José de Oliveira Ramos
(joseoramos2006@ig.com.br)
Precisamos agir, para mudá-lo.
Advogado, odontólogo, professor e técnico desportivo nacionalmente conhecido, Paulo Roberto Tinoco Silva, que conhece como poucos o quê, o porquê e as coisas do esporte de nossa terra, pois é ex-atleta, ex-dirigente, ocupou cargos de todos os níveis na área esportiva, de presidente da Federação Maranhense de Basquetebol à secretário de Esportes e Lazer, com passagem pela seleção brasileira de Basquetebol (ex-técnico) e passagem vitoriosa como diretor de futebol do Sampaio Corrêa Futebol Clube, embora confesse que segue o pai: é maqueano e flamenguista incondicional. Por essas e outras foi que resolvemos convidá-lo para saber o que está acontecendo com o esporte da nossa terra.
Jornal Pequeno – Paulo ou Paulão (como é mais conhecido) o que está acontecendo com o nosso esporte?
Paulão – Antes de mais anda, pode me tratar de Paulão, pois este aumentativo eu ganhei pelo tamanho, desempenho e comportamento pessoal em coisas e fatos que exigiam e exigem grandes atitudes, trabalho e resolução. Tenho orgulho dele e já pensei até em incorporá-lo ao nome, pois já faz parte do mesmo. Então poderia ser Paulão (risos). Quanto à sua primeira pergunta, vou definir que o nosso esporte está muito doente, acometido de um câncer, com metástases em vários pontos e o paciente ainda é diabético e cardiopata.
JP – Então... está morto?
Paulão – Ainda não. No entanto, o quadro é péssimo, levando a prognóstico desanimador. Veja bem, vamos tentar, por partes, apontar os pontos críticos. Começando de baixo para cima, embora pudesse ser de cima para baixo, o que não mudaria a realidade. Nós não temos clubes. Nossa base é colegial e nossa célula-mater é focada a partir dos JEMs, ou seja, dos colégios. Essa é a nossa realidade e hoje os colégios perderam o foco. Assim sendo, não estão priorizando a prática esportiva. A qualidade e o conhecimento dos técnicos são fracos. O nível de treinamento é péssimo e a direção das escolas não prima pela qualidade do ensino. Ou seja, em vez de atender para o binômio ensino/aprendizagem, que é dever e fundamento educacional, estão desviadas para o binômio custo/benefício, escola/empresa, visando sempre mais lucros, não se preocupando com a qualidade.
JP – O futebol também?
Paulão – O nosso futebol morreu e esqueceu de deitar. Os clubes são, na realidade, “times”, montados para participar de um campeonato deficitário, onde a falta de estrutura nos deixa sempre aquém dos nossos adversários da região. A qualidade dos nossos jogadores não aparece no nosso futebol. No entanto, temos exemplos de atletas nossos que, quando saem daqui e recebem uma estrutura clubística funcional, despontam bem. A falta desta estrutura clubística profissional afeta diretamente a qualidade dos nossos jogos e, conseqüentemente, deixa nossos estádios vazios, com o público formado por fanáticos torcedores que querem acreditar que a qualquer hora algo vai mudar e acham justificativas para tudo. Até para jogador cobrando escanteio e que, chutando o pau da bandeirinha do escanteio, sai contundido. Eu vi isso acontecer e deixei de ir ao jogos de futebol. O dirigente de futebol deve ser abnegado, preparado e profissional, com visão administrativa estrutural e nunca com visão político-eleitoral. Nada contra nenhum político que passou nos nossos clubes, pois acho que todos prestaram inestimáveis ajudas aos times que dirigiram, dentro da realidade. Afinal, fui tricampeão pelo Sampaio Corrêa e o abnegado presidente do Sampaio era o presidente da Câmara Municipal de São Luís, Deco Soares. No entanto, você não sabe de nenhum presidente do São Paulo Futebol Clube direcionando suas atividades políticas misturando com clubes. Estou citando o São Paulo porque acho que é o maior e melhor clube do Brasil. Eu disse clube!
JP – E as outras modalidades?
