Eudes Oliveira de Alencar
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Conversa banal a caminho do carro em que eu pegaria carona. Falávamos de comida. O pastor amigo meu lembrou que recebera de outro pastor, morador das brenhas deste Maranhão, ainda próximo de florestas, uma banda de veado. “Outro dia ele me mandou uma paca. Gostei não”. Completou.
Fui perguntado se gostava de comer caça e atalhei que não, não comia, por questão de princípios não considerava correto fazê-lo. Não queria parecer chato ou, longe de mim, ralhar com o pastor que é homem sério e comprometido com suas obrigações pastorais. Mas questionei-lhe a atitude e ele falou-me com uma candideza, meio sem graça, que me fez pensar: “Mas lá tem muita caça.”
Sempre foi assim, este pensamento pueril, que esconde uma brutal insensibilidade, de que a natureza é inesgotável e agora estamos aí, colhendo um desastre sem precedentes na terra no mar e no ar. O que não pensa o pastor, é que atrás do caçador antecipa-se a miséria ou se alimenta a desdita de um mundo que ficará mais pobre.
Retomo um tema (meio ambiente) que tratei em 29/08/05, sob o título “A laguna verde e o pecado”. Na época houve uma excessiva proliferação de algas verdes na chamada lagoa da Jansen por causa do lançamento de esgotos in natura – que continuam até hoje – matando milhares de peixes e atingindo as pessoas que pescam ali para se alimentar.
Apesar de nenhuma militância e a despeito da ignorância completa de muitos cristãos em relação à natureza, o que se explica por visões teológicas antigas, dualistas, impregnadas por nuances escatológicas deturpadas, o meio ambiente é um assunto bíblico muitíssimo antes que qualquer movimento pensá-lo. Nem o Greenpeace é mais radical. A ong é só uma pedra que clama com justa razão, diga-se, mas não transcende a paisagem, não percebe a sacralidade deste bem, por isso a Bíblia atribui ao homem não só o cuidado, mas a responsabilidade de mordomo, aquele que cuida de um bem alheio e sobre o qual deverá prestar contas. Acrescente-se ainda que a natureza está no plano de resgate divino.
Certamente meu amigo jamais teve sua atenção alertada para este tão importante fato, assunto do qual se ocupam Paulo, Isaías, Pedro, Apocalipse, sem contar o Gênesis, embora, é de pensar, tenha lido todos estes textos, mas que com que óculos hermenêuticos, se é que houve algum?
Paulo diz que nós e a natureza seremos objeto da redenção e que esta geme sob o efeito do pecado que nós cometemos (Rm 8.22). Isaías, por sua vez, lembra que haverá um lugar especial, fruto da manifestação de Deus e sua descrição é de um lugar idílico em que até os animais gozarão um estranho tipo de paz que possibilitará um lobo quedar-se ao lado de um cordeiro sem querer devorar-lhe (Is 65.25).
Pedro é mais devastador. Diz que tudo aqui está guardado para o fogo. Não seria perfeitamente cabível que a desgraça por vir será em parte causada por nossos atos hoje, o que seria o aquecimento global? Especulo. Mas suas palavras se encerram com esperança: “Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça.” (2 Pe 3.7-13 – ARA) Mas não por resultado de qualquer acordo de preservação ou algum Kioto da vida. É no apocalipse que se lê: “No meio da sua praça, de uma e outra margem do rio, está a árvore da vida, que produz doze frutos, dando o seu fruto de mês em mês, e as folhas da árvore são para a cura dos povos.” (Ap 22:2 – ARA)
Algumas religiões têm uma relação panteísta com a natureza, é o caso do hinduísmo, versões do budismo, entre outras, nós não pensamos assim. Mas tampouco a Bíblia nos permite agir como se fôssemos mordomos estabanados com direitos infinitos sobre o bem que Deus nos deu para cuidar. No Éden, mais que dar nomes às coisas, plantas e bichos, cabia ao homem zelar pelo jardim. Este mandato não acabou.
Também não vemos a natureza como a grande mãe, visão típica de uma religiosidade muitas vezes chamada de Nova Era, que é um amontoado de crenças sem Deus em que a natureza (Gaia) ascende ao status de uma coisa viva (autônoma), uma espécie de ser mítico, uma proto-deusa a quem se deve tratar com reverência. Isso está dentro da cosmogonia pagã européia, representada agora na novela Eterna Magia da Globo.
Tudo que foi criado é bênção seja antes ou depois da queda. Espinhos e ervas daninhas são parte de uma nova paisagem, talvez mais difícil, afinal a terra ficou menos generosa, mas nem por isso infrutífera. A competição daquilo que supomos nada valer, o que consideramos como praga, afinal tem um porquê, seja a partir de uma explicação teológica ou natural, só precisamos entender e achar novas utilidades para o “inútil”. Este é outro tipo de relação e há beleza nisso.
O que parecia uma condenação (No suor do rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, pois dela foste formado; porque tu és pó e ao pó tornarás. Gn 3.19) sinaliza uma nova história, homem feito da terra volta à terra, é seu irmão, companheiro de destino tanto para o mal como para o bem.
O suor rega esta luta de paciência e espera, que aguarda colheitas não ao sabor do capricho da natureza, mas de Deus que a fez. Apesar de nós, Ele provê o sustento. Toda promessa de Deus no AT prevê abundância de frutos, animais e vegetais e seu contrário na desobediência. Mas também isso o homem não entendeu e perdeu-se entre deuses da fertilidade fajutos a quem se prostravam pedindo chuva e colheita abundante. Do mesmo modo vendeu-se, nestes novos tempos, a mamom, o deus do dinheiro, para quem se ajoelham enquanto devoram a natureza transformada em fonte de capital. E não somente a devoram como regurgitam todas suas imundícies nos rios dos quais beberão, no ar que respirarão.
Precisamos rever nossa visão cristã em relação à natureza. Se Deus percebeu tudo como Bom, porque tratamos sua obra com algo de somenos? Mataremos, comeremos por mero capricho de um paladar exótico? Desconsideraremos uma abelha, uma borboleta, uma onça, porque grita em nós um louco destruidor a quem satisfaremos?
É possível que nós urbanos, amontoados no símbolo máximo de nosso descaminho, as cidades eivadas de problemas, cedo soframos nossa inconseqüência. Talvez não o tolo que joga uma garrafa pet, uma latinha ou papel pela janela do carro, mas sem dúvida, outros nossos semelhantes que, pobres, não terão dinheiro e, portanto, direito de beber água, porque eles também e nós muito mais, destruímos o rio do qual tiramos o precioso líquido. Os sofridos virão sobre nós em forma de doenças, de delinqüência, tais quais vorazes gafanhotos a cobrar sua parte no escasso butim que restar.