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Realidade MaranhenseMiseráveis de Cidade do Médio Mearim Desconhecem o Nome do Governador

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8 de abril de 2007
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Quase 100% dos moradores desassistidos de São Roberto, uma das dez cidades mais pobres do Maranhão, não sabem por quem são governados

O governador Jackson Lago precisa urgentemente “se apresentar” à população pobre do município de São Roberto (a 365 km de São Luís, no Médio Mearim). Consulta realizada pelo JP Realidade Maranhense, abrangendo um universo de 30 famílias da rua da Palha – onde vivem mais de 600 pessoas em condições de miséria absoluta – constatou que, às vésperas de completar 100 dias de governo, Jackson Lago é um ilustre desconhecido para quase 100% dos moradores desassistidos da rua, localizada na área urbana de São Roberto, onde a maioria das casas é coberta com palha de babaçu ou tem até as “paredes” feitas com esse material.

À pergunta do JP Realidade – “Você sabe quem é o governador do estado?” –, quarenta das 49 pessoas consultadas responderam “Não sei”. Três pessoas afirmaram que o governador era José Reinaldo, duas disseram que era Roseana Sarney e apenas quatro acertaram o nome do governador. Foi considerada correta a resposta de uma mulher que afirmou que o nome do chefe do executivo estadual era “Jackson Doze”.

A enquete revelou, ainda, que, curiosamente, muitos dos que responderam não saber quem é o governador do Maranhão votaram em Jackson Lago nas últimas eleições (Lago teve 1.640 votos na cidade, contra 1.001 dados a Roseana Sarney). “Votei nele, mas pra nós aqui não chegou notícia do resultado, não”, disse uma moradora da rua da Palha ao JP.

Dependência – São Roberto, encravada no coração do Maranhão, é o décimo município mais pobre do estado. Seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é 0,502 e o Índice de Exclusão Social (IES) está entre os piores do Brasil (aproximadamente 75%).

Nos três dias em que esteve em São Roberto (28, 29 e 30 de março), a reportagem do JP Realidade Maranhense viu uma cidade que ainda é satélite de Esperantinópolis (município do qual foi desmembrada em 1994), de Pedreiras (a cidade-pólo da região) e de Teresina, no Piauí (cidade com a qual a população de São Roberto tem mais contato do que com a capital do Maranhão, São Luís).

Dependente em tudo dos outros, São Roberto pouco produz (só agricultura de subsistência) e tudo o que sua população de cerca de 4.500 habitantes consome é originário de outros estados ou municípios. O arroz vem do Mato Grosso; legumes e frutas, da Bahia (Juazeiro) ou do Piauí (Teresina); até a cachaça, chamada de “da terra” é produzida em alambiques de um município próximo, Lago dos Rodrigues.

Para o vereador Cloves Saraiva Borralho (o mais votado nas últimas eleições municipais, com 276 votos), uma boa parte dos problemas de São Roberto seria resolvida se a estrada MA-012 (que interliga Esperantinópolis, São Roberto, São Raimundo do Doca Bezerra e Barra do Corda) – fosse pavimentada. “Nas condições precárias em que a estrada está atualmente, tudo o que São Roberto consome tem de comprar mais caro e o que produz é obrigado a vender mais barato – não tem como escoar”.

Cenário de exclusão – Nesta quarta edição do JP Realidade Maranhense, o leitor conhecerá essa cidadezinha de solo fértil e cercada por uma cadeia majestosa de montanhas que o descaso de sucessivos governantes transformou em cenário de exclusão social.

Verá as imagens tristes do apartheid (segregação) em que vivem homens, mulheres e crianças da rua da Palha – que bem poderia ser chamada de rua dos Miseráveis.

Também conhecerá as histórias de lavradores de São Roberto que, tendo como única opção de trabalho no município o “roço de juquira”, quando tem, são obrigados a se afastar, por vários meses, do convívio de suas famílias para trabalhar na colheita de soja e café e no corte de cana em outros estados – Mato Grosso, Minas Gerais e São Paulo.

Pelo menos uma dúzia de trabalhadores sai da cidade por semana, se arriscando em ônibus clandestinos, às vezes passando fome longe de casa, vítimas de golpistas como uma certa dona Maroca, natural de Barra do Corda, que agia em Esperantinópolis.

Prefeito arrogante – As palavras arrogantes do poder público, representado pelo prefeito de São Roberto, José Wilson de Oliveira (PFL), também estão registradas para a posteridade nesta edição.

“Não vou te responder nada e não tenho que te responder nada. Não é do meu interesse. Só porque você é jornalista acha que eu tenho que te responder?”, afirmou o prefeito ao ser questionado pela reportagem sobre problemas que cabem ao gestor municipal (eleito e pago pelo povo) resolver e prestar contas à população, como abastecimento de água, coleta de lixo, saneamento básico etc.

Prepotente, José Wilson chegou a propor ao repórter que este produzisse uma matéria paga sobre suas “realizações”. A oferta – testemunhada pelo vereador Cloves Borralho – foi recusada.

Raio-x do Município

São Roberto tem em torno de 4.500 habitantes. É o décimo município mais pobre do Maranhão. Seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é 0,502, segundo dados de 2000 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), da Organização das Nações Unidas (ONU). O IDH de São Luís, o maior do estado, é 0,778.

Os seis municípios mais pobres do Maranhão, de acordo com o IDH do Pnud de 2000, são: Centro do Guilherme (0,484); Araioses (0486), Santana do Maranhão (0,488), Lagoa Grande do Maranhão (0,492), Governador Newton Bello (0,494) e Belágua (0,495).

O prefeito de São Roberto é José Wilson de Oliveira (PFL). A Câmara Municipal tem 9 vereadores.

A expectativa de vida no município é de 56 anos. Renda per capita: R$ 40.

Não há hospital na cidade, apenas um centro de saúde. O hospital mais próximo é o Santa Marta, em Esperantinópolis (a 28 km de São Roberto).

A hanseníase é um problema grave de saúde em São Roberto. Em 2005, foram registrados 5 casos da doença; no ano passado, mais 8 casos; este ano, já houve um registro.

90,4% das casas do município não contam com instalação sanitária.

A cidade não tem agência bancária – apenas um caixa eletrônico da CEF, que funciona precariamente no comércio do ex-vereador Pedro Alegre.

A água que chega às residências de São Roberto não é tratada (não é aplicado cloro nem flúor). O abastecimento é desigual: só os moradores da rua principal (do Comércio) têm água o dia inteiro. Nas torneiras das áreas mais pobres, a água só chega de madrugada.

A Prefeitura de São Roberto recebeu, em fevereiro deste ano, do Fundo de Participação do Município (FPM), R$ 246.296,08.

Fontes: IDH do Pnud; IES (Índice de Exclusão Social, da USP, Unicamp e PUC); IBGE, Ministério da Saúde, Tesouro Nacional

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