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ArtigosSARNEY (OU A LÓGICA DO VOTO, DA FRAUDE E DO TAPETÃO)

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22 de novembro de 2008
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Haroldo Sabóia

O senador José Sarney é um homem disciplinado. Quase que adestrado para o exercício do poder. Solícito com aqueles que ocupam posições hierárquicas superiores a sua. Autoritário, ou se lhe convém afável, com seus iguais ou subordinados.

No seu espírito é muitíssima tênue a fronteira entre a conquista do poder e a seduções dos poderosos. Em outras palavras, se não lhe é possível conquistar diretamente o poder, tratar-se-á de usufruí-lo pelo convívio da Corte. Não lhe importa as piruetas necessárias à empreitada.

Foi assim com o Vitorino Freire, com o Newton Bello, com o Chateaubriand, com o Marão, com o Magalhães Pinto, com o Jânio Quadros e tantos outros... Com o João Goulart igualmente. Sarney foi da Bossa Nova da UDN, oposição chapa branca oportunista e fisiológica que logo, logo aderiu ao golpe de 64, com raras e honrosas exceções.

Tal um saltimbanco, pula-pula, Sarney, esteve sempre apegado ao poder e aos poderosos. Durante a ditadura cortejou os generais, de Médici a Figueiredo. Dirigente da Arena e PDS, Sarney até hoje jura que sequer tomou conhecimento das torturas que tantas vidas ceifaram, tantos corpos mutilaram, naqueles anos de chumbo.

No plano estadual, rompeu com Pedro Neiva no final de seu governo (em 1974 quando não teria eleição para disputar, pois seu mandato de senador iria até 78) e com o Nunes Freire que não aceitou regularizar as terras que Sarney grilara na Fazenda Maguary, em Santa Luzia.

Daí em diante apoiou todos os ocupantes dos Leões, da primeira à última hora: João Castelo (1979-1983), Luís Rocha (1983-1987), Epitácio Cafeteira (1987-1990), Edson Lobão (1991-1994). Nesse período floresceram o Sistema Mirante e as demais empresas da família. Os atritos eventuais eram resolvidos no interior do sistema oligárquico. Ao Fernando, a Cemar; ao Sarney Filho, a Caema; à dupla Roseana-Jorge Murad, o BEM e a Telma.

É José Sarney quem toma sempre a iniciativa política de romper ou se afastar dos governadores: Castelo, Cafeteira e Luís Rocha. Sem pressa, todavia: espera que deixem o governo, voltem à planície, longe do Palácio (até parece que para o Poeta dos Marimbondos, a proximidade com os Leões rima com bilhões...)

Lobão constitui exceção, sem apoio do Governo, sem as grandes armações (Isto É-Granville e o Caso Reis Pacheco) e sem a fraude pura e simples (milhares e milhares de votos em branco desviados), Roseana jamais seria eleita em 94.

Será o governador José Reinaldo Tavares quem ousará quebrar essa terrível lógica, essa estrutura de controle férreo do poder local pela oligarquia. Daí o desespero de Sarney e seu ódio ao ex-governador.

“A vitória de Roseana está assegurada”, afirmou Sarney no artigo “A hora da decisão”, publicado no domingo das eleições. “A mentalidade de Jackson é do século XIX. Sua cabeça está impregnada de ódio e de vingança de um tempo que já passou”. Para em seguida proclamar, ameaçador, que o processo das eleições “será julgado pela Justiça Eleitoral, não apenas no Maranhão, mas nas instâncias superiores, isentas e soberanas” (O Estado do Maranhão, 29/10/2006). Em outras palavras: no voto, na fraude, ou no tapetão!

“O povo votou. O povo é soberano. Isso é que é importante. O povo votou e escolheu. Espero que o Jackson faça um bom governo”, declara Roseana após os resultados. Na mesma edição, duas matérias chamam a atenção: “Região Tocantina tem eleições tranqüilas” e “Eleição foi tranqüila em São Luis” (EMA, 30/10/2006). O tom parece mudar.

“Jackson tem uma história política e familiar respeitável”, Sarney afina a voz e a caneta, em artigo “O fim do fim”, publicado no dia da posse do governador eleito (EMA, 01/01/2007).

E assim, desde então, caminham por duas vias. A primeira, de enfrentamento sem trégua: tentativa permanente de desqualificação do governador, sabotagem às parcerias com o governo federal com o objetivo de inviabilizar os programas de políticas sociais e retardar a execução de obras públicas. A segunda, de contemporização: Sarney e seus aliados acenaram várias vezes, até mesmo em editoriais no jornal da família, com a possibilidade aproximação com o governo, desde que – pasmem! – o governador traísse seus compromissos históricos com o povo e com a Frente de Libertação.

Embora com muitos erros e equívocos, a Frente resiste e avança; com certeza impulsionada pela determinação do Dr. Jackson e pela enorme percepção popular que não admite ver o Maranhão retroceder.

Enquanto isso, Sarney parece delirar quando se imagina capaz de reeditar farsas como a do Caso Reis Pacheco, em que representou à Suprema Corte contra o senador Epitácio Cafeteira pela morte imaginária do ferroviário.

Concebe um hipotético Tribunal Superior Eleitoral alheio ao mundo real, à vida real, aos movimentos, anseios e pulsações da sociedade brasileira em mutação.

Ousa recorrer contra ato do Tribunal Regional determinando a diplomação do governador e do vice, eleitos pelo voto popular. Única forma que encontrou para impedir que o Tribunal Eleitoral do Maranhão apreciasse a tralha que forjou.

Esquece que à realidade dos autos há que corresponder a “verdade real”, a realidade objetiva. Do contrário estaremos diante de mais uma deplorável peça de ficção... Made in Curupu!

E-mail: haroldosaboia@hotmail.com

Haroldo Saboia, 58 anos, economista, advogado, Constituinte de 1988

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