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NacionalLíder camponês teve uma perna amputada por tiro disparado pela polícia de Sarney

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11 de dezembro de 2008
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POR OSWALDO VIVIANI

TORTURA, SEU NOME É SARNEY!

Depois do episódio, ocorrido em 1968, Manoel Conceição foi preso e torturado diversas vezes, no Maranhão e em outros estados, mas José Sarney - que hoje coloca o Sistema Mirante a serviço da causa dos direitos humanos - "não sabia nada de torturas" na época da ditadura, como já declarou

Manoel Conceição: Sarney tentou corrompê-lo, mas ele recusou

Em homenagem aos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, celebrados ontem (10.12), e no intuito, ainda, de subsidiar historicamente os "manda-chuvas" do Sistema Mirante - ultimamente preocupadíssimos com as questões da tortura e dos direitos humanos no Maranhão -, exibo aos leitores trechos de uma entrevista de um dos maiores líderes populares do país - Manoel Conceição Santos, maranhense de Coroatá, hoje com 73 anos -, concedida ao portal da Fundação Perseu Abramo, em março de 2005.

"Eu perdi essa perna no dia 13 de julho de 1968, em Anajá. Nós convocamos um encontro de trabalhadores doentes, com malária, mulheres precisando fazer exame. O sindicato tinha contratado um médico em São Luís, o doutor João Bosco. Na hora em que ele estava atendendo, recebemos um recado do prefeito de que ia fazer uma visita. Nós aguardamos, de bom coração. E aí chegou foi a polícia - e, de novo, meteram bala. Não morreu ninguém, só saíram feridos e eu com essa perna, a direita, baleada. O pé esbagaçou todinho. Fui preso, passei oito dias na cadeia em Pindaré-Mirim, mas não deram nenhum tratamento e a perna gangrenou. Quando cheguei em São Luís, tiveram de amputar. Até hoje ando de perna mecânica.

Mas houve uma pressão em São Luís, de estudantes, professores, o advogado, o próprio médico que fez a operação. Na época em que eu estava no hospital, o Sarney - que era o governador - chegou do Japão. Ele tirou uma comissão do secretariado de governo e mandou no hospital para pedir desculpas e fazer uma proposta: me daria uma perna mecânica, uma casa, um carro, mais um salário para mim e um pouco para a família, para eu trabalhar para Zé Sarney no Maranhão.

Sarney tinha sido o cara mais votado do estado, porque quando foi candidato, em 1965, jurava, em cima de caminhão, que ia fazer a reforma agrária (...). Esse discurso pegou em cheio. Nós fizemos campanha para ajudar esse homem se eleger. Mas foi a polícia dele que chegou lá em Pindaré-Mirim metendo bala. Aí eu lembrei disso e disse para os emissários do Sarney: 'Acho até importante o que vocês vêm fazer aqui, essa oferta, mas eu perdi uma perna na luta com os trabalhadores rurais, em defesa da terra, de sua produção e seus direitos. Esses trabalhadores têm condição de me dar uma perna, já que não posso comprar sozinho. Até porque eu considero a minha classe a minha própria perna daqui pra frente. Minha perna é minha classe'. E não aceitei. Depois disso, não recebi mais ninguém deles."

Manoel Conceição prosseguiu sua luta, naturalmente em trincheira totalmente oposta ao coronel de Curupu. Conta o jornalista e pesquisador Otto Filgueiras:

"No início da década de 70, o governo militar - apoiado por Sarney - intensificou a repressão contra os trabalhadores na região de Pindaré-Mirim (onde Manoel Conceição atuava). Centenas de pessoas foram presas, e no dia 2 de janeiro de 1972 prenderam Manoel em Tufilândia e o levaram para o Departamento de Ordem Política e Social (Deops) - a polícia política estadual - de São Luís. Em 24 de fevereiro, Manoel foi seqüestrado por agentes do temido DOI-Codi (Departamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna).

Manoel só soube do seu destino quando o avião em que fora embarcado pousou no Rio de Janeiro. Ali, foi entregue ao Comando do I Exército e levado para o quartel da Polícia do Exército, no bairro da Tijuca. Logo que chegou, sua perna mecânica foi arrancada e, nu, foi colocado na 'geladeira', a solitária, onde era tratado a pão e água, entre sessões de interrogatório e torturas.

