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EditorialO coronel cara-de-pau

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2 de junho de 2007
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Cara-de-pau !

O jornalista e professor da PUC -SP, Hamilton Octávio de Souza, não encontrou, nem poderia ter encontrado, definição melhor para a enviesada presença de Sarney, no dia 28 de maio, na tribuna do Senado, protestando contra o governo da Venezuela, que não renovou a concessão pública de um canal de TV naquele país.

Irritou o jornalista a desfaçatez do coronel de Curupu, já que o Maranhão tem apenas duas redes de TV controladas pelo mesmo grupo político. E acredita que os amigos do senador, entre eles a Rede Globo e o jornal Estadão, pediram o Sarney esse discurso encomendado em prol das “liberdades” dos grupos monopolistas e oligárquicos privados.

Mas há coisas mais graves ainda a serem ditas. O sistema de concessões outorgadas que, no final de contas, garantiu 5 anos para Sarney na Presidência da República, sempre serviu como moeda de troca ou barganha no jogo político. Um grande número de deputados e senadores, através de parentes e “laranjas”, participa efetivamente das instâncias decisivas dos processos de renovação e homologação das concessões. E foi assim que Sarney garantiu por tanto tempo a condição de Coronel Eletrônico inexpugnável do Maranhão.

A Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) já há algum tempo encampou a luta contra a existência de oligopólios de comunicação nas mãos da elite. Oligopólios que, na maioria das vezes, não cumprem as finalidades educativas, artísticas, culturais e políticas que lhe cabem, conforme artigo do jornalista Artur Santos para o jornal “O Poste”.

O “Observatório da Imprensa” divulgou pesquisa feita com 3.315 concessões de emissoras de radiodifusão e constatou que 37,5% delas (pouco mais de 1.220) são exploradas por políticos do PFL; membros do PMDB são sócios em 17,5%; o PPB detém 12,5% e PSDB e PSB empatam com 6,75% cada um. Todos os Partidos restantes não superam 5%. Significa que a base aliada do Governo Fernando Henrique Cardoso dominava 73,5% do total de emissoras de radiodifusão do país. Situação que pode ter piorado no Governo Lula.

O estudo foi realizado por Israel Fernando Carvalho Bayma, a partir de cruzamento de dados da Anatel, Ministério das Comunicações e Tribunal Superior Eleitoral, para a assessoria técnica do PT na Câmara Federal. Na pesquisa, o nome Sarney aparece como sócio em nada menos que 56 emissoras de rádio e TV do Maranhão e do país.

Israel entende que o compadrio, a patronagem, o clientelismo e o patrimonialismo ganharam no Brasil a companhia dos mais sofisticados meios de extensão do poder da fala já inventados pelo homem: o rádio e a televisão. E é assim que define a expressão “coronelismo eletrônico”.

Como aceitar, então, que o senador Sarney condene o governo da Venezuela por não renovar a concessão de um canal privado cujos donos, segundo opinião de Hamilton Octavio de Souza, deveriam ser processados pelo uso de uma concessão pública (o canal de TV) para incitar a população ao golpe? Coisa que, aliás, a mídia eletrônica de Sarney fez nesse Estado durante o governo José Reinaldo Tavares e faz agora na tentativa de derrubar o governo Jackson Lago.

Nem vamos entrar no mérito das razões que motivaram Hugo Chávez a cassar a concessão desse canal de TV. Mas Hamilton Octavio de Souza tem toda razão quando diz que é preciso desmontar, no Brasil, os monopólios privados de televisão e substituí-los por redes públicas entregues à gestão de organizações populares da sociedade. Até porque, em se tratando de Maranhão, pagamos muito alto pela manipulação e desertificação da notícia, pela má formação da opinião pública e pela forma criminosa como o Grupo Sarney controla a maior parte dos meios de comunicação do Estado.

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