BREJO DE AREIA
Dinastia de ‘doutores latifundiários’ domina cidade há mais de 20 anos
Rodízio em família no poder de Brejo de Areia mantém cidade entre as mais atrasadas do estado
Brejo de Areia, um município minúsculo, situado a 325 km de São Luís, numa região polarizada pelas cidades de Santa Inês e Bacabal, é mantido, desde os tempos em que ainda era povoado (há mais de 20 anos) sob os grilhões de uma dinastia rural endinheirada, de “doutores latifundiários” (fazendeiros que atuam como médicos), que estende seus domínios a pelo menos outras duas cidades da região: Altamira do Maranhão e Vitorino Freire.
Carente de qualquer ação que leve à melhoria das condições de vida de sua população, Brejo de Areia, de característica eminentemente agrária, aparece hoje nas piores posições do ranking da miserabilidade brasileira: o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da cidade é 0,501 (9ª mais pobre do estado), segundo o Pnud, e mais de 6 mil pessoas (75,25% da população do município) são consideradas excluídas socialmente, de acordo com o “Mapa da exclusão social no Brasil: radiografia de um país assimetricamente pobre”, do professor José Lemos, da Universidade Federal do Ceará (UFC).
O “chefão” político do clã que se assenhorou dessa região do Maranhão é Rosalino Lima da Silva (PMDB). Exceção numa família em que as especialidades médicas predominam como profissão, Rosalino é homem de poucas letras, mas muita gana pelo poder. Integrante dedicado do grupo Sarney e ex-prefeito de Altamira do Maranhão, ele tornou-se dono de mais de um terço das terras de Brejo de Areia (mais de 160 quilômetros quadrados). Também tem vastas extensões de terras em Altamira do Maranhão, Vitorino Freire e Bacabal.
Dinastia de doutores – A família de Rosalino Lima da Silva já mandava em Brejo de Areia desde os tempos em que a cidade ainda era povoado, mas foi em 1996, ano da primeira eleição do recém-criado município, que o “chefão” e seu grupo institucionalizaram seu poder, elegendo como prefeito o cardiologista José Miranda Almeida (PFL), o “Doutor Miranda”, genro de Rosalino.
Em 2001, Doutor Miranda se reelegeu. Em 2004, foi a vez de o grupo catapultar para a Prefeitura Eduardo Miranda Ribeiro (PFL), sobrinho de Rosalino, então com 21 anos. Eduardo já estudava Medicina no Rio de Janeiro (pretende se especializar em oftalmologia), e, segundo é notório em Brejo de Areia, não deixou os estudos em nenhum momento. Sua ausência na Prefeitura foi suprida por sua mãe, a pediatra Custódia Miranda Ribeiro, cunhada de Rosalino Lima da Silva, considerada pela população de Brejo de Areia a prefeita “de fato” da cidade.
A influência da “dinastia dos doutores” não se limita ao Poder Executivo de Brejo de Areia. Ela também se mostra no Legislativo: o pai do prefeito Eduardo, o odontólogo Miguel da Costa Ribeiro, o “Doutor Miguel”, irmão de Rosalino, é vereador.
Enquanto a dinastia de doutores se reveza no poder em Brejo de Areia desde 1997, a saúde social do município vai de mal a pior. A população é martirizada pelo abastecimento irregular (e sem tratamento) de água; pelo transporte precário (paus-de-arara), pela dificuldade de acesso (o município não tem nenhuma estrada que o ligue diretamente a Santa Inês ou Bacabal e as que dão acesso a outras localidades estão ruins); pela assistência médica especializada distante (Bacabal, São Luís ou Teresina); pela falta de estrutura física do poder público local (a sede da Prefeitura é uma casa; o Mercado Municipal vive entregue às moscas; não há matadouro municipal, e os particulares desprezam as regras mínimas de higiene) etc. etc.
