MIRANTE: O LABORATÓRIO QUE MANIPULA INFORMAÇÕES
(Espaço cedido em homenagem à força do talento e à erudição da escritora conterrânea Magdala, cidadã do Mundo).
Jornalistas Othelinos: Li a entrevista do Secretário de Meio Ambiente e Recursos Renováveis do Maranhão, exatamente quando me empenhava em acompanhar a polêmica sobre a transposição do Rio São Francisco. Herdamos um país-continente, com aspectos multifários, jamais suficiente e seriamente estudados. Sucedem-se governos, administrações desastrosas, dinheirama desperdiçada e os habituais descompassos. Antes de apresentar soluções tonitruantes, deveriam cercar-se de técnicos competentes, escolhidos criteriosamente, para avaliar com honestidade, as propostas de indivíduos ou grupos.
A TV costuma focalizar a “seca” das Cataratas do Iguaçu e depois a “cheia”... Em 2006, o Paraná e Santa Catarina amargaram uma estiagem severa. Depois que a situação se normalizou, caiu o véu do esquecimento, medidas preventivas não foram adotadas, até que a próxima “catástrofe” se anuncie.
Após a sentença da reunião de Paris, entretanto, o assunto Preservação Ambiental passou a ser levado muito mais a sério. Como sugeri em carta passada, o Secretário agora reafirma e a realidade confirma, até Mr. Bush começa a mudar o discurso... Dia 20, promovi um passeio pitoresco para meus convidados do Carnaval; elegi uma rota plasticamente irretocável, com panoramas exuberantes, dignos da lente caprichosa de um cineasta exigente. Percorremos no início da manhã, uma estrada sinuosa, atravessando a Serra dos Órgãos e em alguns momentos ficamos mudos, impactados pela majestade do cenário. Ouvia-se apenas a trilha musical - escolhida por mim... - e nossos olhos se alimentaram de belezas infindas, até onde a vista conseguia alcançar. Dádiva celeste!
Permiti-me contar as nascentes cristalinas, jorrando na pedra, serpenteando e refletindo o espectro solar com incontáveis matizes. Fatiguei-me. Aves de rapina em liberdade - gaviões de várias espécies - circulavam despreocupadas e voaram ariscas, assustadas com o ruído do motor do carro. As flores da época, quaresmeiras especialmente, tingiam de roxo, rosa e amarelo, o verde intenso da Mata Atlântica.
Entre outras distinções, nosso país é o “planeta água”, sem dúvida, e será preciso muito esforço de devastação para ficar carente de H2O algum dia. Nem mencionei os rios da região: Piabanha, Paquequer e mais alguns córregos cujo nome desconheço. Se a educação ambiental constar, obrigatoriamente, do currículo escolar, ainda haverá tempo para a conscientização desta geração. O rio Paraíba do Sul, no trecho de S. Paulo, já cobra taxas das indústrias pelo uso e degradação do mesmo (quando ocorrer). No do Rio de Janeiro havia polêmica, não sei como resolveram. No Amazonas, navios estrangeiros de grande porte adentram a foz e recolhem água em abundancia para suas necessidades, conforme lhes apeteça. Gratuitamente.
Não dá mais para adiar a correção dos ultrajes cometidos contra este gigante adormecido. Não sou porta voz e nem estou a serviço de alguém, mas devido à condição de vida exercida responsavelmente, acabei inserida no contexto Meio Ambiente/ Desenvolvimento Sustentável. Uma companheira escreveu um poema, do qual “fisguei” estrofes eloqüentes: “A nossa vida é um misto emocionante/De cigano, guerreiro, bandeirante/Sempre longe dos entes mais queridos/Achando rosas onde houver espinhos/A nossa vida é feita de saudades/De renúncias, de sustos e de esperas/ Pertencemos a todas as cidades/Os nosso coração não tem raízes/E a nossa alma não possui fronteiras/Trazemos no sotaque os mil matizes/De toda a nossa terra brasileira”.
Na infância, meu irmão e eu passávamos férias às margens do rio Maracu, entre árvores frutíferas da casa avoenga, passeando a cavalo pelos campos verdejantes e singrando rios sinuosos. Aprendemos a amar o Brasil e o Maranhão, levando conosco para a vida inteira o germe de um nacionalismo sadio. Por isso me interesso tanto pelo que ocorre aí na terra natal, especialmente o desenvolvimento econômico em harmonia com a preservação ambiental, matéria alçada à primeira grandeza, a exigir formação séria, sem empirismo.
Othelinos, desvanece-me o espaço cedido em sua coluna.
Antes de me tornar “cidadã do mundo”, conscientemente elegera ser “cidadã brasileira itinerante”. O projeto sério de Nação e de Estado que desejamos tem de abranger todos os brasileiros. Não se permitem mais exclusões. E a mola-mestra da inclusão é a Educação, com suas múltiplas variáveis.
O “Velho Mundo” transforma-se dinamicamente num admirável “mundo novo” (parodiando Aldous Huxley), explodindo em progresso, sem perda de suas características históricas, todas muito bem exploradas e cada vez mais atraindo visitantes ávidos, dos quatro cantos do planeta. Há apenas 60 anos estava em ruínas e povos vizinhos, hoje unidos, se mataram, trucidaram, guerrearam. A Ásia do Pacífico progrediu graças ao investimento sólido em Educação. E a Índia lhe segue as pegadas. É o mundo globalizado, informatizado, onde cultos personalistas são abstrações caducas de seres pequenos, estreitos, banais, atrasados, despidos de originalidade, isentos de espírito público.
O affair “Convento das Mercês” – perdão pelo “revival” – constitui-se a mais supina expressão de canhestro narcisismo, produzida nos últimos anos, abaixo da Linha do Equador. “Cuidaremos de aprender com os gregos”, disse Nietzsche, exprimindo o fascínio exercido pela civilização grega sobre o pensamento ocidental (Roma, o Renascimento italiano, o Classicismo francês e o Romantismo alemão). As ruínas mais impressionantes dos impérios Assírio e Persa são os monumentais e luxuosos palácios, e as dos egípcios as pirâmides, necrópoles suntuosas. Em troca, da Grécia Clássica, recebemos templos, teatros e outros edifícios cívicos, de natureza essencialmente social. Nos monumentos desta civilização, a ênfase não se encontra nas dinastias reinantes nem nos indivíduos, mas sim no poder e prestígio da comunidade. Talvez por esse motivo sua notável obra artística haja sobrevivido até os tempos modernos.
Aplausos para a sua coluna de domingo (18.2.2007): “O rei Salomão...” Especialmente o último parágrafo. Urge que os eleitores tomem conhecimento das ações daqueles que foram eleitos para representá-los, e para esse mister são regiamente pagos. Há que se cobrar o empenho dos mesmos e os resultados, obtendo o detalhamento de projetos apresentados, pronunciamentos em favor dos Estados que representam etc. E essa conscientização do eleitorado torna-se muito mais urgente, à medida que a impostura se vá alastrando, apoiada em um gigante sistema de Telecomunicações - como no caso do Maranhão - que distorce informações, manipula etc.
Saúde e paz para todos da família dos Fortes. Cordialmente grata, Magdala-Teresópolis.
(othelinofilho@yahoo.com.br)
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