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Os 'muros' entre Naróibe e Davos

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Data de Publicação: 5 de fevereiro de 2007
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Manoel Rubim da Silva

Contador, professor da Universidade

Federal do Maranhão e auditor fiscal federal

manoel_rubim@uol.com.br

Como sempre acontece anualmente, tivemos no final de janeiro passado, mais dois eventos que sempre chamam a atenção do mundo: o Fórum Social Mundial, FSM, e o Fórum Econômico Mundial, FEM que acontecerem, respectivamente em Nairóbi, capital do Quênia, e Davos, entre 20 e 25 e 24 e 28 de janeiro. Enquanto o Fórum Social Mundial teve a sua primeira edição no Brasil, em 2001, face às iniciativas de ONGs brasileiras e estrangeiras, estando, por conseguinte, na sua sétima versão, o Fórum Econômico Mundial nasceu em 1971, através do Professor de Economia Klaus Schwab, da Universidade de Genebra, que conseguiu reunir alguns líderes europeus, em Davos, para tratar de problemas mundiais, transformando-se, em Fórum Europeu de Gestão e, posteriormente, em 1987, em Fórum Econômico Mundial.

Em princípio, quando da realização dos FEMs, os seus participantes não voltavam às suas preocupações somente em relação ao gélido clima do Cantão de Grisões, em que se situa Davos, na Suíça, ou para a temática dos Fóruns, pois os protestos dos que hoje participam do FSM eram deveras temidos, já que tomávamos conhecimento, pela imprensa, da verdadeira “batalha campal”, entre manifestantes que protestavam contra a realização do FEM, policiais e seguranças.

Este ano, em Nairóbi, no FSM, a pauta tratou, entre outros assuntos de: evasão do capital dos países pobres, formação de uma cidadania planetária, direito de todos aos bens comuns da humanidade, a defesa cada vez maior do meio ambiente e o florescimento de uma nova cultura política no cenário árido de um mundo globalizado. As manifestações de brasileiros presentes no FSM que assistimos pela TV, quando da marcha inicial do fórum, da comunidade de Kibera (uma pequena favela, com 700 mil pessoas, com pouco acesso à água corrente e outros serviços tidos como básicos) até o centro de Nairóbi, que anunciavam aos gritos: “um outro mundo é possível”, emolduram bem o conteúdo da agenda do FSM. Provavelmente, tais gritos se configuram como os clamores dos excluídos, por um outro mundo, em que o centro das atenções seja o ser humano

Por outro lado, em Davos, a temática reinante tratou de “Shaping the global agenda: the shifting power equation”, ou seja: Moldando a agenda global: a equação de poder em mudança. Em verdade, a preocupação dos participantes do FEM, empresários, políticos e intelectuais, em que pese as suas 228 mesas de debates, girou, principalmente, em torno do novo equilíbrio do poder mundial, coma a ascensão da China e da Índia, como potências econômicas, modificando, de certo modo, a geopolítica mundial, não deixando os analistas de constatarem uma fragilidade no poder hegemônico dos EUA, mormente, na atual quadra, em que se atola, cada vez mais, nos rios de sangue que correm pela antiga Mesopotâmia, hoje Iraque, ameaçando as águas dos rios Tigre e Eufrates. Assim é que a China mereceu quatro mesas de debate, a Índia três, sendo reservada igual quantidade para a discussão sobre assuntos pertinentes à América Latina focados nos questionamentos sobre: como poderíamos crescer mais em termos econômicos, a partir de um melhor aproveitamento do nosso potencial, e no reaparecimento do populismo e nacionalismo, via Chaves, Morales e suas implicações, em termos de opções de investimentos.

É verdade que nem mesmo internamente no FSM e no FEM existem consensos em termos do que fazer para atingirmos os objetivos dos citados fóruns, que seriam os de viabilizar melhores dias para os habitantes deste planeta, não somente no que respeita às condições econômicas, e sim, também, no que tange às questões ambientais, de saúde, de segurança, educacionais, de cidadania etc. Afinal, interesses poderosos travam as ações em prol de um mundo melhor habitável, menos desigual, com mais oportunidades para todos.

Porém, sinceramente, creio que a “vontade de ultrapassar muros é bem maior do que o temor das suas conseqüências” quando vislumbramos que do outro lado existem alternativas que venham ao encontro da melhoria das condições de vida de milhões de pessoas e até mesmo da salvação de inúmeras vidas. Assim, é que sonhamos com a possibilidade de que venhamos no futuro, não somente sintonizar as agendas em prol da solução dos problemas que nos atormentam, e sim ombrear as ações em prol de uma convivência mais pacífica e inclusiva, ou como afirmou o Ministro da Cultura Gilberto Gil: “Que a humanidade signifique entre nós esse desejo de completar-se no outro. Seja no vizinho, ou no desconhecido. Que possamos nos completar uns aos outros para além da tolerância e para além do multiculturalismo”.

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