O DRAMA DAS MENINAS-MÃES
20% das mulheres que dão à luz em Santo Amaro têm entre 10 e 17 anos
Maria do Bom Parto Machado dos Santos, a “Raduca”, completou 12 anos em 29 de agosto deste ano. Ela é uma criança, ou melhor, era até setembro do ano passado, quando engravidou de um homem de 25 anos de quem ela sabe apenas o primeiro nome, Jorge. Não fazia nem um mês que “Raduca” havia completado 11 anos. Em 16 de junho deste ano, nasceu Pedro Lucas. É um garoto forte e, para não contradizer o nome da mãe, veio ao mundo num parto normal, sem problemas.


Maria do Bom Parto é o caso que causa mais perplexidade, numa cidade em que as mulheres estão engravidando cada vez mais cedo. Segundo dados da Secretaria de Saúde de Santo Amaro, pelo menos 20% de todas as crianças que nascem no município são filhos de mulheres entre 10 e 17 anos.
“São crianças cuidando de outras crianças”, diz Maria Vitória Costa, 76 anos, parteira há 44 anos em Santo Amaro. Segundo ela, “antigamente as mulheres tinham muitos filhos, doze, treze, não havia muitas formas de evitar”, mas a primeira gestação acontecia aos dezoito anos, pelo menos. “Hoje em dia, com tudo quanto é jeito de evitar, essas meninas pegam filho novinhas, não se cuidam”.
O comportamento-padrão dos homens que engravidam essas meninas-mães aumenta o drama vivido por elas. Quase a totalidade desses homens não assume as conseqüencias de seus atos. “Meus pais foram lá falar com o Jorge, para tentar fazer um acordo e garantir que ele sustentasse o menino, mas ele fez foi negar, disse que queria exame de DNA. A família dele disse que ele está acostumado a fazer isso. Já tem dois filhos na rua e não assumiu”, declarou “Raduca” ao JP Realidade. Enquanto o pai não se dispõe a ajudar na criação da criança, o padrinho de “Raduca”, José Dias, 70, mantém mãe e filho.
No Mandacaru, um dos bairros mais pobres de Santo Amaro, a reportagem do JP encontrou Dorismar Mendonça Silva, de 14 anos, e Katiane Araújo de Sousa, 15. As duas são primas. Ambas estão grávidas. Elas moram num casebre minúsculo, de paredes de taipa e telhado de palha, que dividem com mais cinco pessoas. Maria da Graça Mendonça da Silva, mãe de Dorismar, e seu pai, um pescador já idoso, sustentam a casa.
Nenhuma das duas jovens soube dizer o nome completo dos homens que as engravidaram. “O apelido dele é ‘Zeca’, o nome parece que é Zé, não sei o sobrenome”, disse Dorismar, gestante de 6 meses. “O pai do meu filho acho que se chama Ivonaldo, ou Erivonaldo, o apelido é ‘Branco’”, afirmou, rindo, Katiane, grávida de 4 meses.
Da mesma forma que no caso de Maria do Bom Parto, há poucas probabilidades de “Zeca” ou “Branco” ajudarem na criação das crianças. A tragédia social silenciosa das meninas-mães de Santo Amaro parece não ter final previsto.