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cidadesEspera por transplante: uma constante luta pela vida

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30 de setembro de 2007
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Por Jully Camilo

A carência de doadores de órgãos ainda é um grande obstáculo para as pessoas que necessitam de transplantes no Brasil, mas que têm a esperança como palavra de ordem

A luta pela sobrevivência é uma ação constante.

Foto:G.FERREIRA
Pacientes renais crônicos submetem-se a sessões de hemodiálise

Todos os dias vivemos e enfrentamos uma verdadeira guerra em busca de uma vida melhor, ou apenas por um pouco dela. E é dessa forma que, com muita alegria e esperança, vive o free lancer Wagner José Bispo Araújo, 55 anos, residente na rua da Misericórdia, n° 186, centro de São Luís, que sofre de insuficiência renal crônica (IRC), o que impossibilita seu rim de realizar as suas funções. Ele afirmou que já nasceu com um dos órgãos geneticamente atrofiados e o outro só funciona com 25% de sua capacidade. “No início sofri muito, fiquei debilitado e as sessões de diálises eram um martírio, pois além de interferirem na minha vida emocional também afetavam a vida produtiva. Hoje vivo melhor e me considero normal, já faço o tratamento há um ano, e uso métodos como cantar, ler e conversar para que o cérebro não se acomode e ceda aos efeitos colaterais, das sessões que necessito fazer três vezes por semana. Confio em Deus e sei que ele já providenciou minha cura”, explicou Wagner, cheio de esperança.

O Brasil tem o maior programa público de transplantes em todo o mundo, porém a falta de doadores ainda é um dos principais entraves para o desenvolvimento pleno desse programa. Atualmente cerca de 70 mil pessoas aguardam na fila à espera de um transplante, só no Maranhão cerca de 800 pacientes aguardam por um rim e 680 esperam por uma córnea. Mesmo nos casos em que o órgão pode ser obtido de um doador vivo, a quantidade de transplantes é pequena diante da demanda de pacientes que esperam pela cirurgia.

Uma saída seriam os órgãos obtidos a partir de pacientes com morte cerebral, mas a falta de informação e o preconceito acabam limitando o número de doações. Com a conscientização efetiva da população, o número de doações pode aumentar de forma significativa. Para muitos pacientes, o transplante de órgãos é a única forma de salvar suas vidas.

Esperança – De acordo com a coordenadora da Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos (CNCDOS), criada em 2000, Silvana Oliveira, os pacientes acabam de ganhar um grande aliado: o governo do estado. Ela afirmou que a atual gestão está bem mais interessada para que o programa cresça. “A Secretaria de Estado da Saúde (SES) promoveu recentemente o II Curso de Formação de Coordenadores Intra-Hospitalar, onde participaram médicos, enfermeiros, assistentes sociais e outros profissionais da saúde de diversos hospitais da capital. O objetivo do curso foi criar dentro dos hospitais uma rotina para detectar a existência de possíveis doadores”, declarou a coordenadora.

Silvana Oliveira explicou que a carência de órgãos para transplantes é enorme. E a princípio tudo pode ser doado: órgãos (rim, coração, pulmão, fígado, pâncreas, intestino) e tecidos (córnea, osso, pele e válvulas cardíacas), medula óssea, tendão, veias, cartilagem e sangue.

No Maranhão, cerca de 1.500 pessoas aguardam na fila, à espera de transplantes de rim, córnea e coração. No estado são realizados apenas transplantes de rim e córnea, no Hospital Universitário Presidente Dutra, que é referência no setor. A córnea é a captação mais comum e preserva-se fora do corpo do doador por até duas semanas. Pela falta de doadores de coração, os transplantes cardíacos são encaminhados para o Ceará, com as despesas de passagens custeadas pelo governo estadual.

