O Brasil pós pré-sal (Final)J.F.Pantoja, Abdelaziz Jr. e M. Bordalo (*)
Há mais de 150 anos iniciou-se a era do petróleo. Assim, a descoberta na camada do pré-sal , acontecida quando já se visualiza o fim dessa era, pode ser considerada tardia. Isso pode ser duplamente vantajoso. Primeiramente, tecnologias só agora disponíveis e a globalização da consciência ambiental permitem que o combustível fóssil seja gradualmente substituído por energias mais limpas. O Brasil oferece ótimas oportunidades de investimento em bioenergia. Com recursos disponíveis, podemos avançar muito no desenvolvimento de fontes alternativas de energia, como a eólica e a solar, que exigem investimentos iniciais relativamente altos, mas têm grande retorno em longo prazo. Dotar o Brasil de uma matriz energética limpa e renovável, capaz de sustentar seu crescimento pelos próximos séculos, seria uma forma de garantir-se que futuras gerações de brasileiros continuem beneficiando-se da riqueza do pré-sal muito depois das reservas haverem sido esgotadas. Em segundo lugar, a disponibilidade de recursos para financiar um novo ciclo de investimentos privados no início do século XXI, permitirá a consolidação de novas tecnologias em desenvolvimento no Brasil e a importação e adaptação de importantes tecnologias já consolidadas no exterior. Esse processo forçosamente levará a uma maior iteração empresa-universidade e fortalecerá nossas instituições de pesquisa e desenvolvimento tecnológico. Em suma, uma imperdível oportunidade de modernizar-se o parque industrial brasileiro, tornando as empresas mais eficientes e competitivas. Além de financiar os investimentos privados com os recursos do pré-sal, seja pela criação de novo fundo, manobra puramente contábil, ou pela capitalização do BNDES, o Estado investirá na formação de mão de obra especializada e em infraestrutura.
Esse crescimento econômico será o principal instrumento no combate à pobreza de que fala nosso presidente e seus benefícios de inclusão sócia,l pela geração de emprego e renda, será ampliado se for usado para reduzir desigualdades regionais, incentivando-se a exploração das potencialidades locais. É recomendável que a nova política industrial seja orientada para agregar valor às “commodities”, tornando o país menos sensível às especulações existentes nesse mercado, diversificando e valorizando a pauta de exportações do Brasil. No caso do petróleo, não nos interessa exportá-lo bruto. Não queremos entrar na OPEP e sim fortalecer o refino e a indústria petroquímica. Aliás,pela reserva do pré-sal ser constituída de petróleo leve, com mais partes nobres, como o eteno e o propano,insumos básicos para a indústria petroquímica, essa poderá em muito beneficiar-se com o barateamento da matéria prima e colocar o Brasil em preponderante posição no setor. Essa última constatação interessa ao Maranhão, já que a PETROBRÁS pretende instalar uma grande refinaria no estado. O próprio processo de extração do petróleo das grandes profundidades em que se encontra permitirá à PETROBRÁS consolidar sua liderança mundial nessa tecnologia e abrirá grande espaço para investimento. Isso já foi percebido por Lula, que defende a fabricação no Brasil dos navios –sondas necessários- uma tecnologia que terá que ser importada da Coréia - , ainda que a PETROBRÀS tenha que arcar com custos mais altos. O mesmo vale para plataformas, petroleiros, equipamentos de todos os tipos , todas as engenharias, robótica, eletrônica, ligas metálicas e siderurgia. Observe-se que esse crescimento industrial , financiado com os recursos do pré-sal, vai aumentar a demanda de aço no mercado interno. Como o Maranhão exporta enormes e crescentes quantidades de minério, o mesmo raciocínio de agregar valor às “commodities” justifica a instalação de uma usina siderúrgica em nosso estado. Abrem-se novas perspectivas para o Governo do Estado envidar esforços nesse sentido e seu sucesso poderá iniciar um ciclo de industrialização no Maranhão, com a atração de empresas metalúrgicas e montadoras. Quem sabe possamos ter aqui uma fábrica de ônibus movidos a etanol, futuro veículo a ser adotado nas grandes metrópoles mundiais, como forma de reduzira as emissões de carbono e melhorar a qualidade do ar respirado pelos seus habitantes?
Para garantir um contínuo crescimento econômico, não basta investir em bens de capital e na ampliação da capacidade industrial instalada: é preciso mão de obra especializada. Isso nos remete aos planos de Lula em investir na educação. A erradicação do analfabetismo, as metas do Plano Nacional de Educação para a educação pré-escolar, a universalização do ensino básico e o aumento de vagas nas instituições públicas de ensino superior são visíveis necessidades a demandar recursos. Entretanto, não é suficiente aumentar o número de alunos nas escolas, faz-se mister melhorar a qualidade do ensino nelas oferecido: o IBGE aponta que mais de 80% das crianças analfabetas com mais de sete anos estão matriculados em alguma escola. Para mudarmos de patamar na qualidade do ensino público é preciso deixar para trás as salas de aula com precárias instalações, onde um mal preparado e desmotivado professor usa o quadro negro para repetir o que aprendeu na sua infância, e adentrar os laboratórios bem equipados, escolas com acesso a INTERNET , onde profissionais bem remunerados, com nível superior, orientem a busca do conhecimento por alunos bem alimentados e que não precisem perder horas para vir e voltar para casa. Além disso, a desejada universalização do ensino médio, particularmente nas zonas rurais, pode ser acompanhada por uma mudança estrutural: em vez de um aprendizado genérico e de costas para o mercado de trabalho, é no 2° Grau que o jovem deve aprender uma profissão . A revogação do decreto 2208/97 pelo decreto 5154/04 abriu espaço para a criação do Ensino Médio Integrado à Educação Profissional, em que, na mesma escola e com a mesma matrícula, o aluno obtém, simultaneamente, o diploma de 2º Grau e o certificado de Técnico de Nível Médio: tanto pode dirigir-se ao ensino superior quanto exercer a profissão aprendida. Mais ainda, ao associar prática e teoria, dá ao egresso a base teórica necessária para acompanhar os futuros desenvolvimentos tecnológicos da profissão, tornando-o protagonista de seu destino. O MEC está atento às vantagens dessa modalidade de ensino e tem incentivado sua implantação, mas o custo/aluno mais alto tem inibido sua adoção pelos estados. Cremos que os novos recursos teriam aí uma nobre destinação, capaz de, em poucos anos, universalizar as oportunidades de profissionalização de nossa juventude. Além de evidentes ganhos na cidadania, permitidos pela obtenção de um emprego decente, essa iniciativa em muito contribuiria para erradicar a miséria e reduzir a pobreza, alvos principais de qualquer dirigente compromissado com os interesses nacionais.
(*) Núcleo de Energia Limpa/SEMA
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