Sem 'happy end' no fimEudes Oliveira de Alencar
eudesalencar@hotmail.com
A linguagem do cinema reflete mais que modismos hollywoodianos. Revela também aspectos importantes da forma de pensar e agir desta banda ocidental da terra. Eles, como forjadores de cultura, enviam sinais, às vezes antes que os demais percebamos a quanto anda nossa forma de ser no mundo. Pelos últimos dobres dos sinos, estamos desencantados. Mais que isso, os novos filmes parecem querer mostrar a realidade de forma mais crua (malévola) que a própria, talvez seja um artifício porque é impossível mostrá-la em todas as suas facetas. Os enredos são bidimensionais como a tela.
Menciono três filmes recentes, cada um de um gênero, e os tomo de forma aleatória. “Onde os fracos não têm vez”, “Os reis da rua” e “Jogos Mortais V”. Recuso-me a assistir ao último. Apesar de diferentes na proposta, todos têm algo em comum: o mal não é vencido. Ele se metamorfoseia. Resiste. Transmuta-se. Renasce como erva daninha quando destruído em algumas de suas manifestações. Vence boa parte da luta. Os bons, quando há, parecem bobos. Os mocinhos carregam boa dose de malignidade como forma de enfrentar seu oponente. De fato, às vezes, é difícil saber quem é mocinho e quem é bandido, para usar uma linguagem simplista.
Não há mais espaço para os filmes em que os valores são claros (não tenho saudade do maniqueísmo), onde cada qual tinha sua função e, no final, o bem sempre vence. Esperança, nestes roteiros, é coisa de sonhador. Não há felicidade na última cena, nem sua promessa, mas um toque de amargor na boca como a dizer: bata a poeira e siga, porque amanhã te espera o mal bem vivo e ativo e não um futuro róseo. O que aconteceu?
A resposta, penso, está em olhar para a realidade ao redor. Você não se deu conta que experimentamos destruir valores, retirar marcos, inverter verdades, dar status a mentiras como se verdades fossem ou admiti-las sem mais, em prol de coisas, dizemos, superiores? Minimizamos leis, abraçamos a leniência, damos razão e status de verdade para todos, perdemos a autoridade como pais, exaltamos o individualismo enquanto gritávamos em favor dos que morrem algures, e pelo fim de guerras que vemos como jogos nos noticiários da tv. Onde nos perdemos?
O diabo, percebam, foi domesticado. Religiões e filosofias, idéias nem tão interessantes assim, todos desmistificam o diabo e até lhe tratam com certa pena, o outro lado da moeda de Deus. Todos arriados no pólo oposto do pêndulo, pois, segundo afirmam, ele foi saco de pancadas de tudo quanto é ruim em nós, carrega nossa culpa, é nosso bode expiatório e no frigir dos ovos, é útil, tem seu papel e ousam argumentar: o bem depende do mal como sua contraluz. Lembra a música do Lulu Santos: “não haveria luz se não fosse a escuridão”. Que bobagem!
Pergunto-me se era isso que Jesus queria dizer com “o mundo jaz no maligno” (1 Jo 5.19). A frase que antecede esta expressão afirma que sabemos, disse Ele, que somos de Deus. Ora, os que “somos” de Deus - afirmam os vários escritores no Novo Testamento - praticam o bem. Seus contrários, diz um dos versículos, nunca viram a Deus (3 Jo 1.11). Então, devo julgar que a prática do bem é a mais poderosa combatente contra o mal, sem perder a perspectiva que o mal, em todas as suas formas insidiosas, apenas terá seu fim no dia da manifestação de Cristo. Isso parece tolo? Somente se não praticarmos o bem, portanto este é o desafio da Igreja de Cristo.
Recordo aqui Hanna Arendt e a expressão por ela criada: a “banalidade do mal”. Não há espaço para discutir suas idéias, apenas menciono de passagem, neste contexto, para perguntar se a omissão de fazer o bem não é uma escolha em favor do mal. Hannah discute a questão da escolha do mal menor como sendo a própria escolha do mal, que nunca é relativo, mesmo em sua menor porção. É o que João, na carta mencionada acima, diz: Somos de Deus. Não há meio termo, posto que não é possível ao nascido de novo ter duas naturezas.
O mal se insinua sempre sutil. Uma furada de fila, um jeitinho no trânsito, uma mentirinha à toa. É bobagem, dizemos, não prejudicou ninguém. Como se isso fosse algum tipo de salvo-conduto e não vemos que alimentamos um lobo em nós com petiscos jogados debaixo da mesa, que nos devorará e no dia em que o encontrarmos haverá entre nós e ele algo de comum que nos intimidará a enfrentá-lo, quem sabe ensimesmados em pensamentos por estarmos de nós mesmos enojados.
Esqueçam a firula oriental de Yin e Yang. O bem não é o oposto do mal. São categorias distintas em natureza. Não se anulam quando confrontadas. Não estão no mesmo plano. São instâncias de poder diferentes, não há como estabelecer paralelos entre um e outro. O bem, vejam as ações de Jesus, nunca confronta o mal no sentido de uma luta encarniçada corpo a corpo. A simples manifestação do bem acua o mal, derrota-o, enfraquece-o, expõe-lhe as entranhas. O mal morre, embora renasça sempre forte em suas multiversões, mas um dia terá fim. O bem é eterno, posto que nunca possa morrer. Assim, é a manifestação do bem que derrota o mal e não o enfrentamento deste. A força do mal é o acovardamento do bem.
Sabemos que funciona e por que praticamos tão pouco? As pessoas terão fé em nossos espetáculos midiáticos ou na afirmação corajosa do bem que são a forma de enfrentar as estruturas malignas, seus castelos cheios de baluartes, entranhados em nós e em todas as instâncias sociais? Como crerão se não há (ou há bem poucos) quem manifeste a graça de forma desprendida, generosa e despretensiosa? A nova evangelização pede um povo cheio de boas obras e não estratégias inspiradas no capitalismo.
Paulo argumenta, num contexto de recomendação que enseja a boa e sadia relação entre os irmãos, que era necessário agir (perdoar) para que Satanás não alcançasse vantagem sobre eles, pois não ignorava seus desígnios (2 Co 2.1-11). Quer dizer, o bem não é para ser pendurado na parede. É assertivo, operoso, incansável e só assim ele não permite que o inimigo se aproveite. É nossa responsabilidade também. O mal não dormita em nós, nem aquele que o personifica. Mas nunca poderemos dizer que ele cometeu sua malignidade sozinho, não há como esconder-se. Este é outro traço do pensamento de Hannah Arendt. Desculpar-se é como dizer: “A mulher que me deste” ou “a serpente me enganou e eu comi”. (Gn 3.12,13)
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