Quem pode doar – Existem dois tipos de doadores: o doador vivo, que pode ser qualquer pessoa que esteja saudável e que concorde com a doação. Podendo doar um dos rins, parte do fígado, parte da medula óssea e parte do pulmão. Por lei, parentes até quarto grau e cônjuges podem ser doadores; não-parentes somente com autorização judicial. O doador cadáver, são pacientes em UTI (Unidade de Terapia Intensiva) com morte encefálica, geralmente vítimas de traumatismo craniano ou AVC (derrame cerebral). A retirada de órgãos é realizada em centro cirúrgico como qualquer outra cirurgia e o corpo pode ser velado normalmente.

Foto:GILSON TEIXEIRA
Antônio Alves e José Ribamar: nova vida após transplante

Foto:G.FERREIRA
Pacientes durante sessão de diálise

A coordenadora da CNCDOS informou que o mês que tem quatro doadores-cadáveres já é uma grande vitória. Já o doador vivo, ela disse que aparece toda semana. Do ano de 2000 até hoje, já aconteceram 142 transplantes de córnea e outros 173 de rim, destes apenas seis foram de pessoas falecidas. Silvana afirmou que muitas pessoas desconhecem os procedimentos para a doação e acabam recusando a retirada dos órgãos. “Não existe dúvida quanto ao diagnóstico. Ninguém vai desligar um aparelho e apressar a morte de uma pessoa. O diagnóstico da morte encefálica (morte cerebral) é regulamentado pelo Conselho Federal de Medicina. Dois médicos de diferentes áreas examinam o paciente, sempre com a comprovação de um exame complementar”, esclareceu.

A doação de órgãos, sangue, medula óssea e tecidos está disposta na Lei 9.434, de 4 de fevereiro de 1997, regulamentada pelo Decreto Nº 2.268, de 30 de junho de 1997. Em 2001, a Lei 10.211, de 23 de março de 2001, aboliu a doação presumida. Antes dela, a pessoa se declarava ou não doador, no momento em que tirava a Carteira de Identidade. Agora a decisão cabe à família. É justamente por isso que a Central de Transplantes pede que a pessoa interessada informe sua família sobre seu desejo de ser doador de órgãos, pois uma pessoa pode salvar nove vidas. Não é necessário qualquer registro em nenhum documento. O mais importante é comunicar em vida sua vontade pela doação, pois a mesma só acontece com o consentimento da família após a confirmação da morte encefálica.

O Sistema Nacional de Transplantes do Ministério da Saúde é responsável pelo gerenciamento e pela fiscalização das atividades de captação e distribuição de órgãos e tecidos para transplante no Brasil. Os exames, cirurgia e todos os demais procedimentos envolvidos na doação de órgãos são pagos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Todos os órgãos ou tecidos obtidos de um doador são distribuídos segundo o sistema de Lista Única, ou seja, todos eles seguem um conjunto de critérios específicos de distribuição para cada tipo de órgão ou tecido, selecionando assim o receptor adequado. Portanto, não é porque um paciente tem maior poder aquisitivo que receberá um órgão na frente de alguém mais humilde.

Espera e vitórias – A paciente natural do município de Chapadinha, Maria Assunção de Almeida Silva, 29 anos, já espera há mais de um ano por um transplante de rim. Ela também possui insuficiência crônica renal e tem que se deslocar três vezes por semana para a capital, para realizar as sessões de diálise e ver se apareceu algum doador compatível. Maria Assunção disse que sua sogra já havia feito todos os exames e seria sua esperança, mas por conta de problemas conjugais entrou em depressão e comprometeu o tratamento. A paciente revelou emocionada que é mãe de três filhos e chega a entrar em desespero quando imagina não conseguir o órgão e ter que deixá-los para sempre.

Por outro lado, quem já pode comemorar com alegria e esperança por uma vida melhor são os transplantados Antônio Alves da Silva, 46 anos, do município de Dom Pedro; e José Ribamar Ribeiro Cardoso, 59 anos, natural de São Luís. A dupla é só alegria, pois cada um recebeu, há quinze dias de um doador-cadáver, um rim, e já estão praticamente exercendo todas as suas atividades cotidianas, assim como a ingestão de líquidos. Tanto Antonio, quanto Ribamar já esperava o órgão há quatro anos.

