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GospelPapai Noel não existe

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24 de dezembro de 2007
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Eudes Oliveira de Alencar

eudesalencar@hotmail.com

Era só uma tarefa escolar infantil de final de ano. Eles deveriam fazer um cartão natalino e nele colocariam um pedido ao Papai Noel. Ele fazia o seu cartão também, mas disse à colega que o “bom velhinho” não existia. Ela não se abalou e ponderou que aqui não, mas lá no pólo Norte... Ele, enfático: “Nem no pólo norte ele existe.” Um outro, que estava ao lado e acompanhava a disputa, solidarizou-se com a menina confirmando com veemência que Papai Noel existia, sim. Ele manteve-se impávido em sua descrença e logo todos os coleguinhas da sala, cerca de dez crianças, estavam contra ele.

Sem saída, porque a coisa tornou-se uma teima sem sentido de existe-não-existe, ele acorreu à professora que até aquela altura mostrou-se distante e alheia à querela. Perguntou-lhe: “Professora, não é verdade que Papai Noel não existe?” Ela, sentindo-se encalacrada, optou pela estratégica resposta que devolve a pergunta ao interlocutor, deixando-o ou na defensiva ou na responsabilidade de responder sobre o que quer saber. Não é algo muito justo com uma criança, mas enfim... “Você acha?” Disse a “tia”.

Ele, imediatamente, sem abalar-se e sem entender estas manhas que aprendemos quando um não quer comprometer-se, emendou: “Acho não, tenho certeza!” E a história acabou por aí. Restou a ele a frustração e a solidão daqueles que abraçam a verdade, o caminho mais árduo, mais agudo e que nem sempre ganha o companheirismo dos outros. Quando me contou saudei-o com um bem-vindo ao clube daqueles que ficarão sozinhos em muitas circunstâncias, apenas porque optaram pela verdade nua e crua. Sei que não entendeu, mas sentiu-se reconfortado, embora tenha me desafiado a voltar lá na escola para apoiá-lo e dizer à pequena comunidade de sua sala de aula que Papai Noel não existe.

E por que eu alimentaria a crença infantil em um senhor com roupas ridículas, vestido para o frio em nosso calor úmido de 34º C, que voa num trenó puxado por renas? Sou um insensível? Retiro de uma criança seu direito a uma porção de magia? Ou como disse uma adulta me recriminando: Eu arranco o encanto do pobre menino. Ele, no entanto, me parece muito feliz e saudável com a verdade, por saber que aquele velhinho é só invenção. Se ainda fosse o velho do surrão – em um ataque de bondade – numa carroça voadora puxada por antas... Até brincaria. Mas escrevo para adultos, não é?

Por que pactuaria com uma barafunda religioso-cultural-marketeira sem pé nem cabeça? Não. Desde cedo meus filhos conhecem o Papai Noel porque é impossível fugir dele tal sua onipresença na época do natal, mas eles sabem que quem dá presentes é o Papai do Céu. Da seguinte forma: Aquele dá condição ao papai da terra e este compra os presentes.

A situação, às vezes, beira o absurdo. Outro dia, em sua atividade esportiva, os meninos deveriam participar da festinha de final de ano. Convite entregue, musiquinha natalina no verso para decorar. Eu deveria comprar uns presentinhos, entregar aos promotores da festa que o dariam ao tal Papai Noel, que chegaria com pompa e circunstância e ele, sim, os dariam aos meus filhos. O que é isso? Perdoem a empáfia, mas esta glória não dou a ninguém.

Pois bem, continuo no posto de desmontar, a meu modo, estes penduricalhos que faz do natal esta coisa estranha que a mim, perdoem de novo a insensibilidade, não me toca.

Ano passado critiquei a TIM que vendia telefones com a ridícula frase “Feliz sete centavos!” Este ano, outra empresa mais improvável ainda, inovou ou aloprou, melhor seria dizer, com uma frase tão patética quanto a anterior. Uma empresa farmacêutica faz propaganda de seu produto com um “Bom Engov pra você!” Quase vomitei. Creiam, esse mal estar o remédio não debela.

Mas a ameaça ao Natal não fica só na velha apropriação indébita que lhe fez o comércio, descaracterizando-o, desmontando-o, desfigurando-lhe de qualquer remoto significado transcendente. O natal é ameaçado pela maldição do que se denominou “politicamente correto”. Nos EUA, na velha Europa pós-tudo, já no ano passado reportagens falavam sobre isso. Não se deve dizer Feliz Natal porque isso identifica a festa com o cristianismo, os shoppings e todo tipo de comércio adotou um terno “neutro”, algo como um simplório “Boas Festas” e assim não corre o risco de ferir a sensibilidade daquela religião não cristã que tem quatro seguidores, mas que compra.

Vivemos o paroxismo da ditadura das coisas pequenas. Não que não se deva defender os pequenos ou grupos minoritários, mas tudo tem limite. Afinal, esta festa de final de ano, com tudo que alude a religiões pagãs em seus primórdios – árvore, papai noel, duendes, etc, etc –, pois o cristianismo romano as absorveu, significa, no final das contas, que Deus invadiu a história na forma de um menino a quem chamou de Emanuel que significa “Deus conosco”. Aquele chamado Jesus que significa “Deus é Salvador”. Deus-homem é o presente.

Não quero fazer apelo sentimental nenhum a ninguém do tipo: “Lembre-se dos pobres, faça algo bom neste natal”; porque tudo me parece artificial, bondade com hora marcada. Até porque os pobres, como disse Jesus, sempre os temos conosco, estão aí o ano todo. Aliás, de que vale dar um bocado na noite de Natal se no resto do ano são ignorados solenemente? Há quem discorde, claro, e dizem que é melhor fazer algo nem que seja no Natal do que não fazer. Mas eles (os pobres?), que não são bobos, aprenderam que as pessoas ficam meio que de coração mole e danam-se a espreitar qualquer um nos lugares mais inacreditáveis com a mão estendida com a frase: “Me dê o meu Natal!” Perdoem novamente, mas isso tudo me enoja.

Não quero constrangê-los justo agora, sei que minha fala parece deslocada e uma pequena heresia. Mas se a coisa toda não passa de matar-se para comprar, esfolar-se nas festas e comemorações, no final, além do mal-estar pelo que apela a propaganda aqui mencionada, ressaca e dívidas, restará também o vazio de não saber exatamente pelo que comemorou se é que o fez.

Finalizo lembrando uma música de Assis Valente, muito cantada nesta época, mas que revela certa melancolia de quem está sem aquele referencial em Deus, pois é disso que se trata o Natal: “Já faz tempo que eu pedi/Mas o meu papai noel não vem/Com certeza já morreu/Ou então, felicidade/É brinquedo que não tem.”

Deus o abençoe. Receba a Graça do Senhor para sua vida e viva o Natal em plenitude. Abraço.

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