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SEBASTIÃO NERY

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Data de Publicação: 13 de março de 2007
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AS DUAS ARGENTINAS

Buenos Aires – Quando chego aqui, sempre me lembro do francês gordinho do bendito hotel de Andorra, no pé dos Pirineus soprados pela nevasca, em pleno dezembro. Três mil metros de neve e precipícios, frio de menos de 30 graus, em cima o pico de Estats como um véu de noiva, embaixo o desfiladeiro, e o carro, com correntes nos quatro pneus, deslizando devagar a madrugada inteira, à beira dos abismos, na estrada branca e mal iluminada.

Ao amanhecer, afinal, um hotel. Chamava-se Argentina. Por que Argentina, ali embaixo da França, se ele era francês e a Argentina tão longe?

- É uma homenagem ao Brasil. Morei um ano no Rio, trabalhei lá em hotéis e tenho muita saudade das praias e das brasileiras.

- E o que é que a Argentina tem com isso, se não é Brasil?

- É porque Argentina é a palavra mais bonita da língua portuguesa.

A PRATA

A orgulhosa Argentina fez com que lhe pintassem um universal retrato de arrogância, geralmente injusto. Buenos Aires, o “Puerto de Nuestra Señora Santa Maria Del Bueno Aire”, foi fundada em 1536 pelo espanhol Pedro de Mendoza e refundada pelos espanhóis em 1580, onde hoje é a Plazza de Mayo.

A independência é de 1816, com San Martin, o grande herói nacional. Passaram séculos antes de a chamarem de Argentina. Em documentos antigos, já se falava em “civitas argentea”, depois falaram em “argentópólis” e “argyrópolis”, até que o poeta Martin del Barco Centenera criou a “definitiva, bela e melodiosa, maravilhosamente poética” palavra “Argentina”, por causa da prata encontrada com os nativos: nome de mulher, do latim “Argentinus”, deus das minas de prata (em latim “argentum”, cujo adjetivo é “argentinus”).

O CUSPE

- “Na Argentina, onde se cospe nasce uma flor”, diziam os argentinos. Os não argentinos achavam petulância. Darwin esteve aqui em 1833:

- “Os habitantes respeitáveis do país sempre ajudam os contraventores a escapar. Acham que eles pecaram contra o governo e não contra o povo”.

O comediante mexicano Cantinflas popularizou uma frase invejosa:

- “Os argentinos querem afundar a Argentina, mas não conseguem”.

Einstein disse algo parecido quando passou por aqui em 1922:

- “Como é que um país tão desorganizado pode progredir”?

Os espanhóis, pais da Argentina, vingavam-se deles:

- Um argentino dirigia em Madrid, avançou um sinal, o guarda o deteve: - “Você é argentino, não é”? – “Sou. E daí? Só os argentinos furam o sinal vermelho”? – “Não. Mas só os argentinos fazem isso sorrindo”.

O brasileiro resumiu tudo na definição italiana:

- Compre um argentino pelo que vale e venda pelo que acha que vale.

O MILAGRE

Na campanha eleitoral de 2003, que elegeu Kirchner, vi aqui a Argentina falida, afundada e humilhada pelo picareta Menem, que a vendeu ao FMI e aos banqueiros. Homens elegantes, de paletó e gravata, cabelos brancos bem penteados, a cabeça baixa envergonhada, oferecendo ninharias na Calle Flórida, para poderem comer. Um dos escritores mais lidos e respeitados do país, Marcus Agnis, que já tinha sido ministro da Cultura, tentava explicar:

- “Excelente notícia é que os argentinos começam a exercer a autocrítica. A Argentina encontra-se mergulhada no sofrimento e chora como nunca ao ritmo de seu tango erótico, descarnado e cruel”.

Agora, começa nova campanha eleitoral, para as eleições presidenciais e parlamentares de outubro. Em quatro anos, aconteceu o milagre. A Argentina levantou a cabeça, deu a volta por cima e uma banana presidencial para o FMI.

O SEGREDO

As manchetes dos jornais dizem por quê:

1. - “Papel Argentino Rende até 282% em 2006 - Títulos do governo com remuneração atrelada ao crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), estão entre os mais rentáveis do ano passado – Mercado de ações e títulos privados coloca o país entre os emergentes com ativos de maior rentabilidade”.

2. – “O bom desempenho da economia do país cresceu as taxas superiores a 8% desde 2003. (Em 2006, 8,5%; em 2007, continua crescendo a mais de 8%). Títulos públicos, privados, ações, registraram resultados muito bons no ano passado. Os papéis argentinos estão em alta. Dois títulos do governo estão entre os investimentos mais rentáveis de 2006. Papéis vendidos em 2003, cuja rentabilidade estava atrelada ao crescimento da economia, os “cupons PBI” (PIB), registraram valorização de mais de 150% em 2006”.

3– “Os cupons são dois entre os diversos títulos que o governo argentino usou para trocar sua dívida, obrigando os credores, no final de 2004, a aceitar descontos que chegaram a 75%. Em 2004 ninguém dizia considerar a troca um bom negócio e cerca de um quarto dos credores decidiu não aderir ao programa. Em 2006 o “cupons” em pesos registrou alta de 157% e o em dólar subiu nada menos de 282%. São resultados extraordinários. A Argentina foi o país emergente com melhor performance em 2006” (Marcelo Billi).

O que é que a Argentina tem e o Brasil não tem? Um presidente.

www.sebastiaonery.com.br

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