Espaço do leitor - Uma questão de tempo e poesiaBioque Mesito
As pessoas constroem suas mesmas rotinas pelos andaimes da existência. Mágicos movimentos não são construídos de uma hora para outra. Os cupins das bibliotecas são leitores assíduos do esquecimento do homem. Fugas. Não necessitamos de muita razão. Quando menos se espera os taciturnos vomitam suas ignorâncias (não ignorãças, como diz Manoel de Barros, o poetinha do pantanal). Há um mistério nos versos caudalosos do poeta, mesmo quando diz se esconder entre as páginas de seu desvelo. Mário de Andrade já dizia que poeta que não mostra seus textos é orgulhoso e o que mostra mais orgulhoso ainda.
Fernando Pessoa criou um paradigma que vez em quando estamos retratando: o tal do seu fingimento. Na verdade não existe fingimento em literatura. Pessoa foi bem claro em vaticinar que o poeta cria uma realidade outra e não um fingir-se. O ser do poeta é utópico. Foge até de sua própria sombra. É esquálido, ama mulheres pelo cheiro de seus pés e se embriaga entre suas pernas noite a dentro. O poeta que não conhece o seu próprio ser é melhor deixar de escrever, pois se não sabe nem o que diz, é melhor calar-se.
O engajamento político, aliado às transformações culturais (uma maldição por que passam os artistas sérios deste país: a indústria cultural dita os rumos a serem seguidos. Hoje não é muito difícil a crítica branca afirmar que tais escritores são excepcionais e começam a criar teses e mais teses sobre os mesmos; quando na verdade estes não passam de um engodo. Para não citar nomes, mas é fácil saber) fizeram as nossas letras ficarem em um patamar secundário. Os verdadeiros escritores (ou melhor, os que escrevem com seriedade, não pensando em títulos ou academias) se amontoam pelas bibliotecas ou ainda guardados em gavetas, no esquecimento platônico de meia-dúzia que o aclamam.
José Orengaia, em seu livro de poesia “Poeta é aquele, que não é” faz muitos questionamentos nessa órbita: questionamentos políticos, culturais e morais. Podemos perceber em seus versos muitas vezes “rasgados” que a humanidade é pura hipocrisia e que não dá mais para esconder o verbo. A língua tem que rumar e rimar para o caos. No primeiro poema de seu livro “Acerbo” ele diz: “Alguns procuram engolir-me / Desci atravessado, indigesto, danado / Aí tiveram de cuspir”. Como afirmávamos, o verbo em Orengaia é sujo (não como em Ferreira Gullar), mas feito de aneurismas semânticos que bem explicitam a realidade do ser.
Martin Heidegger aporta nos versos desse poeta. Sua onipresença verbal condiz muito com o tratado de Heidegger. O tempo é evidenciado sem a preocupação retórica dos fatos, como se a história humana fosse mais subjetiva do que as retilíneas metáforas do dia-a-dia. O tempo não é a cronologia dos relógios capitalistas como ele acentua no poema Ventanias: “Chegou o furacão Francisca / com dinheiro na munheca / sem grana perde-se vento / sem poder também necas / se carece redemoinhos / para os outros moer mais / carro, dinheiro, propriedades / lá vem o Tufão Fulano / todo completo enfunado / é ridículo. É vão / mas o homem é besta”.
Além do mais, a poesia de Orengaia é cheia de belos poemas como Verso compriido; Dançar; Biografia; Eu, ferozmente, eu; Sobre o tempo; Esses leitores; Manhã gélida; Caçada; E as putas?; e Rezingar. Em alguns momentos, também, o poeta deveria (quando digo deveria é mais uma subjetividade do que um conceito, pois o empirismo de Orengaia é o que valida sua obra e sua potencialidade de escritor) ser mais concluso. Mas entendo. Talvez, ou até mesmo é, sua formação sócio-cultural o encaminhe para o legado sartriano. Mas como há pouco afirmamos, essa é apenas uma conclusão ainda com pegadas por seguir na mensuração de seus versos.
A contemporaneidade é outro aspecto firmado em seu livro e em sua poética. Não é mais um dos poetas que se embrenham nos mitos, no arcadismo de seus versos, ou até mesmo no engajamento fútil e corriqueiro. Em alguns poemas encontramos uma certa preocupação com o humano. A poesia é sem dúvida uma forma de compreendermos o homem e criar sinalizações, mesmo que abstratas, para a nossa existência. Há um poema no livro que considero um tapa na cara, se chama Cerraram as saídas. Orengaia neste poema se utiliza de elementos convincentes e perfeitos para consolidar seu pensamento sobre o empobrecimento de nossa mídia audiovisual: “...não corra, nem acelere / o canal é a televisão, Galvão / tv é máquina de fazer doidos? ...temos o globo povoado por multidão de bobos”.
Só acho que o título de seu livro deveria ser menos discursivo; e que deixasse seu leitor encontrar suas próprias pegadas. Mas no todo não atrapalha em nada o bom desenvolvimento de seus textos. José Orengaia possui uma poesia madura e que com autoridade, se assim desejar, construirá seu nome na literatura. Pois verbo tem para isso e o melhor é que não faz parte dessas máfias culturais que existem e são comuns em nossa cidade, sem dar nome aos bois, às vezes a língua coça, mas deixa para lá. Orengaia veio para ficar, poeta é o que ele é.
*Poeta, membro da Poiesis Associação de Escritores e educador
E-mail: bioquemesito@gmail.com
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