Edson Vidigal
Ninguém ainda, ao que saibamos, cuidou de explicar porque a historia dos Estados Unidos não registra assassinato de Vice Presidente. Pois bem, estávamos nós ali, numa tarde mais fria que aquela da canção (“sinto frio em minh`alma...”), todo mundo empacotado, o Senador Kennedy à nossa frente, um casal gay muito simpático ao nosso lado, uma delegação de enfermeiras do Arkansas numa gralhada enorme, algumas usando boné com a inscrição “Gore 2002”. Era a segunda posse de Bill Clinton na Presidência do País mais poderoso do mundo. Até agora.
Um festival de patriotismo explícito. Cada Estado desfilava sua delegação, trajes típicos e amostras de produtos agrícolas ou industriais. Cada conquista anônima ali representada. Cada página de uma grande historia. O Presidente, a Primeira Dama Hillary e Chelsea, a filha única do casal, já haviam passado numa limusine, muito simpáticos e o detalhe que me chamou atenção é que eles se dirigiam em acenos às pessoas como se as conhecessem da mesma rua ou dos bancos escolares. Não soava falsa aquela afinidade.
Passado o alvoroço do comboio presidencial, eis que desponta na avenida a próxima atração – Al Gore, o Vice Presidente. Ele mesmo à pé, com Tipper, sua mulher gordinha e suas filhas idem, muito simpáticas. As enfermeiras perto da gente gritavam “Gore 2002”.
Não havia duvida que ele seria o próximo Presidente, tanto que depois foi o mais votado. Mas como diria o poeta Fernando Pessoa, “o mundo é para quem nasce para o conquistar; e não para quem sonha em poder conquista-lo; ainda que tenha razão”. Gore foi eleito, mas o Presidente ainda é Bush.
A posse de um governante, nos países de língua espanhola é “tomada de posesion”. Nos Estados Unidos é “inauguration”, pronuncia-se “inaugureichion”, o que quer dizer começo, inicio da administração. É quando o País se resume em delegações e vai levar o eleito à Casa Branca, em Washington. Aquele desfile mostra não só a grandeza, a punjança econômica de cada Estado, mas também a unidade do País. Coisa daqueles filmes de Cecil B. de Mille, que tinha um genro chamado Anthony Quinn, este realmente um genro talentoso e ele escalava o genro, no começo, para fazer pontas naquelas chegadas vitoriosas de Julio César a Roma, vindo de alguma guerra.
Muitos Estados ainda por desfilar, aquilo foi cansando.
Para chegarmos àquele espetáculo foi uma checagem de três dias. Convidados pelo Comitê do Partido Democrata, a cada hora nos ligavam pedindo alguma informação. E olha que eu estava nos Estados Unidos com passaporte diplomático, Ministro da maior Corte infraconstitucional do Brasil e Eurídice como bolsista do BID/Banco Interamericano de Desenvolvimento fazendo um curso sobre políticas públicas, indicada pelo Ministério da Fazenda, do qual fora Chefe de Gabinete, no Governo Fernando Henrique.
Terminado tudo, as pessoas se dispersando, pegamos um atalho e não sabíamos que estávamos a poucos metros da calçada da Casa Branca. Nisso um policial segura Eurídice pelo braço e de seus dois metros de altura, gritando, pede para ela mostrar o crachá. A neta do seu Rolim, um mui respeitado e temido Juiz de Direito no Ceará, achou que foi uma agressão aquele policial nervoso, gritar com ela e, ainda, segurando-lhe com força pelo braço. Respondeu altaneira – e você acha que se eu não tivesse crachá eu estaria aqui? E me larga, vá tirando essa mão de mim.
Não prestou. O policial fez um discurso de que ela havia lhe faltado com o respeito, ela respondeu – então eu sou convidada para depois ser agredida? A cena transcorreu rápida, olhei a mão dele, o cara tinha uma pistola apontada para Eurídice. O dedo estava no gatilho. Então, meu anjo da guarda ordenou pela minha voz que eu gritasse – “Respect !”. Respeito. Aquilo foi mágico. O policial espumava de ódio mas parou. Uma senhora do Partido Democrata chegou a tempo, explicou que éramos convidados, essas coisas.
Chegaram outros policiais que foram saindo com o estressado, ele, raivoso, ordenou – E saia daqui. Ela retrucou – Fui convidada, saio quando quiser ou se me tirarem à força. Esta é Eurídice, que enfrentou a morte que pedia carona na pistola de um policial americano. Nem sonhava que um dia, também sem pedir, fosse nomeada para esse desafio de vencer a violência como Secretaria de Segurança Cidadã, no Maranhão.
Edson Vidigal, ex-presidente do STJ, professor de Direito na Ufma, escreve para o Jornal Pequeno às sextas-feiras.