Paulão – A nossa pirâmide é invertida. Veja bem. Em estados que existem clubes com atividades desportivas desenvolvidas e incentivadas, a equipe do colégio é formada por atletas oriundos dos clubes. Aqui, para se montar uma equipe para disputar os medíocres campeonatos das “federações” esportivas, fica caracterizado que a equipe X é o time do colégio Y e a equipe A é o time do colégio B. E assim, sucessivamente. Temos o exemplo do Pará, que tem dois clubes populares, Remo e Paysandu, que lotam os estádios, quadras, piscinas e até as competições de regatas realizadas na baía de Guajajaras, às margens do rio Guamã na capital, Belém. Existem outros clubes que mantêm atividades desportivas diárias, uns também com futebol e outros sem futebol, como é o caso da Assembléia Paraense, clube freqüentado todos os dias da semana por professores, técnicos desportivos de inúmeras modalidades, com lanchonetes, restaurantes, salão de beleza, sauna, boite, sala de jogos, etc. Isso é a verdade do nosso vizinho. Nós não temos nada. Nossos clubes não têm sede. Os que tem sede não desenvolvem nenhuma atividade e pois diretores reclamam que os sócios não vão e a maioria é inadimplente. Isto é circunstancial. O sócio não vai, porque não tem nada e não paga porque não vai. Necessário se faz que criem mecanismos de investimentos com atividades desportivas para os jovens; que criem atrativos para os sócios e dependentes dos mesmos. Os dirigentes devem pensar e ousar e não reclamar.
JP – E as federações?
Paulão - São dirigidas de forma desastrada e descompromissada, com “pseudos” dirigentes valendo-se dos cargos para realizar projetos pessoais e com pequenas vantagens, quando da realização da eleição das confederações. Ressalvo, aqui, alguma exceção que exista e a FAME (Federação Acadêmica de Esportes) que está tentando com muita dificuldade reeguer o esporte universitário que estava morto e crucificado. No entanto, de uma maneira geral, o quadro das federações é péssimo. Os dirigentes são despreparados, não têm qualificações específicas e tampouco compromisso com os atletas, usando as funções de modo a dar fuga às suas fraquezas e complexos. Há pouco tempo, fui procurado por um grupo de atletas que queria formar uma equipe para jogar o campeonato de Basquete adulto feminino. Comecei a treiná-las às 22:00 horas em dias alternados, três a quatro vezes por semana, quando o treino não conflitava com suas responsabilidades e com suas dores musculares provocadas pelo grande período de inatividade. Este campeonato não terminou ainda, pois uma das equipes da federação e a federação tinha equipes dirigidas pelo vice-presidente da entidade, usou na partida final uma atleta que está há quatro anos em São Paulo, jogando pela equipe do Jundiaí e que na Confederação ainda não tinha feito o registro de transferência, por conveniente não havia informação da mesma, feita de clube para clube. A equipe formada pelas citadas “senhoras” com dores musculares fezr a final, mostrando qualidade e talento. Até hoje a disputa encontra-se sub-júdice, devido uma esdrúxula portaria assinada pelo “presidente” de direito, que suspendeu o julgamento da interpelação da equipe das talentosas “senhoras” com a alegação que o CETS Clube estava em débito e que o julgamento só ocorreria depois do pagamento. Esta cobrança está sendo aguardada até hoje pelo “presidente” que assinou a hilária portaria. Vou aproveitar para deixar um recado: “”Presidente”, decisões administrativas não podem interferir nos tribunais, conselhos ou juntas disciplinares de entidades desportivas, embora eu saiba que você foi levado à assim proceder. Recomendo que leia o Código Brasileiro de Justiça Desportiva, pois, por isso, a federação perdeu o dedicado presidente da Junta, que, com razão, se viu desprestigiado e coagido a agir de forma incorreta e ilegal.
JP – Qual o papel das faculdades de Educação física neste processo?
Paulão – O papel das escolas de Educação Física é de fundamental importância, pois delas sairão os futuros profissionais da área. No entanto, para se ter resultado prático, as escolas que hoje em nosso Estado são duas, uma federal (UFMA – a mais antiga) e a outra particular (CEUMA – a mais recente) precisam pensar e agir diferente do que estão fazendo agora. O Ceuma deve primar pela especificidade do ensino e qualidade de ensino, para não incorrer no mesmo erro da UFMA que só formou profissionais da área com contribuições para a prática desportiva, quando estes profissionais já eram atuantes em uma prática esportiva, antes de graduados, não descobrindo nem dando chances novas a valores desconhecidos. A faculdade de Educação física do Ceuma, precisa atentar para isso e, assim, com certeza será referência regional e quiçá nacional. Precisa desarmar os espíritos e dar à César o que é de César. Talento não se faz, se descobre, com profissionais que possam descobri-los e incentivá-los, qualificando-os.
