Eudes Oliveira de Alencar
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Igreja Católica (Vaticano) publicou terça-feira passada (10/07) mais uma de suas muitas afirmações estranhas ao movimento ecumênico que defendeu por alguns anos e que teve, bem verdade, o início da débâcle com João Paulo II. Este fez questão de estabelecer alguns diálogos com outras religiões, mas sempre na posição de único representante do cristianismo. Era um ato político. Pegava bem na foto sua igreja como uma instituição do diálogo. Os demais, os protestantes ora, estes, se quisessem algo, pois que tratassem de voltar ao redil do qual saíram, que voltassem ao seio da mãe católica. Ou isto ou nada.
O Papa atual tem tratado de derrubar os últimos resquícios de uma aproximação que já era difícil com os protestantes, exceto para os luteranos, episcopais e um ramo presbiteriano (no Brasil) com quem mantinham alguma relação. A posição de Bento XVI, neste particular é ainda mais radical e isto foi demonstrado na afirmação do documento “Respostas a questões relativas a alguns aspectos da doutrina sobre a Igreja”.
No documento está dito textualmente: “Cristo constituiu sobre a terra uma única Igreja e instituiu-a como grupo visível e comunidade espiritual, que desde a sua origem e no curso da história sempre existe e existirá”, e complementa. “Esta Igreja, como sociedade constituída e organizada neste mundo, subsiste na Igreja Católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos bispos em comunhão com ele.”
O texto é assinado pela Congregação para a Doutrina da Fé, ex Santo Ofício, de triste lembrança e que foi presidido pelo Papa atual em todo o pontificado de João Paulo II.
O espaço não permite uma exposição maior a respeito deste tema, mas basta ler “O livro negro do cristianismo”, ainda quentinho das rotativas da Ediouro, que nem é exatamente um apanhado histórico exaustivo desta igreja e suas peripécias religiosas e políticas, mas o pouco que tem lá é de arrepiar os cabelos. Pois imaginar que isto tem parte como Senhor é, no mínimo, uma piada de mau gosto. Sugiro também que se leia “O queijo e os vermes” de Carlo Ginzburg (Cia das Letras) em que conta um bem documentado processo inquisitorial e veja o “herói” ser queimado no final. É esclarecedor.
É preferível ser parte de uma igreja “lacunosa” - que é como o documento se refere aos ortodoxos, coptas e outras confissões de veio parecido ao católico -. Ou então, ser membro de uma não-igreja, como o Vaticano chama os protestantes. Quanto à “santa igreja”, bem, estamos em maus lençóis. Sim, porque muitos dos Papas que figuram no panteão de santos, de pouco prestígio é verdade, foram corruptos não simplesmente na acepção da palavra em seu sentido teológico do qual todos participamos, mas verdadeiros facínoras. Não se sabe de muitas igrejas que levam seu nome ou de peregrinos à cata de suas intervenções ou alegando qualquer graça alcançada.
É evidente que afora as escorregadas terríveis que vemos hoje, a igreja católica atual não chega aos pés daquela que lhe deu origem, embora ainda haja esqueletos mal resolvidos no armário, tão próximos que ainda fedem, como a omissão vergonhosa do Vaticano diante do massacre hediondo dos judeus na Alemanha de Hiltler.
As respostas a estas questões é a manipulação de fórmulas teológicas que colocam a igreja não como imagem de seus agentes humanos, nem como protagonista histórica de fatos não muito abonadores, mas como algo sobrenatural, acima da realidade banal e feia. Aliás, esta igreja se esforça ao máximo para seguir o conselho do Ricupero, ministro da fazenda do primeiro governo do Fernando Henrique Cardoso, que foi pego em desditosa sinceridade: “Aquilo que é bom a gente mostra o que ruim a gente esconde.” Acabou caindo.
O Vaticano ou seus representantes estão tentando explicar que o que disseram é assim, mas não tanto. Afinal, a cada remendo, fica claro uma coisa. Entre os demais cristãos, qualquer que queira se relacionar com a “santa igreja” terá, forçosamente, que se agachar, não existe relação entre iguais, se alguém pensa assim está se enganando. A relação é desigual e eles são detentores não só das chaves, do acesso, da salvação, e suspeito, se cavoucar um pouco, até de Deus. Que é isso, papudo?!