Paulo Melo Sousa
Rádio Timbira
O diretor da Rádio Timbira é, sobretudo, um otimista. Acredita no futuro da emissora e tem investido na idéia do crescimento desse meio de comunicação com entusiasmo, apostando todas as fichas no sucesso da rádio quando afirma que já tirou até dinheiro do bolso para garantir as mínimas condições de funcionamento desse verdadeiro patrimônio maranhense
O radialista Gilberto Lima assumiu o comando da Rádio Timbira em abril deste ano, a convite do governador Jackson Lago, que teve a feliz idéia de tentar ressuscitar esse essencial meio de comunicação de massa, verdadeiro patrimônio cultural maranhense. Apesar das boas intenções do governo, a Rádio Timbira funciona precariamente, e está à espera de repasses de recursos que possam de fato torná-la uma rádio viável, contribuindo de forma efetiva para o desenvolvimento da comunicação em todo o Estado. No momento, a Timbira atinge apenas 40% do território maranhense. Apesar das dificuldades, já começa a dar bons frutos, não somente devido à musculatura da sua grade de programação, mas, sobretudo devido à entusiasmada participação dos ouvintes. Na entrevista abaixo, conheça um pouco mais a respeito da história e da luta da Rádio Timbira.

Paulo Melo Sousa - Gilberto, fale um pouco acerca da trajetória da Rádio Timbira do Maranhão.
Gilberto Lima - A rádio foi fundada no dia 14 de agosto de 1941, sendo a primeira emissora de radiodifusão do Maranhão; começou com o nome de PRJ9, depois se chamou Difusora, adotando o nome de Rádio Timbira quando passou a ser comandada pelos Diários Associados, pois era comum que as rádios fossem batizadas com os nomes das tribos indígenas mais representativas de cada Estado, uma forma de homenagem prestada por esse grupo de comunicação. Por aqui passaram grandes nomes da cultura do Maranhão, tais como o poeta Ferreira Gullar, que sempre faz questão de se referir à época em que ele foi locutor na Rádio Timbira. A emissora teve grandes momentos, mas também teve passagens difíceis, chegou a ficar 5 (cinco) anos fora do ar, ainda sob o comando dos Diários Associados, sendo resgatada no governo Newton Belo, que voltou a dar força à rádio...
PMS - Afinal, porque a rádio deixou de funcionar?
GL - O pior momento da Timbira aconteceu em 1995, o que causou a sua decadência, quando ela foi extinta como empresa pública pela então governadora Roseana Sarney, e transformada num Departamento da Secretaria de Comunicação. O objetivo do governo naquele momento era simplesmente se desfazer desse canal de radiocomunicação. Só não foi possível passar à frente esse canal, pois o mesmo é uma concessão federal, e o Estado não pode repassá-lo a particulares. A rádio entrou então numa fase de decadência, e naquele momento ela perdeu sua personalidade jurídica como empresa pública, passando a depender única e exclusivamente do governo.
PMS - Em que situação você recebeu a Timbira?
GL - Quando eu assumi, ela estava jogada às moscas, em cubículos localizados na Central de Abastecimento do Maranhão – CEASA, com um banheiro sem as mínimas condições de uso. Dessa forma, a primeira medida que tomamos foi providenciar o retorno da rádio para o Bairro de Fátima, pois ali os transmissores foram instalados em 1965, de tal forma que a comunidade possui uma identidade muito grande com a rádio. Além disso, em 1980 o governo implantou no mesmo local a nova estrutura da Timbira. Como parte do prédio se encontrava ocioso, em razão da extinção da Comissão Central de Licitação – CCL, nós resolvemos ocupar algumas salas do espaço com a rádio. O retorno foi comemorado com muita festa pela comunidade, houve uma comoção muito grande junto aos moradores, com muito foguetório. Essa também é uma forma de valorizar o próprio Bairro de Fátima, que sempre esteve um tanto quanto discriminado em termos de políticas públicas, e promover o retorno da Timbira para o bairro significa voltar a valorizar a comunidade.
PMS - Como se encontra a situação da rádio, atualmente, em termos de recursos?
