SÃO JOÃO DO CARU
Traficantes espalham medo em cidade do Vale do Pindaré
Povoados paupérrimos são dominados por gente que vive do plantio e tráfico de maconha
Considerado o 13º município mais pobre do Maranhão, com uma legião de quase 8 mil excluídos sociais (64% da população), São João do Caru (a 357 km de São Luís) está sendo dominado por grupos de traficantes de maconha, que fizeram da cidade a maior produtora da droga no estado.
Os traficantes – a grande maioria vinda de outros estados, como Pernambuco, Piauí, Ceará, Rio de Janeiro, Pará e Espírito Santo – impõem à população paupérrima dos povoados ribeirinhos de São João do Caru sua própria lei, onde o silêncio é a regra mais importante.
Quem desrespeita essa norma ou se torna apenas suspeito de violá-la paga com a vida ou é expulso de sua própria casa, como aconteceu com o lavrador Raimundo Vieira Filho, o “seu Bitinho”. Em novembro passado, dias depois de receber o delegado da cidade em seu casebre, no povoado Igarapé dos Caboclos, quatro homens armados, chefiados pelo traficante conhecido como “Nonatão”, invadiram a casa do lavrador à noite e ameaçaram a ele e sua família de morte. “Seu Bitinho” teve de abandonar a residência, junto com sua família, com destino a um lugar não revelado na sede de São João.



“É difícil enfrentar os traficantes nas condições em que trabalhamos, sem poder contar sequer com uma viatura e com apenas cinco policiais armados precariamente”, disse ao JP Realidade o 2º sargento PM Reginaldo Martins Brito, que cumpre a função de delegado de São João do Caru.
Mesmo sem o mínimo necessário para combater os traficantes, o 2º sargento Brito vem obtendo bons resultados na luta contra os bandidos, efetuando várias prisões e apreendendo quantidades significativas de maconha (só no ano passado, foram mais de 200 quilos).
“O problema é que eles mudaram a via de transporte. Nos últimos tempos, em vez de irem pela MA-318, como faziam antes, eles estão utilizando o rio Caru, geralmente à noite, o que torna nosso trabalho de repressão praticamente impossível”. Do rio Caru, os traficantes chegam ao rio Pindaré, desembarcando a droga em Bom Jardim ou Alto Alegre. Desses municípios, a droga segue para São Luís, Codó, Caxias, Bacabal e para outros estados, como Pernambuco.
Índios aliados do tráfico – As maiores áreas de plantio de maconha em São João do Caru estão localizadas na área indígena Caru, dos guajajaras, que tem mais de 100 mil hectares. Muitos índios se juntaram aos traficantes. Para quem está no centro de São João do Caru, basta atravessar o rio para ter acesso à reserva.
Segundo a polícia, os plantadores há tempos estão se instalando também em povoados de São João do Caru. Eles preferem os que têm pouca ou nenhuma estrutura, especialmente aqueles nos quais a energia elétrica ainda não chegou, como Igarapé dos Caboclos, Centro do Selé, São Francisco, Seringal e Cabeça Fria. A maioria desses povoados está a menos de 5 km da sede do município.
De acordo com vários relatórios já encaminhados pelo 2º sargento Brito ao comandante do 7º Batalhão da Polícia Militar de Pindaré-Mirim, major José Raimundo do Rosário Júnior, ao qual o posto policial de São João do Caru está subordinado, os “chefões” do tráfico que dominam esses povoados espalham medo entre os moradores, com ameaças constantes e até assassinatos.
O ‘chefão’ Nonatão – O maior traficante da região, segundo o relatório, ao qual o JP Realidade teve acesso, é um homem conhecido como “Nonatão”. Ele é de Itapecuru-Mirim, mas sua família vive em Vargem Grande. Já tem mandados de prisão expedidos em cinco municípios (Vargem Grande, Miranda do Norte, Itapecuru-Mirim, Chapadinha e Cachoeira Grande).
