SEBASTIÃO NERYARIANO, O JOÃO GRANDE
Rio – Em 69, depois do AI-5, Carlos Petrovich, diretor do Curso de Teatro da Universidade de Brasília, estrangulada pela ditadura, convidou Ariano Suassuna, o rebelde de “A Pedra do Reino”, “Auto da Compadecida”, para uma palestra. O auditório, lotado, estava cheio de arapongas do SNI.
Suassuna, avisado, contou essa história. Em Patos, na sua Paraíba, havia um tropeiro muito alto e forte, mãos enormes, pernas arqueadas e botas cravadas de ferro, chamado João Grande. Levou uma tropa para uma cidade vizinha, sentou-se no bar, pediu uma cerveja e ficou olhando a praça e o povo.
Percebeu que, na calçada em frente, as pessoas vinham andando e, de repente, quando chegavam diante de certa casa, desciam da calçada, davam uns passos na rua, subiam novamente a calçada e seguiam. Foi ver o que era. Era a casa do delegado, que tinha posto uma placa na porta, proibindo qualquer pessoa de passar pela calçada da casa dele, para não fazer barulho, porque ele gostava de tirar uma soneca, uma madorna, toda tarde.
O DELEGADO
João Grande ficou indignado. Arrancou a placa e começou a andar na calçada proibida, batendo forte no chão suas botas cravadas de ferro. O delegado, irado, saiu de lá de dentro como uma fera, os olhos esbugalhados, abriu a porta, viu aquele homenzarrão de botas barulhentas, afinou a voz:
- Booooa taaaaarde!
O delegado calou, não disse nada. Na calçada, já pronto para descer, andar pela rua e subir novamente, como fazia o dia inteiro, vinha vindo um homenzinho trotando, um cesto da cabeça, equilibrado numa rodilha de pano. Quando viu a cara amofinada do delegado, parou, olhou bem para ele e gritou:
- Olha o abacaxi!!!!!!
Nunca mais, a partir daquele dia, o homenzinho do abacaxi desceu da calçada do delegado. Nem ele nem ninguém. João Grande jogou a placa na rua e voltou para Patos, com suas mãos enormes e suas botas cravadas de ferro.
Os estudantes entenderam o recado. (Esta lembrança é uma homenagem aos poderosos 80 anos de Ariano Suassuna, João Grande da cultura brasileira).
OMBUDSMAN
A crise enlouqueceu o Senado, endoidou a Câmara e começou a deixar abilolados alguns ilustres jornalistas. A veterana Tereza Cruvinel escreveu sábado no “Globo”: - “Cassações sem provas consistentes também já aconteceram na Câmara, como as de Ibsen Pinheiro e Alceni Guerra” (sic).
Errado. Ibsen, sim. Mas Alceni nunca foi cassado, nem sequer processado pela Câmara. O DHBB (Dicionário Histórico Biográfico) da Fundação Getúlio Vargas registra: “Em outubro de 1994, após oito meses de investigação pela Polícia Federal, a Procuradoria Geral da República mandou encerrar, por falta de provas, o inquérito que investigou as denúncias, tendo o Supremo Tribunal determinado o arquivamento de todos os processos”.
OMBUDSMAN (2)
Por que Alceni foi tão acusado? Porque contrariou vampiros da Nação:
- “Criou programas de multivacinação responsáveis pela obtenção das mais altas taxas de imunização da história do país e nacionalizou os agentes comunitários de saúde, iniciativas que lhe valeram o premio do Unicef... Entrou em conflito com os maiores fabricantes de remédio do Brasil, ao ameaçar processá-los por aumentos abusivos de preços e formação de cartel. Foi acusado de efetuar compras superfaturadas de 23.500 bicicletas... O caso das bicicletas teve grande repercussão na imprensa e opinião publica” (DHBB).
A campanha foi comandada pelo “Correio Braziliense” e pela “Veja” por motivos “farmacêuticos”, e pelas “Organizações Globo” por razões industriais: tinham uma fábrica de bicicletas em Montes Claros e queriam desovar sua produção a preços mais altos. Essa é a nossa imprensa, Tereza!
OMBUDSMAN (3)
No mesmo “Globo”, o brilhante “scholar” Merval Pereira tropeçou:
- “Sendo o segundo nome (sic) na sucessão presidencial, logo depois do vice-presidente, o presidente do Senado é um cargo politicamente sensível, ainda mais quando se sabe que o vice-presidente José Alencar está em tratamento de um câncer e tem se queixado de cansaço”.
Além de pouco cristã, para não dizer macabra, a nota do Merval está errada. A Constituição diz: “Art. 80 - Em caso de impedimento do presidente e do vice-presidente, ou vacância dos respectivos cargos, serão sucessivamente chamados para o exercício da Presidência o presidente da Câmara dos Deputados, o do Senado Federal e o do Supremo Tribunal”.
Logo, o presidente do Senado não é “o segundo nome”, é o terceiro.
OMBUDSMAN (4)
E o mestre Anselmo Góis claudicou na genealogia dos Neves:
- “Marco Antônio Neves, 16 anos, que foi eleito presidente do Grêmio Estudantil do Colégio Santo Inácio, vem a ser filho do governador Sérgio Cabral e neto (sic) de Tancredo Neves” (Globo).
Lá na nossa terra (Sergipe é um glamuroso pedaço da Bahia), não se saltam gerações. O Marco Antônio é sobrinho-bisneto de Tancredo e neto do também saudoso Gastão Neves, pai da Suzana Neves, mãe do Marco Antônio.
sebastiaonery@ig.com.br.
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