GL - Estamos enfrentando alguns problemas, exatamente por conta de a rádio não ter sido transformada novamente em empresa pública, o que é ideal para ela volte a funcionar a contento. Fizemos um projeto ainda no mês de janeiro deste ano, quando o Dr. Jackson nos convidou para assumir a Timbira, no qual pretendemos que ela volte a ser uma autarquia. O advogado Josemar Pinheiro formatou o projeto, que chegou a receber um parecer favorável do Procurador Geral do Estado, Dr. José Cláudio Pavão, bastando apenas que o governo encaminhasse o projeto para a Assembléia, restituindo a Timbira como empresa pública. No entanto, resolveram deixar a rádio como Departamento da Secretaria de Comunicação do Estado, de tal forma que, hoje, nós nos encontramos engessados devido à falta de autonomia financeira. Nós não temos Departamento Comercial, não podemos vender comerciais, não podemos arrendar horários, ou seja, a rádio depende única e exclusivamente da Secretaria de Comunicação.
PMS - Mas, não há repasse de verba para a rádio funcionar?
GL - Desde quando eu assumi a direção da Timbira, em janeiro deste ano, nós não tivemos nenhum repasse de recursos da Secretaria de Comunicação para a rádio. Então, a responsabilidade pela manutenção da Timbira é da Secretaria de Comunicação. Recentemente, há cerca de 20 (vinte) dias nós tivemos uma audiência com o governador Jackson Lago, e ele determinou que o Secretário de Comunicação desse todas as condições para que a rádio possa funcionar plenamente, só que até agora não tivemos nenhum pleito atendido. Estamos aqui tirando do próprio bolso para manter as mínimas condições básicas de funcionamento da emissora. Mas, nós acreditamos que dentro de um curto espaço de tempo o governo volte a dar autonomia à rádio Timbira. Na conversa com o governador, eu expliquei para ele as razões para que a rádio volte a ter autonomia financeira, para que caminhe com as próprias pernas. Isso não quer dizer que o governo não vá bancar a rádio. Deve fechar um contrato de publicidade como faz com qualquer emissora para manter o custeio, mantendo a folha de pagamento com os cargos em comissão.
PMS - Em que patamares estão os custos da Timbira, atualmente?
GL - Por meio de um levantamento que nós realizamos, o custo da rádio está em torno de 40 mil reais ao mês, incluindo folha de pagamento e custeio. Trata-se de um valor ínfimo se nós levarmos em conta o retorno que a rádio proporciona ao governo. Mas, nós sentimos que existe uma determinação muito grande do governador em proporcionar a estruturação plena da Timbira. Com muito esforço, nós já tivemos alguns projetos aprovados pelo governador, como é o caso do projeto de aquisição de novos equipamentos para a montagem de um estúdio moderno, e outro para a aquisição de um novo transmissor. O Dr. Jackson Lago já autorizou o Secretário de Comunicação para que disponibilizasse 350 mil reais para o orçamento do próximo ano, de tal forma que, a partir do mês de janeiro tais equipamentos possam ser adquiridos.
PMS - Você falou do retorno que a rádio pode fornecer ao governo. Isso não possui um já conhecido ranço ideológico, o que restringe a liberdade de expressão?
GL - Na verdade, todo meio de comunicação possui uma linha editorial; quando falamos da necessidade de o governo manter a rádio, é importante dizer que ela é uma emissora oficial, subordinada ao Estado. Mesmo sendo uma emissora que divulga as ações do governo, ela também permite o contraditório. Muitas das vezes quando emitimos uma opinião favorável ao governo, recebemos ligações contestando o governo, e garantimos o direito à liberdade de expressão. Não há determinação para coibir as críticas ao governo, portanto.
PMS - Fale um pouco sobre o alcance da rádio!
