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1 de julho de 2007
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Roberto Rocha

O mundo assiste, em 2007, um marco histórico: pela primeira vez, a população urbana se igualou à rural e, a partir de 2008, mais da metade dos 6,6 bilhões de habitantes do planeta viverá nos centros urbanos. Até 2030, os moradores das cidades corresponderão a 60% da população. É o que revela o relatório do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), divulgado esta semana.

O desafio de preparar as cidades para o crescimento existe desde que, entre 5 mil e 15 mil anos atrás (não há data consensual), as primeiras vilas urbanas surgiram, provavelmente nos vales férteis da Mesopotâmia. A melhoria das técnicas agrícolas permitiu que a produção superasse o consumo, liberando mão-de-obra para outras atividades.

Desde então, ocorreram duas grandes ondas de urbanização. A primeira começou na Europa e na América do Norte, durante a Revolução Industrial (1750 a 1450). A mais recente teve início na segunda metade do século passado e aconteceu em ritmo mais acelerado. Ela está, hoje, num estágio bastante avançado na América Latina – onde as taxas de urbanização já superam as européias – e cresce principalmente na Ásia e na África.

Essa onda acontece também num período em que as projeções da ONU indicam que a população mundial sairá dos atuais 6,6 bilhões para 9 bilhões em 2050. O relatório do UNFPA defende que a concentração populacional traz benefícios em termos de impactos ambientais que compensam as desvantagens. E revela que um estudo feito a partir de imagens de satélites mostra que todos os grandes assentamentos urbanos cobrem apenas 2,8% da superfície terrestre. Como 3,3 bilhões de pessoas vivem hoje nas áreas urbanas, significa que metade da população mundial ocupa um território do tamanho do Maranhão.

Nas cidades, é possível atender de forma mais econômica e viável as necessidades ambientais da população, pois há uma economia de escala quando a demanda está concentrada. Todavia, a principal questão não é a dispersão da população, mas sim os padrões de consumo da vida urbana, que hoje são insustentáveis do ponto de vista de seus efeitos no aquecimento global, eis que quem mais contribui com a emissão de gases do efeito estufa são 600 milhões de pessoas que vivem na Europa, EUA, Japão ou, ainda, as de classe média e alta de países emergentes.

A China ainda tem 57% de sua população na zona rural. A Índia dispõe de um percentual ainda maior de pessoas no campo: 72%. Já no Brasil, a população urbana passou de 36% em l950 para 84% em 2007. E até 2030, cerca de 90% viverão em áreas urbanas.

O relatório do UNFPA tem visão positiva desse processo e sustenta que, se é fato que as cidades concentram pobreza, também é verdade que elas representam maior esperança de escapar dela. Porém, esses benefícios da urbanização dependem de uma mudança das políticas públicas. A primeira mudança é a aceitação de que o processo é inevitável. As pessoas migram para as cidades porque têm consciência de que estarão melhores lá.

Para reforçar a necessidade das cidades disporem de um melhor planejamento, vale destacar dois exemplos diametralmente opostos: Palmas e Manaus. A capital do Tocantins, Palmas, consegue avançar no ranking dos municípios com melhor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), medido pela ONU – saiu da posição 1.330º para 566º, entre 1991 e 2000.

Em Manaus, capital do Amazonas, a população cresceu 67% e o IDH despencou da posição 376º para 1207º. Áreas de palafitas sem água encanada, nas margens de igarapés poluídos, contrastam com arranha-céus habitados por uma classe média alta abastecida por recursos da Zona Franca. Diferente da capital do Tocantins, que foi planejada, Manaus não se preparou para receber, nos últimos 40 anos, as pessoas que se deslocaram do interior do Estado em busca dos empregos e movidas pelo sonho de uma vida melhor que seriam proporcionados pelas indústrias da Zona Franca.

Diante dos resultados a que chegou esse estudo do UNFPA, o Maranhão, que ainda concentra a maior população rural do país, não pode deixar de incluir na pauta das próximas eleições municipais esse debate. Porque o nosso mundo, em primeiro lugar, é a cidade em que vivemos.

O deputado federal Roberto Rocha escreve para o Jornal Pequeno aos domingos.

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