Nos três dias em que esteve em Brejo de Areia, a reportagem do JP Realidade Maranhense também constatou outros problemas sérios no município, como o desmatamento desregrado de madeiras nobres, como o pau d’arco (ipê); as preocupantes (e brutais) explosões de violência na cidade, que deixaram três mortos em três meses; e uma erosão que ameaça “engolir” boa parte da rua principal da cidade.
O chão de terra é a ‘mesa’ para essas quatro crianças que vivem, com mais nove pessoas, num casebre do bairro Mutirão, um dos mais pobres de Brejo de Areia
Raio-x do Município
O município de Brejo de Areia foi criado em 10 de novembro de 1994 (lei nº 6.144). O antigo povoado foi desmembrado do município vizinho de Altamira do Maranhão.
Brejo de Areia limita-se ao norte com Altamira do Maranhão; a leste com Vitorino Freire; a oeste com Santa Luzia do Tide; e ao sul com Paulo Ramos.
A população da cidade está em torno de 9 mil habitantes. O município tem uma área de 483 quilômetros quadrados.
O Índice de Desenvolvimento Humano de Brejo de Areia é 0,501 (9ª cidade mais pobre do estado), segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).
Segundo o estudo “Mapa da exclusão social no Brasil: radiografia de um país assimetricamente pobre”, do professor e pesquisador José de Jesus Sousa Lemos, da Universidade Federal do Ceará (UFC), Brejo de Areia figura no 7º posto entre as cidades com mais excluídos sociais no Brasil, com índice de 75,25% (mais de 6 mil pessoas).
A mortalidade infantil do município é de 75,38%; analfabetismo (acima de 15 anos): 48,28%; cobertura do abastecimento de água: 0,24%; esgotamento sanitário: 2,20%; não há coleta de lixo na cidade.
A taxa de incidência de tuberculose é de 11,12%; a de prevalência de hanseníase, de 23,36%. Expectativa de vida: 55,5 anos; renda per capita é de R$ 44.
A Prefeitura de Brejo de Areia recebeu do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), em fevereiro deste ano, R$ 223.236,37. Do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), chegaram aos cofres da Prefeitura, no mesmo mês, R$ 182.218,51. Em março, Brejo de Areia recebeu R$ 181.563,72 do FPM e 275.817,35 do Fundeb.
O prefeito da cidade é Eduardo Miranda Ribeiro (DEM, ex-PFL). A Câmara Municipal tem 9 vereadores.
Fontes: Pnud; IBGE; Ministério da Saúde; Tesouro Nacional
Prefeito admite problemas e diz que espera ajuda do governo
O prefeito de Brejo de Areia, Eduardo Miranda Ribeiro, 23, afirmou ao JP Realidade que admite que a cidade tem problemas graves, mas que espera resolvê-los com a ajuda dos governos estadual e federal.
De acordo com o prefeito, os principais flagelos da população do município são o abastecimento precário de água e as condições ruins das estradas.
Quanto à água, Eduardo admitiu que os moradores não podem continuar dependendo do atual sistema de abastecimento: a água é bombeada de poços – artesianos e comuns –, sem tratamento, diretamente para alguns chafarizes espalhados pela cidade. Desses chafarizes, a população, por conta própria, canaliza a água para as casas. O prefeito garantiu que vai resolver esse problema com recursos federais, que seriam obtidos com a ajuda de parlamentares da bancada maranhense, como César Bandeira, Pedro Fernandes e Sarney Filho.
Os recursos para abrir e recuperar estradas, tirando Brejo de Areia do isolamento em que se encontra, só serão conseguidos, segundo Eduardo Ribeiro, com a ajuda do governo estadual. O prefeito informou que já realizou contatos com o governador Jackson Lago com esse objetivo. “Esperamos muito do governo Jackson e precisamos muito de sua ajuda. Acredito que o governador vai ser atencioso em relação ao nosso município, independentemente do posicionamento político do nosso grupo”, declarou Ribeiro.