Eles informaram que o transplante é, portanto, a tão esperada resposta para milhares de pessoas com insuficiências orgânicas terminais ou cronicamente incapacitantes. É sem dúvida, um procedimento médico com enormes perspectivas, porém impossível de ser executado sem o consentimento de uma população consciente da necessidade e responsabilidade de, depois da morte, destinar os seus órgãos para salvar vidas.

Quem deseja doar órgãos deve primeiramente comunicar à família para que se sensibilize em conceder a doação. A família do doador pode entrar em contato com a Central de Transplantes pelo telefone (98) 2109-1212 ou com o banco de olhos pelo (98) 2109-1010, ou mesmo na unidade que o doador encontra-se internado. Quem deseja ser doador ainda em vida pode realizar a doação de medula óssea, qualquer pessoa entre 18 e 55 anos pode ser um doador, basta procurar o Hemomar para realização de exames laboratoriais.

Durante todo o mês de setembro, foi realizada uma campanha nacional de sensibilização com o objetivo de ampliar o número de doadores de órgãos. Na quinta-feira, 27, foi montado um estande na praça Deodoro para a distribuição de materiais informativos. A campanha se estende até hoje, 30, com a “Caminhada Pró-Doação”, na avenida Litorânea que vai contar com pacientes em lista de espera, transplantados, médicos, enfermeiros, técnicos e a comunidade.

INSUFICIÊNCIA RENAL CRÔNICA

A insuficiência renal crônica (IRC) é o resultado das lesões renais irreversíveis e progressivas provocadas por doenças que tornam o rim incapaz de realizar as suas funções. O ritmo de progressão depende da doença original e de causas agravantes, como hipertensão, infecção urinária, nefrite, gota e diabete. Muitas vezes a destruição renal progride pelo desconhecimento e descuido dos portadores das doenças renais. Em cada 5.000 pessoas uma adoece dos rins por vários tipos de doenças. Quando o rim adoece, ele não consegue realizar as tarefas para as quais foi programado, tornando-se insuficiente. Geralmente, quando surge uma doença renal, ela ocorre nos dois rins, raramente atingindo um só. Quando a doença ocorre por uma causa crônica e progressiva, a perda da função renal pode ser lenta e prolongada. Por isso, o acompanhamento médico das doenças renais é importante para prolongar o bom funcionamento do órgão por muito mais tempo, mesmo com certos graus de insuficiência.

O rim pode perder 25% a 75% das suas capacidades funcionais, sem causar maiores danos ao paciente. Mas, quando a perda é maior do que 75% começam a surgir problemas de saúde devido às alterações funcionais graves e progressivas. A permanência no estágio crônico pode ser breve ou longa, dependendo do tipo de doença que afeta o rim, dos cuidados e orientações recebidos. Nas fases iniciais da IRC diminuir proteínas, sal e alimentos que contenham fósforo é fundamental no tratamento dietético. Se a doença continuar destruindo o rim até atingir 90% de sua atividade, os 10% restantes muito pouco poderão fazer para manter a saúde do paciente. Nesse momento, a dieta, os diuréticos, os anti-hipertensivos e outros medicamentos ajudam muito pouco. Torna-se necessário o uso da diálise e/ou o transplante renal.

PASSO A PASSO PARA A DOAÇÃO

Após o diagnóstico de morte encefálica, a família deve comunicar ao médico assistente sobre seu interesse em doar os órgãos;

O médico assistente avisa à Comissão Intra-Hospitalar de Transplante (todo hospital possui uma);

A Comissão confirma o diagnóstico e informa a existência de um potencial doador à Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos estadual ou regional;

A Central pede uma autorização para a doação por escrito da família;

A Central coordena a retirada dos órgãos e tecidos junto à equipe cirúrgica; Após a retirada, a Central distribui os órgãos e tecidos às listas únicas de doação.

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