JP – Diante desse quadro, tenho que perguntar: temos solução?
Paulão – Não é porque o paciente está moribundo que se deixa que morra. Vamos tentar os tratamentos intensivos existentes e conhecidos. Iniciaremos atacando com tratamento rádio e quimioterápico, dotados de qualificação, dedicação, competência, talento e compromisso, seguindo-se de aplicação diária de insulina, composta com responsabilidade e trabalho, seguindo-se com realização de intervenções cirúrgicas para colocações de pontes de safena que, complementada com uma dieta correta, dará ao paciente (o esporte) uma vida digna e regular, ganhando-se tempo para o surgimento de outros remédios e/ou outra figura que cure definitivamente o enfermo esporte, a partir de uma política desportiva digna, pautada em mecanismos práticos que atinjam todos os segmentos da área. Para que possamos ficar em paz com nossa consciência e com as futuras gerações de atletas e profissionais da área que virão a seguir, teremos que tomar estas condutas. Caso contrário, correremos o risco de formar profissionais despreparados e sem qualificações.
JP – Seja mais direto, para que o entendimento do leitor seja melhor.
Paulão – Claro. Serei mais direito e darei nomes. Precisamos motivar e premiar as competências comprovadas para o trabalho direito, deixando que estes nomes formem gerações futuras de atletas, técnicos e outros profissionais da área. Vou citar alguns exemplos que precisam ser trazidos para o cenário urgentemente, pois têm muito, mas muito mesmo, para legar para as gerações futuras. No Handebol, não podemos nos privar do conhecimento do professor Vicente Calderoni Filho (o Viché). No Voleibol, temos que trazer o professor doutor Zartur Giglio Cavalcante (o Zarta). No Basquetebol, não podemos deixar de explorar ao máximo o talento e o conhecimento do professor Carlos Eduardo Tinoco Silva (o Carlão). Esses nós temos aqui e não estamos usando-os adequadamente, com aulas, treinos, palestras, cursos, etc. Existem outros que, no momento não foram citados. Nas modalidades que não tivermos profissionais de gabarito, conhecimento e talento dos acima citados, vamos buscá-los, para que, juntos, sejam fatores determinantes na formação de futuros profissionais e, conseqüentemente do esporte da nossa terra.
JP – A partir dos fatores e contextos acima apresentados, qual a importância e o papel da Secretaria de Estado de Esporte do Maranhão?
Paulão – Chegamos ao ponto fundamental da questão. A SESP é a gênesis e a apocalipse do esporte, pois, a partir dela, deve partir tudo, pois a mesma detém as estruturas físicas, os recursos financeiros, os meios oficiais de procura e provocou os investimentos oficiais e privados e o poder da caneta. Pode elaborar e direcionar regulamentos das competições. A equipe que hoje comanda a SESP está com o firme objetivo de reestruturar profundamente a nossa principal competição esportiva, os JEMs, que, no início da nossa entrevista fui claro e taxativo em classificá-lo como célula-mater e, a partir daí, provocar e promover uma ampla, geral e irrestrita ebulição desportiva. Este processo deverá ser promovido a partir de pessoas comprometidas, conhecedoras e apaixonadas pelos esportes. Cabeças pensantes. As mesmas já estão com os espíritos desarmados e prontas a se dedicarem à tirar a prática desportiva da letargia que ora se encontra. Os primeiros passos já foram dados.
JP – Para finalizar e já agradecendo a entrevista, pergunto se ainda tens alguma cosia a acrescentar.
Paulão – Eu é que agradeço a oportunidade, pois, sobre esporte eu falo qualquer dia e qualquer hora, pois sou um apaixonado pelo assunto e espero que, de alguma forma esteja contribuindo para o desenvolvimento da área. Coloco-me à disposição de qualquer segmento que queira de alguma forma somar idéias e soluções. Antes de mais nada, peço desculpas, se de alguma forma feri sensibilidades, pois minha intenção é apontar fragilidades e omissões e qualquer crítica deve ser vista de maneira construtiva e em prol de um bem maior, o esporte. A altivez do espírito é sinal de grandeza. O reconhecimento e a gratidão são características de pessoas de bem. Fica um forte abraço para todos os desportistas da nossa terra, esperando que aqueles que ainda não cresceram e não desarmaram os espíritos, o façam o quanto antes, senão continuaremos pequenos e medíocres.