POR OSWALDO VIVIANI
A reportagem do JP Realidade viveu na pele o sofrimento cotidiano de milhares de moradores de São João do Caru na estrada que liga o município a Bom Jardim
Não há maneira de se chegar a São João do Caru diretamente. A viagem tem de ser feita em duas partes: a primeira (mais light) até Bom Jardim (cerca de 4 horas e meia de ônibus), e de lá a São João. O tempo que se demora para vencer esse último trecho, de cerca de 100 km, depende de vários fatores, como as condições da estrada de terra (a MA-318), o clima e o estado do veículo em que se viaja.
Para mim – que embarquei no “Mensageiro de São Francisco”, um caminhão “pau-de-arara” que é o único meio de transporte acessível à população pobre do município –, a viagem durou das 13h às 19h. Foram seis horas de martírio, numa estrada que já apresenta vários trechos intrafegáveis, por causa da lama, apesar do pouco volume de chuva que tem caído na região.
O sofrimento começou bem antes de a viagem efetivamente ter início. É preciso ser dotado de paciência chinesa para suportar as infindáveis voltas do “pau-de-arara” por Bom Jardim à cata de passageiros. O caminhão só saiu depois de completamente lotado, levando umas 45 pessoas (R$ 15 por cabeça). Até no teto tinha gente. Fui na parte de trás, dividindo espaço com sacos, caixas, bolsas, mochilas, enxadas, pás, galões de gasolina, uma cama desarmada, um colchão (na ida, pelo menos não tinha nenhum bicho, mas na volta alguém jogou duas galinhas com os pés amarrados no meio das tranqueiras).
Pipoca na panela – Estranhei quando vi o pessoal se espremendo nos bancos da frente, com tanto espaço na parte de trás, mas assim que “seu Di”, o condutor do “pau-de-arara” pegou a estrada e acelerou, entendi a coisa toda: a buraqueira me fazia saltar do banco igual a pipoca na panela. Não adiantava nada segurar nas cordas, que vão cortando as mãos aos poucos. Em alguns dos meus vôos no banco de madeira, minha cabeça chegou bem perto do teto. Menos mal que o “estofado” dos bancos, feitos com sacos de náilon recheados de palha de arroz (“cuim”) amaciava a queda.
O caminhão não havia percorrido nem dois quilômetros quando começou a chover. E não era pouca água. As proteções laterais de plástico foram baixadas e não entrava sequer uma gota de água no ambiente. Em compensação, começou a faltar ar. Certo de que respirar é mais importante do que o incômodo de viajar meio encharcado, levantei um pouco o plástico. Outros fizeram o mesmo e o sufoco diminuiu.


A chuva parou depois de uma hora, mais ou menos, mas a estrada ficou bastante escorregadia, o que impossibilitava que o caminhão avançasse com rapidez. Não havíamos percorrido nem 40 quilômetros, quando apareceu um caminhão quebrado no caminho, carregado de madeira. Pás e enxadas foram postas em ação pelos ajudante do “seu Di” para tirar a lama do espaço mínimo que sobrou para nossa passagem e jogar terra seca, retirada dos morros laterais da estrada.
Atolamos mais duas vezes na estrada antes de entrar nos limites de São João do Caru. No total, ficamos mais de duas horas parados, enquanto os ajudantes jogavam terra seca na lama.
Prefeito na lama – Na segunda parada, uma surpresa: uma caminhonete L-200, conduzida pelo prefeito de São João do Caru, Edinaldo Nascimento, e levando ainda sua mulher e outra pessoa, também foi obrigada a parar e esperar, no meio da lama, até que os ajudantes deixassem a estrada em condições de tráfego.
Para completar, surgiu pela estrada enlameada uma ambulância da Prefeitura de São João. Assim, carro com o prefeito, “pau-de arara” lotado de cidadãos indignados, caminhões carregando madeira e ambulância formaram, ao acaso, um retrato vergonhoso do descaso. Era o representante do poder público constrangido, sentindo na pele a situação vexatória a que são submetidos os munícipes há vários anos.
Pode-se dizer a favor do prefeito Edinaldo que os piores trechos da MA-318 não estão em São João do Caru, e sim em Bom Jardim (cidade administrada por Roque Portela). No entanto, já que a estrada é importante para a população dos dois municípios, os dois gestores têm igual responsabilidade por sua conservação.
‘Apita, seu Di’ – Chegamos a São João do Caru já à noitinha. Parte da cidade, que sofrera com falta de luz durante três dias, estava às escuras – uma fase da energia elétrica, que fora restabelecida naquele dia, havia caído. “Seu Di” entrou na cidade buzinando seu possante, como que avisando a todos que havia vencido a estrada mais uma vez. “Apita, ‘seu Di’”, gritavam as crianças, recepcionando o “pau-de-arara” heróico.
Quanto a mim, torci o tornozelo assim que pulei do caminhão, encontrei um gigantesco sapo preto abrigado dentro do meu quarto, no dormitório que escolhi para ficar, e descobri, na manhã seguinte, que o tal dormitório (que não tinha nem chuveiro) pertencia à mulher de um dos maiores plantadores de maconha do município. Welcome to São João do Caru!