Natalino Salgado Filho*
Notícia reproduzida por vários jornais brasileiros esta semana dizia que o Brasil ficou apenas em sétimo lugar entre os países latino-americanos no quesito qualidade do ambiente econômico-social para investimentos. A pesquisa, resultado da parceria entre a Fundação Getúlio Vargas e o Instituto de Pesquisa Econômica da Universidade de Munique, ouviu 110 especialistas em 15 países da região e abrange o período de um ano encerrado em abril passado. Apesar de considerar que o clima econômico é favorável na AL, a pesquisa não deixou de apontar velhos inimigos do crescimento, no caso do Brasil, o déficit público como principal problema econômico e a falta de competitividade internacional e o desemprego.
Não poucas vezes, reportagens têm mostrado a incongruência que nos ronda. A taxa de desemprego a 10%, informalidade nas relações de trabalho e vários setores da indústria com vagas sobrando, apenas porque não há técnicos qualificados para ocuparem os postos disponíveis.
Segundo o diretor de Pesquisas Industriais, ligado ao Instituto alemão, a menor competitividade brasileira é decorrente da escassez de mão-de-obra qualificada. Resumindo, o gargalo brasileiro continua sendo a educação. Os dados recentes, tanto do Enem que avalia o ensino médio, como do Enade, que avalia o ensino superior, revelam um quadro preocupante independente das razões que se considere.
Um exemplo gritante desta situação é o ProUni, programa que financia estudantes de baixa renda para graduação em universidades particulares. Nos testes do Enem em São Luís em 2006, a média das notas não superou 28,6 (prova objetiva) e 36,04, considerando prova objetiva e redação. O mínimo para um aluno se credenciar a receber o financiamento é de 45 pontos nas duas avaliações.
O mérito destas pesquisas educacionais, além de mostrar uma realidade que pede intervenção urgente, colocou a educação na agenda do dia. O próprio governo, através do MEC, estabeleceu o Plano de Desenvolvimento da Educação secundado em quinze propostas aos quais se ligam trinta projetos que abrangem todas as áreas da educação brasileira. As medidas propostas pedirão muito mais que mera programação governamental e investimento financeiro. No que nos toca, penso que deverá haver acima de tudo um inarredável compromisso com a educação pública para que se mantenha viva a chama da mudança.
O que isso tem a ver com a nossa Universidade Federal do Maranhão? Tudo. Tanto é nossa missão perseguir a excelência, e aqui destacamos o curso de Direito avaliado no melhor nível do Enade, como também contribuir com nossos valores técnicos, nas diversas áreas do ensino, para que a universidade pública e gratuita e de qualidade se torne o grande espaço promotor social em nosso estado.
De que resulta esta situação? Baixo investimento em pesquisa – embora tenha aumentado nos últimos anos – e ambiente que não estimula a produção científica. Se houve uma melhoria em produção científica no país entre 2004 e 2005 (19%), não se conseguiu sair da 17ª posição no ranking mundial. Uma das razões é o baixo número de mestres e doutores. O Brasil possui apenas quatro doutores para cada cem mil habitantes, enquanto a Coréia do Sul, país que nos anos setenta apresentava quase todos os índices de desenvolvimento inferiores ao Brasil, tem 30 doutores para cada cem mil habitantes. Cabe-nos perguntar, o que esta universidade ofereceu para melhorar sua posição e a do país?
Evidente, não basta formar mestres e doutores de qualquer forma. O contexto econômico-social sugere que se deve aliar a produção científica, preparação e qualificação de técnicos, com resultados que traduzam um verdadeiro diálogo entre universidade e sociedade. Isso pedirá de todos nós uma mudança de paradigma, não se produz conhecimento por diletantismo, mas com um propósito. Nossa primeira tarefa será debater e achar caminhos, não diria novos, mas lembrando Thiago de Melo, achar novas maneiras de caminhar deverá ser primeira pauta da próxima administração.
O desafio é gigantesco. Penso que as pessoas que protagonizaram a última eleição, sem dúvida, uma das mais participativas da comunidade universitária dos últimos pleitos, sabem o que querem. Um diferencial se viu na atitude dos postulantes a reitor, privilegiaram o discurso sobre propostas realistas e que partiam do histórico da Ufma, de suas necessidades, da busca por torná-la relevante e pertinente à sociedade que a sustenta com seus impostos. Afinal, universidade pública não é somente oferecer estudo gratuito, mas ser partícipe da sociedade como promotora do conhecimento que gere soluções, desenvolvimento, crescimento social e econômico.
O momento atual pede uma universidade antenada e impregnada da realidade ao seu redor, isto significa se contextualizar sob pena de tornamo-nos irrelevantes. O Maranhão espera e necessita que a Ufma responda a algumas de suas questões prementes, o campo educacional e a partir dele, o econômico. A própria sociedade hoje requer que suas instituições de ensino apresentem desempenho qualitativo científico que justifique os recursos nelas colocados. Então, é neste alvo que temos que mirar. Estabelecer metas de qualidade, avaliar em que áreas podemos ser competitivos e nestes nichos investir nossos maiores valores, professores, técnicos administrativos e alunos. Este é o maior patrimônio desta Universidade.
Por fim, quero fazê-lo de forma pública, agradecer à toda comunidade universitária pelo bonito engajamento nesta eleição. Todos assistimos a um belo momento de exercício democrático. Isto também foi possível pelo valor que os demais candidatos conferiram à disputa, com a dignidade e seriedade que o momento e a Ufma pediam.
Este é um momento especial para nós todos. Agradeço a confiança dos professores, técnicos administrativos e alunos que fazem a Universidade Federal do Maranhão, por terem depositado seu voto no meu nome. Uma escolha que sob qualquer ângulo que se analise o pleito (voto proporcional, paritário e universal) na escolha prévia, fica patente a decisão das pessoas. Não esperamos outra coisa que não dias melhores. Não sem, parafraseando Winston Churchill, suor e lágrimas, pois não se constrói uma grande obra sem completa dedicação de todos.
*Doutor em Nefrologia – Ufma, membro do IHGM e Academia Maranhense de Medicina