Aparentemente o senhor Fernando Sarney está se enrolando numa rede de mentiras quando afirma que a investigação em torno da movimentação financeira de sua conta bancária e de empresas do Grupo Mirante não passa de um mero procedimento fiscal.
A coisa toda cheira mal. Fernando Sarney pode nunca ter sido candidato, mas sempre funcionou como uma espécie de agente financeiro dos negócios da família, tesoureiro do que presta e do que não presta por ali.
É perturbadora, também, a afirmação de que os R$ 2 milhões que viraram objeto de investigação da Receita Federal e do Coaf referem-se a um empréstimo obtido por ele junto a outro empresário, através de contrato registrado em cartório e lançado em sua Declaração de Imposto de Renda. Os jornais do sul e o Jornal Pequeno citam o empresário Eduardo de Carvalho Lago. O jornal O Estado do Maranhão esconde o nome e a TV Mirante simplesmente ignora a notícia.
É o caso de se perguntar: por que a Receita Federal e o Coaf resolveram investigar um empréstimo, contrato mútuo, ou seja lá como se chame essa transação suspeita, se em torno dele há tanta lisura.
E mais: é o próprio Fernando Sarney quem afirma que o Sistema Mirante movimenta mais de 100 milhões de reais por ano. Se assim é, por que diabos uma empresa tão sólida iria precisar desses dois milhõezinhos safados.
O mais ridículo de todas as respostas ridículas que estão sendo produzidas é essa de que o dinheiro caiu na conta da Gráfica Escolar por equívoco. Apenas leiam isso: em 24 de outubro o empresário Eduardo Carvalho Lago fez uma transferência de R$ 2 milhões para a Gráfica Escolar, da qual Fernando é sócio. No mesmo dia, a Gráfica fez um depósito no mesmo valor para Eduardo. No dia seguinte, Eduardo fez nova transferência de R$ 2 milhões, desta vez para a conta pessoal de Fernando que sacou metade do dinheiro no mesmo dia e a outra metade no dia 26. Três dias antes do segundo turno das eleições.
A impressão que se tem é de que o dinheiro resolveu dançar uma lambada, ou um carimbó.
Coincidência e vaivém de milhões também têm limite, senhores. As datas de 25 e 26 de outubro para saques nesse valor, quando a eleição seria dali a três dias, sugerem exatamente o que os senhores estão pensando: que o grupo Sarney praticou corrupção eleitoral descarada nas últimas eleições.
E ainda nem citamos o fato de que, paralelamente a isso, entre o final de setembro e o final de outubro foram feitos saques superiores a 1 milhão de reais por altos funcionários da Mirante.
Sem contar que o empresário que emprestou o dinheiro para Fernando responde a processos por não-recolhimento de contribuição previdenciária ao INSS, negociação de títulos sem lastro, formação de quadrilha e estelionato.
É inocência demais para uma transação financeira só. Fernando Sarney, assim como Jorge Murad e Roseana no caso dos R$ 1,34 milhão da Lunus, parece culpado. Pode até não ser, mas que parece, parece.