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Coluna do Othelino (Especial)

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Data de Publicação: 8 de julho de 2007
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(Com trechos do livro A Oligarquia da Serpente, de Othelino Filho e Othelino Neto).

Enquanto Sarney e Roseana fogem às léguas de Renan:

Pedro Simon e outros indignados tentam salvar a honra do Senado

Com indisfarçável preferência pelas sessões comemorativas realizadas no Senado Federal, José Sarney ocupa a tribuna invariavelmente para fazer longos e bem produzidos discursos. Jamais perde o ensejo para dar vazão à sua exacerbada vaidade. Reiteradas vezes, exibe a sua “erudição” evocando luminares da política e da literatura que, sem a menor dúvida, honram o parlamento e a Pátria com suas vidas e obras exemplares. Evitando delongas no que foi dito e declamado em prosas e versos, de monarquistas a republicanos – nas variadas fases – Rui Barbosa é sempre o mais citado.

Sem o menor demérito em relação a tantas outras celebridades, ao se exaltar o nosso Águia de Haia, contempla-se um período áureo da história brasileira. Onde estão registrados desleais desafios nem sempre vencidos, fronteiras ultrapassadas pela força do direito e da justiça; conquistas memoráveis alcançadas sob o entusiasmado e consciente compromisso com a verdade, a liberdade e o verdadeiro Estado Democrático. São lições que devem ser cultivadas através dos tempos no Brasil e no Mundo. Como repercutiram e deveriam produzir efeitos perenes em favor da paz e soberania dos povos, o desempenho extraordinário do grande Rui na Conferência de Paz de Haia, nos Países Baixos (1907), que resultou na criação da Corte Permanente de Justiça Internacional. E ao ser estabelecido o conceito jurídico de neutralidade, fortalecendo a causa dos aliados no decorrer da Primeira Guerra Mundial, a partir de um pronunciamento do genial brasileiro, durante as comemorações pelo centenário da independência da Argentina.

Quando um representante da Câmara Alta do País se dispõe a engrandecer a casa a que pertence, exaltando as qualidades de um dos seus membros mais notáveis, em mais de 180 anos de existência do parlamento nacional, só deveria merecer encômios. Ocorre que, nas circunstâncias atuais, necessariamente, pelo menos duas restrições se impõem. A primeira: se em sua época – de corpo presente – o Águia de Haia tinha uma postura nivelada em patamares nitidamente elevados, digna de um autêntico estadista, hoje a sua memória supera em proporções geométricas diversas instituições havidas como republicanas, entre as quais o Congresso Nacional.

Não que se possa considerar, em algum momento, o Poder Legislativo um santuário inviolável da liberdade, uma fortaleza inexpugnável do Estado Democrático de Direito. Já nasceu e de certa forma ainda permanece tutelado. Tem sido conspurcado, fechado e humilhado historicamente. Sempre de forma arbitrária, mas, em tempo algum, sob resistência à altura da sua dignidade como reduto supremo da vocação e dos anseios libertários dos brasileiros. Ressalvem-se as honrosas exceções!

Segundo óbice: se o Poder Executivo, por sua própria iniciativa, há muito tempo cuida de desmoralizá-lo, confiscando-lhe as principais prerrogativas e funções constitucionais, os seus próprios integrantes tratam de ridicularizá-lo. Ressalvando-se novamente as honrosas exceções. E que honrosas exceções!

Já foi dito aqui recentemente que a classe política no Brasil vive sob o estigma da reprovação junto à opinião pública, para a qual todos os seus integrantes são corruptos. Explica-se o exagero na generalização do conceito pelo sentimento geral de desencanto diante dos escândalos que se sucedem. E, até mesmo em razão do estágio de tramitação dos processos investigatórios, não há como se definir, com a celeridade desejável, as responsabilidades pelo mar de lamas estabelecido. O clima de indignação é mais do que justo, pois envolve os poderes compostos exatamente por representantes do povo que, certamente, não delegou competência para que se furte em seu nome, por hipótese alguma, quanto mais o seu próprio dinheiro extorquido por meio da maior carga tributária do Mundo.

