Pr. Irailton Melo de Souza
Pastor e Teólogo
Ao elegerem o cardeal alemão Joseph Ratzinger, 78 anos, como sucessor de João Paulo II, o colégio dos cardeais sabia o que estava fazendo. Ratzinger, então responsável pela guarda da doutrina católica e de linha ultraconservadora não deixava dúvidas de que caminho iria trilhar, quando eleito “sucessor de Pedro”.
O jornalista Marcelo Netto Rodrigues relembra em sua coluna (jornal Brasil de Fato) o radicalista de Ratzinger contra um dos mais brilhantes teólogos protestantes, Leonardo Boff:
O alemão Joseph Ratzinger, hoje papa Bento XVI, é um velho conhecido do teólogo Leonardo Boff. Em setembro de 1984, na condição de cardeal e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé – novo nome dado ao antigo tribunal da Inquisição –, Ratzinger conduziu o interrogatório que culminou com a condenação de Boff a um ano de “silêncio obsequioso”, em razão de suas teses ligadas à Teologia da Libertação, apresentadas no livro “Igreja: Carisma e Poder”.
À época, Boff foi obrigado a sentar-se na mesma cadeira que Galileu Galilei sentou 400 anos antes. E escutou de Ratzinger as seguintes palavras: “Eu conheço o Brasil, aquilo que vocês fazem nas Comunidades Eclesiais de Base não é verdade, o Brasil não tem a pobreza que vocês imaginam, isso é a construção da leitura sociológica, ideológica, que a vertente marxista faz. Vocês estão transformando as Comunidades Eclesiais de Base em células marxistas”.
Dom Paulo Evaristo Arns, que acompanhava Boff no tribunal, retrucou no momento apropriado. Referindo-se a um documento que, havia saído três dias antes, condenando a Teologia da Libertação, disse: “Cardeal Ratzinger, lemos o documento e ele é muito ruim. Não o aceitamos porque não vemos os nossos teólogos dizendo e pensando o que o senhor diz da Teologia da Libertação. Se quero construir uma ponte, chamo um engenheiro, e o senhor, para construir a ponte, chamou um gramático, que não entende nada de engenharia”.
A respeito das últimas declarações de Ratzinger sobre ser a igreja católica a única igreja verdadeira, precisamos perguntar “o que está por detrás disso?”. Ratzinger pode ser conservador teologicamente e qualquer outra coisa que seus desafetos queiram imprimir sobre ele, mas uma coisa é certa: estamos tratando com um homem inteligente, perspicaz e estrategista. O que faz um homem com seu poder de influência derrubar anos de diálogos interconfessionais, tomar de assalto os defensores do ecumenismo religioso e por em pé de guerra cristãos do mundo inteiro?
As estatísticas mostram que há muito tempo o Vaticano tem sofrido insônia com o êxodo de católicos para as igrejas evangélicas e, conseqüente, com a perda de poderio. Com efeito, ao reclamar das atitudes dos ortodoxos de não reconhecer o primado do papa de Roma, Bento XVI demonstra que a origem do seu cisma tem relações diretas com um ávido desejo de poderio.
A escolha de Ratzinger para o papado, bem como suas ações como tal, apontam para um mesmo ponto: a crise de poder instalada na igreja romana.
É louvável o esforço de alguns líderes católicos como o Cardeal Walter Kasper, profundo defensor do ecumenismo e diálogo interconfessional em reparar as agressões semânticas de Bento XVI, mas o fato é que se todo discurso papal necessitar de um hermeneuta e um posterior pedido de desculpas, como aconteceu na agressão aos mulçumanos, em brevíssimo tempo teremos uma guerra religiosa instalada no mundo.
Escrevendo aos luteranos, Cardeal Walter Kasper declarou:
“A base para o diálogo consiste em haver mais elementos que nos unem do que nos separam. Por isso não deveríamos deixar de ler as afirmações positivas da declaração sobre as igrejas protestantes: que Jesus Cristo de fato está presente nelas para a salvação dos seus membros. No passado, de maneira alguma, isso teria sido uma posição óbvia, mas agora ela abarca – mesmo que ainda restem diferenças significativas – o reconhecimento do batismo, nos termos do Vaticano II, e uma série de constatações positivas sobre a eucaristia protestante (Decreto sobre Ecumenismo 22). Portanto, a declaração não está revogando qualquer aspecto do progresso ecumênico já atingido, e sim, chamando a atenção para a tarefa ecumênica que ainda está à nossa frente. Deveríamos escandalizar-nos com estas diferenças, mas não com as pessoas que as apontam. Neste sentido, a declaração é mais um convite urgente para um diálogo objetivo, que nos ajudará a caminhar para frente” (www.luteranos.com.br).
Tomara que seja.