Conhecido ainda como “Nonato Mocotó” e “Nonato da Tatuagem”, o traficante também é acusado de homicídios e assaltos. “Nonatão” e seu bando (que tem de 12 a 16 pessoas) já invadiram a sede de São João do Caru em 1999, para tentar assaltar a agência do Bradesco. O ataque foi frustrado. A quadrilha também assaltou todos os presentes numa festa que acontecia no povoado Centro do Selé.
Conforme a polícia, no povoado Igarapé dos Caboclos, base de atuação de “Nonatão”, o morador conhecido como “Antonio Passador” é um dos homens de confiança de “Nonatão”. Ele é encarregado de informar o “chefão” sobre tudo o que acontece no povoado. O JP Realidade esteve no Igarapé dos Caboclos e constatou a presença de vários “olheiros” na comunidade, que controlam a entrada e a saída do povoado.
Outros traficantes – Já no povoado São Francisco, quem se sobressai no tráfico é um homem conhecido como Agripino. Ele é o chefe de uma família na qual todos vivem do plantio de maconha. A mulher de Agripino é a dona do Dormitório Naiaguara, na rua Brilhante (centro de São João do Caru). Vários moradores do São Francisco já relataram ter sido ameaçados por Agripino.
No povoado Seringal, “Mundico” e seu genro Cláudio são os traficantes que mandam na área. Cláudio já teria assassinado duas pessoas e enterrado os corpos na mata, segundo moradores.
Finalmente, em Cabeça Fria (povoado distante 45 km da sede), Manoel Sérgio é dono das terras onde há dezenas de roças de maconha. Também atua em Cabeça Fria o traficante Rui, de Santa Inês. Tanto Manoel Sérgio como Rui são acobertados por “Caboclo Ferreira” e seus filhos, segundo a polícia.
Sem obter nenhuma resposta do comando do 7o Batalhão de Pindaré Mirim, o 2o sargento Brito apelou para a secretária de Segurança Cidadã, Eurídice Vidigal, à Polícia Federal, à Funai e ao Ministério Público. Ele propõe que uma Força Tarefa seja enviada a São João do Caru para desencadear uma operação que dure não apenas um ou dois dias, mas que se instale em São João durante um certo período, entabulando ações sistemáticas para prender e punir os chefes do tráfico.
Raio-x do Município
São João do Caru (a 357 km de São Luís) virou município em 10 de novembro de 1994, quando o povoado de mesmo nome desmembrou-se de Bom Jardim.
O prefeito da cidade é Edinaldo Prado Nascimento (PDT), o “Edinaldo Davi”. A Câmara Municipal tem 9 vereadores.
O município abriga uma população de 12.281 habitantes (Censo 2007).
O IDH de São João do Caru é 0,515 (13ª cidade mais pobre do Maranhão). O Índice de Exclusão Social atinge 64% da população (quase 8 mil pessoas).
A expectativa de vida em São João do Caru é de 60 anos; a renda per capita é de R$ 52.
O município situa-se no Vale do Pindaré (oeste do estado), fazendo divisa com a Reserva Biológica do Gurupi (Centro Novo do Maranhão).
Coleta de lixo: 11% (só na área urbana, na rural, não há); esgotamento sanitário: 10% (só na área urbana; na rural, não há).
A taxa de analfabetismo do município é de 53% (15 anos ou mais).
Mortalidade infantil: em cada grupo de mil crianças nascidas em São João do Caru, 28 morrem antes de completar um ano de idade.
O risco nutricional em crianças de 6 meses a 6 anos em São João do Caru é de 26% (no Maranhão é de 16%; no Brasil, de 13%).
A Prefeitura de São João do Caru recebeu este ano (até outubro) do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) R$ 3.802.065,15. Do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), entraram nos cofres da Prefeitura, este ano (até outubro), R$ 4.365.635,30. Do Fundef: R$ 133.183,93 (janeiro).
Fontes: Pnud; IBGE; Ministério da Saúde; Tesouro Nacional