João Conrado
Utilitarismo e desenvolvimento
Nos anos de 1700, quando já se percebia que a riqueza das nações não mais dependia apenas da quantidade de metais e pedras preciosas acumuladas à custa da exploração das colônias, o mundo se deparava com a Revolução Industrial e o decorrente crescimento na escala de produção. A substituição dos braços humanos pelas máquinas redundou na queda dos custos e na inserção de boa parte da população na condição de consumidores, via não apenas queda de preços, mas também porque as novas indústrias demandaram mão-de-obra, gerando empregos. Em paralelo, esses novos empreendimentos também demandaram uma soma enorme de recursos que os empresários da época, individualmente, não tinham condições de aportar. Para dar vazão aos grandes empreendimentos, só havia duas alternativas: ou o governo bancava a implantação das empresas, substituindo a iniciativa privada e taxando os contribuintes para arrecadar os recursos necessários ou as pessoas se uniam com suas parcas economias e juntavam o capital necessário. Nascia o conceito de sociedade anônima, rapidamente disseminado nos países que aderiram à industrialização. Coincidentemente, tais países que largaram na frente se consolidaram sob a forma de potência econômica, enquanto aqueles que apostaram na presença do Estado na economia efetivamente não conseguiram passar de economias dependentes.
O surgimento das sociedades anônimas fez surgir a figura do administrador profissional e, com ele, mecanismos de controle e avaliação que pudessem tornar a gestão transparente para os investidores. O mundo, nos anos de 1700, estava deixando para trás um passado de empresas familiares, com produção artesanal e gerenciada pelo dono. Havia a necessidade da prestação de contas porque as pessoas investiam seus recursos em busca de resultados e não podiam deixar a gestão nas mãos de empregados poucos comprometidos com resultados ou mais preocupados com o seu próprio enriquecimento.
Chama atenção, entretanto, alguns aspectos dessa passagem histórica que norteou o modelo econômico que vingou nos séculos seguintes e hoje é hegemônico em nosso planeta. O primeiro deles é que as pessoas, ao investirem seus recursos, estavam em efetivamente em busca do maior resultado possível para as suas economias ou, como se dizia na época, da maior utilidade para seus recursos e, conseqüentemente, maior felicidade. O utilitarismo assegurava que a busca individual de felicidade garantiria maior felicidade geral da população, tornando-se, dessa forma, uma corrente de pensamento ético que redundou no pensamento liberal que influenciou a economia. O liberalismo, portanto, vem como segundo aspecto interessante dessa época. Ao descartar a possibilidade do Estado bancar a implantação dos grandes empreendimentos econômicos, evitando ao mesmo tempo a elevação da carga tributária e a má gestão pública que redundaria em fracasso desses negócios, o povo sabiamente optou pelo desenvolvimento econômico, deixando ao Estado o papel de indutor e controlador do processo.
É importante destacar que não se faz aqui nenhuma apologia ao liberalismo como modelo isento de erros. Sabe-se que a busca da felicidade, tal qual apregoada pelo utilitarismo, redundou em concentração de renda e acumulação de riqueza em uma minoria. O Estado, por sua vez, não se mostrou capaz de assegurar as políticas necessárias para atingir um mínimo de bem estar da população, salvo em raríssimas exceções. Ainda assim, o modelo liberal sobressaiu-se porque permite oportunidade a quem tiver coragem de assumir os riscos do mercado.
O Brasil, com mais de duzentos anos de atraso, ingressou no liberalismo a partir do governo Collor de Mello, com a abertura do mercado. Em seguida, Fernando Henrique Cardoso deu seqüência, privatizando empresas estatais eficientes e ineficientes. Ainda hoje, há quem abra a boca e diga que a privatização foi a entrega das riquezas brasileiras aos especuladores internacionais. Citam exemplos, como o da Vale do Rio Doce, que era uma empresa lucrativa e foi vendida a preço baixo. A Vale continua lucrativa, agora mais do nunca, e a riqueza brasileira continua no Brasil. A Vale gera mais recursos e divisas do que gerava antes, emprega mais pessoas que antes, paga impostos e não mais é cabide de empregos para apadrinhados que se empoleiram em diretorias corruptas e repartem a riqueza da nação, como se viu nas ainda Estatais que sustentaram o mensalão.