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Miséria é miséria em qualquer canto

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Data de Publicação: 16 de dezembro de 2007
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Breves histórias do povo que sofre em São João do Caru

A IDOSA debruçada nas laterais da carroceria do “pau-de-arara” ficou nessa posição durante os cerca de 15 minutos que o transporte indigno permaneceu parado, na rua principal de São João do Caru, à espera de mais passageiros, antes de seguir viagem para algum dos muitos povoados esquecidos do município. Claramente, ela passava mal, mas ninguém na “condução” parecia se importar. “É só uma tonteirinha”, diagnosticou uma mulher mais nova, ao seu lado. A reportagem do JP se aproximou, quis saber o nome da senhora e o que estava sentindo, mas ela nada respondeu. Seguiu mergulhada em seu silencioso sofrimento, o sol castigando seus cabelos branquíssimos. “Levanta a cara pra sair bem na ‘filmage’, véia!”, gritou um imbecil que passou de moto.

ANTONIA NEVES DA SILVA, 48, vive há dois anos no Igarapé dos Caboclos, um povoado localizado às margens do rio Caru, distante apenas 3 km da sede de São João. O lugar – onde a energia elétrica e outros benefícios elementares ainda não chegaram – é dominado pelos traficantes de maconha, que utilizam o rio Caru para transportar a droga a outros municípios. Antonia, o marido Antonio Rocha Ferreira e três dos nove filhos do casal se recolhem e trancam portas e janelas assim que escurece, quando o povoado vira uma terra tomada pelas trevas e pelo perigo. Antonia diz ter medo de criar os filhos num lugar assim, mas afirma que no momento não tem outro jeito: a renda do casal, vinda das redes de pesca que Antonio faz e vende e do Bolsa Família (uns R$ 200 por mês, no total), não é suficiente para eles sequer pensarem em sair do “Caboclo”. “Graças a Deus ganhei uma ‘tevezinha’ a pilha do meu irmão. Ela segura os ‘minino’ dentro de casa”, celebrou Antonia.

ELENICE DIAS LIMA, 13, e ROBERTO PEREIRA ALVES, 35, sobrinha e tio, foram abordados pela reportagem no bairro mais pobre de São João do Caru, cujo nome “oficial” é Manoel Ramalho, mas que as cerca de 400 pessoas que moram lá, para irritação da “elite” local, insistem em chamar de “Sem-Terra”. Elenice ficou grávida aos 12 anos. Questionada sobre métodos contraceptivos, Elenice manteve-se calada. Aliás, às vezes, a jovem dava a impressão de ser surda e muda. Sua reação às perguntas, quando não ficava em silêncio, olhando melancolicamente para o filho de um ano, era apenas mexer a cabeça, afirmativa ou negativamente. Na única vez que falou, disse um quase inaudível “É” para concordar com uma declaração do lavrador Roberto (igualmente econômico com as palavras) de que “no ‘Sem-Terra’ a vida não é fácil para ninguém, mas a gente tem que todo dia ‘caçar’ um jeito de arranjar o que comer, tirando da roça, do rio ou de qualquer trabalho que aparecer”.

ROSILENE BEZERRA DA SILVA, de 17 anos, também mora no Igarapé dos Caboclos. A casa onde ela vive, com outras 7 pessoas, é de taipa, com teto de palha, como quase todas do povoado. O tempo desgastou o barro e as paredes da moradia já estão cheias de buracos. A principal tarefa diária de Rosilene é cuidar dos irmãos Luana, 11, Maria de Jesus, 7, João, 3, e Irislene, 1, durante o dia. Seu pai morreu há um ano e a mãe trabalha fora. As privações do cotidiano são subestimadas pela jovem: “Feijão, pelo menos, sempre tem pra comer. A gente completa com piaba, mandi, sardinha, que pega no rio”. Ainda cursando a 6ª série, Rosilene pensou um bocado antes de responder com um seco “Sei lá” à pergunta sobre seus planos para o futuro.

ACIDENTE

Queda de helicóptero com o governador ainda é assunto na cidade

Um dos episódios mais marcantes na vida da pequena São João do Caru aconteceu em 27 de setembro do ano passado. Na tarde desse dia (cerca de 14h), um helicóptero ocupado por quatro pessoas, entre elas o então governador do estado José Reinaldo Tavares, caiu no meio de uma rua de terra, no bairro J. Belém, segundos depois de levantar vôo de um campo de futebol.

O helicóptero no chão: ‘Praga de Roseana!’

O acidente ainda hoje é comentado nos detalhes pelos moradores da cidade. Dois dos caruenses que mais “dominam” o assunto são os lavradores Lauro José de Sousa, de 68 anos, e Valdemir Silva Nogueira, 28. Lauro mora a uns 30 metros do local da queda e Valdemir vive numa casa bem em frente ao lugar onde a aeronave caiu.

Lauro e Valdemir viram a aeronave descer ‘torando’ tudo

“O bichão foi ‘torando’ tudo quanto era fio da rede elétrica, fazendo um barulhão doido, até que bateu num ‘pé de pau’ [árvore] e pulou pro meio da rua, caindo ‘de pezinho’”, contou Lauro. “Sorte que não bateu num poste aqui perto nem na minha casa”, relatou Valdemir.

Além de José Reinaldo, estavam no helicóptero seu ajudante de ordens, capitão Santana, o piloto Maurício Cobra e o então secretário estadual de Agricultura José Lemos.

Momentos antes do acidente, José Reinaldo havia estado na escola Aldenor Leônidas Siqueira – a maior da cidade –, onde lançara projetos de combate à pobreza rural.

Já retornando de carro a São Luís, ele falou por celular com o JP: “Quando o helicóptero levantou vôo, o comandante [Maurício Cobra] percebeu que não ia passar por cima de umas árvores que estavam à frente e forçou muito. Com isso, o helicóptero ‘estolou’ (estol é a perda de velocidade de uma aeronave a ponto de fazê-la cair), a uma altura de 15 a 20 metros. O piloto saiu procurando um local para pousar e avistou uma rua da cidade, de piçarra. Havia casas por perto, mas, por sorte, não tinha ninguém na rua. O helicóptero bateu no chão, em posição normal, subiu novamente e caiu, ficando com boa parte destroçada. Tentamos sair de imediato, mas a porta emperrou. Muitos moradores correram e nos ajudaram a sair”.

O helicóptero, parcialmente destruído, foi desmontado, dias depois do acidente, e trazido de caminhão para São Luís. Os ocupantes do aparelho só sofreram ferimentos leves.

Segundo o lavrador Lauro José de Sousa, as primeiras palavras de José Reinaldo depois que o retiraram da aeronave foram: “Isso foi praga de Roseana!”. O acidente aconteceu a poucos dias da eleição que Roseana Sarney disputaria com o candidato apoiado por José Reinaldo, Jackson Lago, vencedor do pleito.

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