Levado, de vez em quando, a um hospital para ser medicado com antibióticos e tomar banho de gelo para espalhar o sangue coagulado no corpo, Conceição era sempre reconduzido ao quartel da PE, onde as torturas continuavam com a mesma brutalidade. Ele também foi torturado no Centro de Informações da Marinha (Cenimar), onde o 'Dr. Cláudio' (codinome usado pelo inspetor Solemar de Moura Carneiro, especialista em interrogar militantes da Ação Popular (AP), organização à qual Manoel pertencia) comandava as atrocidades.

Além das torturas convencionais com choque elétrico, 'pau-de-arara' e espancamento, Manoel contou que uma vez levantaram seus braços com cordas amarradas ao teto, colocaram seu pênis e os testículos em cima da mesa e, com uma sovela fina de agulhas de costurar pano, deram mais de trinta furadas. 'Depois bateram um prego no meu pênis e o deixaram durante horas pregado na mesa', declarou.

Após sete meses de tortura, incomunicável e tido como desaparecido, o agricultor teve cabelos e barbas cortados e foi levado para Fortaleza (Ceará), sendo deixado numa cela do quartel do Exército 5º BIS, durante 15 dias, até ser apresentado à Auditoria Militar, em setembro de 1972.

Manoel Conceição só saiu vivo dessa rotina de brutalidades graças à campanha feita no Brasil e no exterior por seus companheiros da AP - entre os quais o atual governador de São Paulo, José Serra, então militante da organização exilado no Chile -, que denunciaram sua prisão. A Anistia Internacional mobilizou autoridades por todo o planeta, incluindo as igrejas católicas e evangélicas da Inglaterra, Suíça, Itália, França, Alemanha e dos Estados Unidos, que protestaram contra a prisão e desaparecimento do agricultor, enviando cartas ao ditador- presidente da época, general Emílio Garrastazu Médici.

Em maio de 1975, Manoel Conceição foi julgado na Auditoria Militar, em Fortaleza, e condenado a três anos de cadeia. Teve também os direitos políticos cassados por 10 anos. Depois de libertado, Manoel foi acolhido pelo cardeal dom Paulo Evaristo Arns, de São Paulo, que providenciou para que ele fosse internado no Hospital Santa Catarina. Devido à tortura, o agricultor urinava através de sonda e ficou impotente por anos.

Depois de um mês de tratamento no hospital, ele foi para a casa do padre Domingos Barbé, em Osasco. Mas, a liberdade durou pouco. Na manhã de 28 de outubro de 1975, a casa foi invadida por policiais, que o levaram para o Deops paulista, onde o jogaram nu numa fossa cúbica, não muito longe da sala de torturas, de onde escutava os gritos de outros presos e também ouvia nos pesadelos o eco dos seus próprios gritos. Além do espancamento e choques elétricos, Manoel era ameaçado por policiais do DOI-Codi, que avisavam: 'Sua prisão não tem nada a ver com a Justiça, que foi incapaz de julgá-lo. O problema é nosso'.

As torturas só foram interrompidas quando Manoel recebeu a visita do advogado Mário Carvalho de Jesus, da Frente Nacional do Trabalho. Na ocasião, o próprio papa Paulo VI enviou um telegrama ao general Ernesto Geisel, pedindo por sua vida e exigindo libertação.

Em 11 de dezembro de 1975, Manoel Conceição foi finalmente solto e ficou sob a proteção da Anistia Internacional, que providenciou seu exílio em Genebra, na Suíça, para onde partiu em março de 1976.

Depois da anistia, em 1979, Manoel voltou ao Brasil, participou da reorganização da Ação Popular junto com Jair Ferreira de Sá, ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores (PT) e criou o Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural (Centru), em Recife (PE) e em Imperatriz (Maranhão), onde vive até hoje lutando pelo socialismo e pela reforma agrária."

José Sarney afirmou desconhecer este e outros casos de tortura que macularam a história do Brasil. "Não tinha conhecimento nenhum [das torturas], pois estava no Maranhão, era governador do Maranhão [...]", declarou, pateticamente, o velho coronel, numa sabatina promovida pelo jornal Folha de S. Paulo, em 26 de agosto deste ano. No mesmo evento, Sarney disse que o assunto da punição aos torturadores da ditadura deve ser esquecido. "Não há razão para que devamos renascer com o assunto", afirmou. É em razão dessa condescendência de Sarney em relação a episódios tão bárbaros - a exemplo do vivido por Manoel Conceição - que fica difícil crer na sinceridade da recente conversão de seu tentáculo midiático (Sistema Mirante) à causa dos direitos humanos.

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