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9 de abril de 2007
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Eudes Oliveira de Alencar

eudesalencar@hotmail.com

Dos gatos se diz, têm sete vidas. Não recordo de outro animal ou gente com esta fama, exceto no sentido metafórico. Mas agora, você leitor, pode ter uma vida paralela, naquilo que está se chamando de metaverso ou, em português comum, universo virtual.

De tempos em tempos (curtos, diga-se) o mundo da tecnologia na internet lança uma moda e logo vira uma febre. É assim com o Second Life (literalmente, segunda vida). Na apresentação é dito que o programa é uma mistura de realidade virtual, jogo e rede de relacionamento. Segundo uma das últimas estatísticas, a população do Second Life beira cinco milhões de pessoas de todo o mundo. O Brasil está em quarto lugar em número de residentes, que é como se chamam os participantes.

O Second Life é literalmente um mundo paralelo. O participante (residente) cria um avatar, que é o personagem como será conhecido neste espaço virtual. Lá ele desenvolverá uma vida exatamente igual à que cá fora se arrasta seja de que jeito for, porém sem as mazelas e com o controle dos eventos. Uma coisa é igual, conquistar a simpatia de pessoas, tornar-se conhecido, ter sucesso, exigirá dedicação, interação e alguma criatividade. Os avatares, como são manipulados por pessoas reais(?), na maioria das vezes carregam suas idiossincrasias também e manifestam sem pudores seus maus modos afinal, é só um mundo fictício(?).

Como o dinheiro move o mundo do lado de cá, faz o mesmo do lado de lá. A moeda do Second Life é o Linden dollars (L$) – tem até cotação com o dólar real: 1:25 –, com ele se faz qualquer coisa, mas é preciso ganhá-lo com alguma atividade, qualquer uma, desde que os demais avatares interajam com seu negócio e comprem seu produto, não há limites. Cada jogador é incentivado a sobreviver neste mundo realizando algo financeiramente produtivo. Na área de marketing o programa está surgindo como uma revolução. Eis o gancho no qual as empresas estão focando. Idéias, projetos, estão nascendo e retornando ao mundo real(?) em forma de dólares literais. O avatar acaba influenciando a pessoa supostamente real?

Conhecer lugares badalados no mundo? Moleza. O avatar pode se teletransportar. Ah, pode-se voar também neste mundo, sem asas.

Eu que nunca fui entusiasta de jogos, talvez pela minha deficiência “antalógica” com aqueles botões, não me senti atraído para este troço. Se bem me lembro, uma das primeiras casas de jogos aqui em SL, com seus ataris gigantes e os indefectíveis pinballs, conseguiu me arrastar uma ou duas vezes, mais por influência dos colegas. Os alunos do Maristas à época davam trabalho aos irmãos, fugiam da aula para jogar.

Quantas vezes você já se pegou pensando em sumir. Um lugar onde estar, que é lugar nenhum. Uma Pasárgada só para você. Longe dos problemas que lhe perseguem aos enxames como muriçocas neste tempo de chuvas. Mas... este lugar não existe. Ou existe? Nesta época em que o virtual consegue ser tão concreto quanto o real, as pessoas estão embaralhando mundos e se perdendo em todos eles.

Todos têm mundos interiores. Eles são necessários na construção de quem somos. É aí que sabemos quem somos e por isso podemos ser para o outro. Uns desses lugares internos são mais ou menos organizados, outros caóticos, intragáveis a ponto da pessoa não se suportar. E quem não consegue ficar consigo mesmo, busca distrações de toda sorte e o mundo oferece opções aos borbotões, nunca encontrará um companheiro. Não à toa que as drogas fazem sucesso, qualquer uma delas, químicas, jogos, internet, todas representam fugas da prisão de ser pela metade ou nem isso. Ou as drogas não existem e só se tornam assim porque se usa ou se tomam em desmasia? É por causa das sôfregas divisões internas, dilacerações de alma e a droga junta cacos, mesmo que seja um remendo roto.

A promessa de uma Second Life é atrativa, seja por brincadeira ou a sério e lhes digo, a empresa por trás do jogo leva isso a sério, não só como fonte de ganhos milionários, mas como, quem sabe, um novo paradigma de vida para milhares de perdidos no universo. Não por isso é uma vida que se pode moldar com relativo sucesso. Será que chegará o dia em que teremos dois cartões de apresentação? Será que teremos que explicar quem somos em dois mundos? Será que haverá alguém podre de rico, artista, cientista no metaverso e por aqui, onde as horas fazem fila para passar e apenas atravessar uma ruela pede o esforço de passos e atenção com os carros, ser apenas um pobre coitado?

De repente me peguei lembrando de uma palavra de Paulo: “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens.” (1 Co 15.19 – ARA). Noutra passagem este “infelizes” é trocado por dignos de pena, merecedores de lástima. Nesta palavra esta não apenas uma promessa, mas uma das afirmações mais contundentes sobre a ressurreição. Que é uma segunda vida. O Second Life acena também com a eternidade... em bytes. Mas a segunda vida ressurreta transita apenas na realidade, não em construções mentais ou elétricas. Realidade é o lugar onde Deus se faz crível, conhecível, paizinho. Isto é, no mundo em que aquelas horas que fazem fila para passar. De fato, chegará um momento em que as duas vidas (material e ressurreta) se fundirão num só espaço, fora do tempo, no homem mesmo, não em seu avatar.

A manifestação destes dois mundos é possível e desejável não apenas por representação, com satisfações fugazes e cujo interlocutor é um computador em banda larga, mas quando o próprio Deus mora em cada um por intermédio de seu Santo Espírito. Este testemunho vivo, buliçoso, na caminhada de tornar-se filho de Deus, que os antigos chamavam de santificação, que é como o homem retorna à imagem e semelhança de seu Criador.

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