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Viver e morrer nas areias escaldantes

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Data de Publicação: 2 de dezembro de 2007
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Com interesses bem diferentes dos que buscam riquezas nas profundezas da terra, lavradores e pescadores pobres tiram da natureza apenas o suficiente para sustentar suas famílias e manter-se vivos

LUÍS SILVA SANTOS, 30
O lavrador Luís teve paralisia infantil, que deixou “troncho”, como ele disse, o braço esquerdo. Mesmo assim, o agricultor trabalha de sol a sol para pôr comida no prato de seus quatro filhos – Usias, 7 anos; Josias, 6; Débora, 5; e Joice Kelly, 2. Ele mora no Atim, um bairro paupérrimo de Santo Amaro. “Quando a lavoura tá fraca, eu vou pescar e sempre consigo um peixinho para comer”, disse Luís.

ALINE (*2006 +2007)
Filha do pescador Carlos Augusto da Luz Santos e de Kaline Maria de Sousa, Aline morreu aos 11 meses de idade. Amigos disseram que ela teve uma simples catapora e a doença evoluiu para pneumonia. Chegou ao hospital de Santo Amaro quando seu estado já era bem grave. Transportada para São Luís, chegou a passar por uma cirurgia, mas não resistiu. No cemitério da Paz, localizado a apenas alguns metros da casa de Carlos Augusto e Kaline (que não suportaram ir ao enterro), os funcionários da Prefeitura jogaram algumas pás de areia para cobrir o pequeno caixão de Aline e ela virou estatística. É uma das 44 crianças entre mil nascidas em Santo Amaro que morrem antes de completar um ano. “O caso dela não tinha mais jeito. Deus quis assim”, alguém disse enquanto a areia quente tapava a cova. Será?

ALFREDO DE SOUSA, 31

Pescador, Alfredo mora no Mandacaru. Em seu casebre, no qual um pano foi improvisado como parede, vivem 8 pessoas – ele, a mulher Dulcilene Marques da Conceição e seis filhos. Três das crianças estão com catapora. O caso mais grave é o de Carol, de 5 anos. Todo o corpo da menina está coberto de feridas. “Coça muito porque vai areia nas feridas”, disse Carol. Enquanto conserta sua rede, Alfredo fala: “Para o pescador trabalhador aqui em Santo Amaro nunca falta o que botar no prato. Deus sempre dá pra gente um peixinho: tilápia, camarão, bagre, traíra. A gente come às vezes só peixe mesmo, com tempero, sem arroz, feijão, nada, mas não passa fome, não”.

MARIA DO ESPÍRITO SANTO DA LUZ SANTOS
Pelo menos uma vez por semana, Maria do Espírito Santo, 58, acorda de madrugada e caminha cerca de cinco quilômetros para ir do bairro em que mora – o Atim – até perto da lagoa da Gaivota para colher frutas silvestres. A reportagem do JP deu uma “carona” para dona Maria quando ela regressava, debaixo do sol forte, carregando um balde cheio de pirunga, guajiru e caju e equilibrando na cabeça um saco de murici. “Com as frutas, faço doces e também vendo uma parte pra tirar um dinheirinho”, disse Maria.

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