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24 de fevereiro de 2007
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Por: Andréa Cordeiro Duailibe*

(In) sustentabilidade e (im) possibilidades sociais

Essas palavras têm configurado boa parte das frases pronunciadas nos últimos dias por representantes dos mais diferentes segmentos da sociedade brasileira. Após a tragédia do maenino João Hélio, desde os mais ilustres pensadores aos mais populares, há quase uma unanimidade em condicionar sustentabilidade e desenvolvimento a uma condição digna de vida.

Cá entre nós, o relativismo conceitual que permeia boa parte dos tais discursos não tem convencido a quem de fato precisa convencer. Isto porque as políticas voltadas à sustentabilidade normalmente vinham sendo associadas a idéias de perfil ecológico e ao uso de tecnologias limpas, problemas que, por sinal, ainda persistem.

Os últimos acontecimentos têm mostrado que o foco da abordagem do problema está deslocado, e a questão tem se agravado cada vez mais rápido. Em São Paulo e no Rio de Janeiro vemos a criminalidade sendo tratada de forma paliativa, pois a questão já se tornou ampla demais. No Maranhão, assusta o fato de que o problema também existe e, embora de proporções reduzidas, também vem sendo tratado da mesma forma.

Por sua condição de agente transformador, o ser humano é parte fundamental da natureza. Assim, o cerne da questão do desenvolvimento sustentável precisa ser o desenvolvimento do homem, com ênfase na diminuição das desigualdades sociais. Parece óbvio, mas não é.

O conceito de desigualdade presente em boa parte dos discursos relativiza os problemas sociais, quando cria a ilusão de que se fulano possui algo que sicrano não possui, logo sicrano se revoltará e tomará de fulano o seu bem. Ledo engano.

Vivemos em uma sociedade de consumo que transcende em muito as necessidades de cada indivíduo. Consumimos muito, até o impensável, desde automóveis, roupas, acessórios; de tecnologias a idéias, conceitos e estilos de vida.

Até a década de 40, as famílias costumavam ser bastante numerosas; grande parte contava apenas com o pai como indivíduo provedor. O costume da “herança” fazia parte da rotina familiar, de tal sorte que era comum o reaproveitamento de praticamente tudo do filho mais velho até o caçula. E o costume era encarado de forma natural, afinal, por que desperdiçar algo que ainda tinha serventia?

Atualmente este comportamento é quase impraticável, salvo raríssimas exceções. Tudo precisa ser novo e o velho deve ser descartado. O consumo revela uma condição de status e de poder; logo, quem não tem... O valor do indivíduo, mais do que nunca, está vinculado ao seu status dentro da extensa cadeia de consumo da qual todos fazemos parte.

Por conseguinte, o problema não se restringe tão somente ao não possuir; tem a ver com uma enorme carga de impossibilidades e de desigualdade no acesso a oportunidades. Nossa nação está sucumbindo não somente à pobreza, mas à falta de perspectivas para uma população majoritariamente miserável no seu sentido mais amplo. Uma grande maioria incapaz de compreender, inclusive, a amplitude do seu estado de necessidade.

Programas de incremento direto à renda, promovidos pelos últimos quatro governos federais, têm se mostrado pouco eficientes face à grande massa de desempregados, indivíduos desocupados não só pela demanda escassa, mas pelo despreparo frente ao mercado de trabalho. Os governos precisam abandonar a postura de provedores e assumir sua posição de articuladores da economia e de ações de impacto social imediato.

O que se visualiza no momento é uma sociedade consternada e paralisada diante do inevitável: a rápida instalação do caos urbano e um Estado inoperante, incapaz de agir sobre o cerne da questão.

Enquanto se discute a redução da maioridade face à lei penal, de imediato, pergunto: será que não custaria menos ao Estado a retomada imediata do regime integral de permanência de estudantes na maioria das escolas públicas? Unidades menores, direcionadas a níveis específicos de ensino, com quantidade reduzida de alunos por unidade, dotadas de infra-estrutura completa, com salas de aula, quadras esportivas, bibliotecas virtuais, salas de estudo, laboratórios, oficinas variadas, refeitório, atendimento dentário, de forma que essas crianças e jovens permanecessem na unidade escolar enquanto seus pais trabalham, distantes das situações de perigo e da marginália que vive à espreita? Ou será que a aquisição de armas, de veículos e de aparato tecnológico, além da construção de um número sem-fim de presídios por todo o país pelos próximos anos oneram menos aos cofres públicos?

Uma coisa não anula a outra e não quero com isso, fazer apologia às estruturas arquitetônicas megalomaníacas deixadas pelos governos federais anteriores, mas aproveitar a oportunidade e sugerir investimentos possíveis, obras de método construtivo convencional, em terrenos menores, espalhadas pelos bairros, que além de receber boa parte da população jovem, garanta benefícios indiretos como a empregabilidade direta e indireta. E nada impede a participação e a colaboração financeira de empresas e organizações não governamentais. Afinal, o interesse é de todos.

Além disso, um incentivo maior às unidades de ensino técnico, tendo em vista que boa parte desta população não chegará às universidades e precisa se profissionalizar cedo. Senão, qual será o resultado prático de se jogar jovens infratores, adolescentes de dezesseis anos, em cadeias públicas a curto e médio prazos? Que tipo de retorno nossa sociedade obterá a longo prazo?

A sugestão com certeza, talvez já não se aplique àqueles que já foram engolidos pelo sistema; mas, quem sabe, criamos oportunidade para que as próximas gerações possam ao menos, ter a chance de escolher num médio prazo?

*Arquiteta e Urbanista pela Universidade Santa Úrsula/ Rio de Janeiro.

Professora do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual do Maranhão/CAU/Uema.

andrea.duailibe@elo.com.br.

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