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20 de setembro de 2007
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EdsonVidigal

Sempre que se fala em psicologia social desponta de logo a lembrança do cientista que chegou a interessantes conclusões sobre o comportamento humano a partir de experiências com o seu cachorro.

Nunca me preocupei em procurar saber se o animal da experiência era daqueles de estimação, ou não. Mas se não o era, ficou sendo tamanha a freqüência sempre crescente com que os dois, cientista e cão, se encontravam.

Vejam que interessante. Primeiro, o cientista atraiu o cachorro com agrados simples até que o enjaulou, deixando-o alguns dias sem comer nada. Não é só no gênero humano que se aplica aquela lei do quem não chora, não mama. Esse preceito funciona para quase todos.

E o cachorro do cientista foi ficando lá com fome, latindo feito um danado. Depois ele pegou um filé sangrando de algum bovino, não se sabe se de vaca, e o exibia à altura do faro do cachorro. Pronto, o bicho enlouquecia. Rosnava meio alegre, depois latia, soltando saliva.

Aos poucos, o cachorro foi se acostumando e repetindo-se nas reações. Rosnava, soltava saliva, latia. Comia o filé sangrando e se aquietava. Aí o cientista instalou uma campainha perto da jaula. Antes de repetir o mesmo espetáculo do dia anterior, tocava a campainha uma, duas, três vezes. Em seguida, balançava a carne quase viva, cheirando a sangue, o cachorro rosnava, latia e só se aquietava quando o cientista lhe passava direto o filé.

Isso foi se repetindo, se repetindo, até que o cientista já não aparecia mais com o filé. Só tocava a campainha, uma, duas, três vezes. O cachorro já não tinha o filé ao alcance do olfato,mas reagia do mesmo modo, latindo, salivando. Depois se aquietava.

Bom, a partir dessas experiências a psicologia passou a trabalhar com um novo valor, dando-lhe o nome de reflexo condicionado. O nome do cientista? Pavlov, um russo. A partir dessa tese, outro russo chamado Serge Tchakotine, acho que é assim que se escreve, produziu um dos mais alentados estudos sobre as formas de submissão das pessoas por outras.

Miguel Arraes, no tempo em que esteve exilado na Argélia encontrou esse livro em francês e dedicou muito do seu tempo traduzindo-o para o português. O livro é da primeira metade do ultimo século, mas esteve proibido no Brasil durante o regime militar. Pouco antes de ser recolhido nas livrarias, consegui um exemplar.

Há alguns anos, viajando com Cristovam Buarque, lado a lado, num avião, ele - que também foi exilado político, me falou sobre o trabalho de Arraes e da enorme dificuldade para resgatá-lo. Localizara um exemplar num sebo em São Paulo, mas o homem lhe pedira mil reais. Nosso hoje Senador do PDT tem uma copia tirada do meu original.

Tem certos livros que chegando a incertos cérebros são muito perigosos. Por exemplo, “O Príncipe”, de Maquiavel. O sujeito entra na política e vai lendo aquilo tudo e interpretando literalmente e, quando menos se espera, olha o perigo! Acha que é maquiavélico.

Assim também deve ter acontecido com a grande obra do sociólogo russo na tradução de Arraes, “A Mistificação das Massas Pela Propaganda Política”. Teve gente que leu errado e há décadas vem aplicando sobre os seus empregados e sobre o povo em geral, as teorias resultantes das experiências do cientista russo com o seu cachorro.

Os amestrados já chegaram a um ponto que já nem é preciso balançar o filé. Basta tocar a campainha e eles já vêm com tudo. Rosnando, salivando, latindo.

Edson Vidigal, ex-presidente do STJ, professor de Direito na Ufma, escreve para o Jornal Pequeno às quintas-feiras.

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