíblia execrada,
que seja posto no vértice
da mais alta montanha,
onde somente as nuvens
maltrapilhas
com suas bocas de borboleta
possam tocá-lo,
como agora eu toco as tuas mãos,
que brotam da terra úmida
cheias de pássaros e orquídeas.