João Conrado
É simplesmente incrível
A semana que passou teve de tudo, para todos os gostos. Começou com o mercado estudando os efeitos do pacote de aceleração do crescimento baixado pelo governo federal. Governadores, sindicalistas e empresários divagaram sobre os efeitos das medidas, sem que nenhum deles, em momento algum, tenha chegado a uma conclusão plausível. O que ficou patente desse imbróglio todo foi a chantagem dos governadores em tentar surrupiar vantagens, via repasse de CPMF, enésima renegociação da dívida dos Estados etc. Os sindicalistas, do seu lado, sem entender bem o quê e o porquê do pacote, pelo sim e pelo não, resolveram entrar na Justiça. Seja o que Deus quiser. De positivo, ou quase isso, o apoio dos empresários que, por não serem anjos, vislumbraram possibilidades de manter-se no paraíso, ampliando os lucros via exploração as atividades que serão incentivadas.
Os dias passaram, a semana prosseguiu com as notícias nada tranqüilas dos efeitos da elevação da temperatura no mundo todo. Enchentes aqui, seca acolá. A morada do Papai Noel, no Pólo Norte, encontra-se ameaçada e com ela todos os animais que serão extintos na medida em que a calota polar derreter, elevar o nível dos oceanos e inundar a maioria das praias hoje conhecidas. Estão também ameaçadas as criancinhas que não mais receberão os presentes do bom velinho, já que este deverá gastar seu tempo procurando outro local aprazível para instalar sua fábrica de brinquedos. Nenhum discurso dos políticos a respeito do tema, nenhuma abordagem internacional à exceção, provavelmente, da mea-culpa do Presidente Bush em admitir a cegueira americana com relação ao acordo de Kioto. Já é alguma coisa, dirão alguns, esquecendo-se de que os efeitos da atual saturação atmosférica já comprometeram a camada de ozônio e tornou irreversível a maioria dos problemas projetados para os próximos anos. No Brasil, nada se falou acerca desse assunto.
No meio da semana, as TV a cabo mostraram documentários com cenas do holocausto nazista. Cenas repugnantes, diga-se. Milhões de judeus, ciganos, homossexuais e indesejados de toda sorte sendo remetidos aos campos de concentração e, daí, à morte humilhante. Ao mesmo tempo em que nos horrorizamos com tais cenas, assistimos placidamente a uma mãe abandonar um filho recém-nascido em um jardim, possivelmente por incapacidade de sustentá-lo, até ser devorado por formigas. Vimos, também, uma jovem gestante morrer às portas de uma maternidade, depois de passar por uma via-crúcis de mais de oito horas em trabalho de parto por vários hospitais sem encontrar vagas. Enquanto isso, o ex-juiz Nicolau desfilava em ambulância da cadeia para a sua casa, beneficiado com a complacência de algum colega seu, consternado com a situação do pobre homem. Por falar em pobre homem, vimos também a esposa do milionário da mega-sena juntar-se aos amantes para assassinar o marido e ficar cm a fortuna. Saiu no Fantástico, como saiu também a transferência da menina que matou os pais a marretada para uma outra penitenciária, porque estava ameaçada. Todos ficamos com peninha dela. No Rio de Janeiro, cenas de guerra a céu aberto. Nem se sabe porque as cenas do holocausto chamam tanto a atenção.
Porém, o que pareceu mais incrível entre todos os eventos da semana foi a mídia ser tomada pela super-relevante notícia da eleição na Câmara dos Deputados e, em menor escala, no Senado e nas Assembléias Estaduais. Não se falou em outra coisa, como se já não se soubesse antecipadamente o resultado. Mesmo sob os holofotes da imprensa e ressabiados das recentes crises de moralidade, a sociedade assistiu, entre cândida e estarrecida, as ofertas de vantagens em troca de votos. No processo de eleição, foram prometidas, entre outras benesses aos pobres representantes do povo brasileiro, a super-correção salarial brecada em dezembro último, o engavetamento de denúncias e CPI contra os desafortunados mensaleiros e sanguessugas do Congresso, entre outras. Isso tudo paralelo à posse de reconhecidos picaretas, eleitos pelo próprio povo para representá-los. O Brasil certamente merece os políticos que tem. E deve merecer, também, os pacotes e índices de crescimento que vai alcançar, quando a aprovação de qualquer medida em benefício do povo passa, antes, pela negociata de bastidores. E os negociantes foram colocados lá exatamente pelo povo.