GL - Nós temos outro projeto importante e que diz respeito à mudança dos transmissores, da área do Maracanã para o Sítio Santa Eulália. Nós apresentamos ainda um problema de sinal, apesar de estarmos operando com 8 kw, com a rádio chegando muito bem aos municípios da Baixada Maranhense, à região do Munim e até à região do Pindaré. Aqui em São Luís ainda temos problemas com a sintonia, por conta de os radiais estarem enterrados num terreno pedregoso, o que dificulta a propagação das ondas. Trazendo os transmissores para o Santa Eulália, que é uma área propícia em relação à umidade, próxima a espelho d’água, poderemos ter uma melhor propagação. Esse projeto do novo parque dos transmissores já está nas mãos da Secretária Telma Pinheiro, da Secretaria de Cidades e Infra-Estrutura, que já autorizou a realização de orçamento, faltando apenas a licitação para a contratação da empresa que irá construir essa estrutura. Então, todos os projetos da Timbira estão encaminhados, já foram aprovados pelo governador, e muitos deles serão executados no próximo ano. Enfrentamos esse problema inicial, por conta de a rádio não ter autonomia, e por falta de repasse de verbas. Temos algumas pessoas trabalhando sem contrato, pois não temos cargos suficientes. Solicitamos 20 (vinte) cargos para que a emissora funcionasse plenamente, mas só nos disponibilizaram 9 (nove) cargos até agora. Eu acredito plenamente na determinação do governador, que demonstra um carinho enorme pela rádio Timbira, e agora só aguardamos um sinal verde do Secretário de Comunicação para que as coisas comecem a fluir da maneira desejável.
PMS - Fale um pouco sobre a grade de programação da emissora!
GL - Apesar de todas as dificuldades, nós já conseguimos avançar muito ao longo deste ano. O forte da rádio Timbira, atualmente, é a programação jornalística, com mais de 50% da programação voltada para a prestação de serviços. Temos os exemplos dos programas Comando da Manhã, que vai das 7h30 às 11h, com uma média de 30 telefonemas a cada programa, o que demonstra boa audiência. Muitos ouvintes, às vezes, só ligam para dizer que o som da rádio está muito bom na região da Baixada. Muitos programas, como o Comando da Noite, apresentado das 22h às 24h, também tem registrado um grande índice de audiência. Estamos formatando um programa chamado Plantão da Tarde, que estará no ar das 14h às 17h, e ainda na área do entretenimento nós temos o Chico Poeta com o programa Interagindo, das 17h às 18h. No final de semana, estamos reservando o espaço para as entidades, com programas voltados para as áreas da educação, da juventude, dentre outros temas de igual interesse. Nós temos o Josemar Pinheiro com o programa O Fórum do Povo, das 16h às 17h30, aos sábados, um programa de prestação de serviços, de orientação para a população na área jurídica. Teremos um Jornal do Produtor e o Joel Jacintho já estreou no sábado seu programa, Maranhão Cultural, com uma grande audiência, de tal forma que nós temos, hoje, uma programação bastante diversificada.
PMS - Gilberto, quais as reais perspectivas para o futuro da Rádio Timbira?
GL - As perspectivas são otimistas, todos os projetos já estão encaminhados, com recursos já sinalizados pelo governador. Iremos enfrentar alguns problemas até lá, mas estamos enfrentando os problemas de cabeça erguida, a nossa equipe está trabalhando de forma coesa e só estamos aguardando a liberação de recursos para que a Timbira comece de fato a funcionar plenamente.
PMS - Existe uma movimentação séria por parte de ouvintes de rádio AM, e que resultou na criação da SOMAR – Sociedade dos Ouvintes de Rádio AM. Existe espaço para um programa formatado por esse segmento da sociedade, o que seria emblemático e talvez até pioneiro em termos de Brasil?
GL - A SOMAR é comandada pelo companheiro João Carlos, um entusiasta da rádio Timbira. Havendo um grupo que ouve rádio e que realiza uma filtragem crítica da programação, isso ajuda a enriquecer o debate em torno do tema. Os ouvintes são a nossa razão de ser, uma verdadeira tribuna da população. Nós temos interesse e espaço na programação para receber a contribuição da entidade. Deveremos definir o formato do programa, ver quem vai apresentá-lo, pois temos o cuidado de priorizar a apresentação por profissionais da comunicação, e então tal programa será um canal aberto para os ouvintes de rádio AM. Acho que é uma coisa inédita no rádio do Maranhão, e o espaço está aberto para a entidade. A política da Timbira é inclusiva e pretende atender de forma justa às principais demandas da sociedade maranhense.