E como entender se o “grande tribuno” hoje defensor da Instituição foi testemunha, desde a segunda metade de século passado, de tantas e tão aviltantes agressões ao Congresso Nacional, preferindo se curvar pusilanimemente aos seus algozes. E, para debochar ainda mais, quando, por uma fatalidade, foi presidente da República, governou usando e abusando de instrumentos excepcionais, além das relações e negociações promíscuas para assegurar vantagens imorais recíprocas? Mesmo assim, seriam muito desprezíveis ilustrações históricas em discursos políticos? Sendo conduzidas corretamente, não! É que as citações são feitas permeando longas falas em que o protagonista da peça é sempre o próprio autor, o “estadista” de Curupu. São obras autobiográficas motivadas pelo ímpeto compulsivo de exibir discutível erudição e pelo devaneio de inserir-se no panteão dos gênios universais.

Quem já não leu ou ouviu dizer que Sarney é o “poeta da liberdade”? Quem escreveu a frase? Paga-se um prêmio a quem acertar... Quem já não ouviu o próprio “imortal” afirmar que se sente realizado por haver inspirado e convocado a Assembléia Nacional Constituinte que elaborou a Constituição Cidadã de 1988? E que, portanto, é o pai e responsável pelo restabelecimento do Estado de Direito e pela redemocratização do Brasil? Que ele é o político da conciliação e do trabalho solidário em favor do bem- comum? Por que ele nunca fala que foi “vitorinista” e traiu o chefe? Que foi eleito governador pelas Oposições Coligadas e traiu os correligionários e a causa libertária? Que era da UDN bossa-nova, traiu a legenda e seu ideário e, de sobra, aliou-se à famigerada ditadura militar? Que se não lambeu e nem limpou, fez vistas grossas para os respingos de sangue em botas que torturaram e mataram estudantes, trabalhadores da cidade e do campo, jornalistas, professores, intelectuais, artistas, religiosos, mães e pais de família, enfim, brasileiros de todos os credos, raças, condições econômicas e sociais que ousaram resistir à nova ordem ilegítima e truculenta?

Quem não ouviu Sarney dizer que o Maranhão é a sua vida e a sua paixão? Mas por que ele não explica a razão pela qual sendo presidente da República e tendo em suas mãos estudo qualificado feito por funcionários da Petrobras, indicando o Maranhão, seguido do Ceará e Pernambuco, como o Estado que apresentava as melhores condições técnicas, econômicas, geográficas e logísticas para a instalação de uma refinaria de petróleo no Nordeste, em 1987, preteriu a sua terra natal? Ele não explica, no entanto, todos sabem: é que, fazendo as negociatas mais imorais para ganhar o quinto ano de mandato presidencial, cedeu às pressões de ACM e determinou a ampliação da usina existente na Bahia, implicando graves prejuízos econômicos para a empresa, para o Brasil e, particularmente, para a “sua terra, sua paixão”. Por que mandou no Maranhão por 40 anos e transformou um Estado potencialmente rico, com os maranhenses e os que aqui eram carinhosamente acolhidos vivendo de maneira modesta, mas digna, na unidade mais pobre da Federação com 2/3 da sua população relegada à humilhante condição de miseráveis?

E por que simultaneamente o seu clã acumulou fortunas de fazer inveja à família Maluf, a outros corruptos de colarinho-branco e aos chefes do crime organizado que estabeleceram um estado paralelo no Brasil, infiltrando os seus tentáculos nas principais instituições da República? Por que persegue tanto o ex-governador José Reinaldo e o atual governador Jackson Lago, mesmo sabendo que quem sofre efetivamente com as sabotagens são os maranhenses mais desamparados, os milhões de excluídos, vítimas da sua torpe, odienta e egoísta dominação?

A trajetória política do senador amapaense se caracteriza, ainda, por um rosário de traições. Traiu Vitorino Freire, traiu as Oposições Coligadas, traiu quase todos os governadores do Maranhão que foram seus amigos e correligionários; traiu o último general da ditadura de 1964, traiu Fernando Henrique Cardoso e, de acordo com o andar da carruagem, já traiu o amigo Renan Calheiros. Enquanto isso, o senador Pedro Simon (PMDB-RS), seguido de outras exceções honrosas – sobre as quais nos manifestaremos oportunamente – expressando sua indignação cívica, tenta salvar o que resta da honra do Senado Federal. Recomenda o afastamento do presidente, acusado de envolvimento no lamaçal fétido que todos abominam. (Continua na quinta-feira, 12.7.07).

(othelinofilho@yahoo.com.br)

(othelinoneto@yahoo.com.bt).

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