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Data de Publicação: 9 de novembro de 2007
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Girassóis da Mãe Rússia

Herbert de Jesus Santos*

(Fantasmas na apreciação de certame literário, em São Luís. Gênios de Tolstoi e Dostoievski com “Se queres ser universal, cultiva a tua aldeia”! e “Pinta tua aldeia e serás eterno”! Carta a Stalingrado e Telegrama de Moscou, do poeta maior)

Com a minha insônia nesse Dia de Finados, raciocinei sobre o que se passaria na cachola de um general de pijama, ouvindo “Morrer pela pátria/e viver sem razão”!, do compositor Geraldo Vandré, que foi audacioso ainda em pensar na flor vencendo o canhão e tanta plantação com o povo em fome e miséria. Não seria contra-senso só mesmo para quem censurou Carta ao Presidente, de Chico Buarque, e não rejeitou Apesar de Você, a mesma obra-prima musical, sem esquecer uma vírgula – talvez com o regime de exceção e obscurantismo oferecendo de lambuja a sensatez por haver proibido a audição nacional do bolero Tortura de Amor, de Waldik Soriano, como se não tivesse nada com o peixe de exagerar na repressão até de fantasma de subversão contra o sangrento período de chumbo.

Com a vista no tempo, caindo a madrugada, alcancei a percepção de que, por força de expressão, uma novela minha, submetida à apreciação de comissão de concurso literário, foi censurada pela mera coincidência de uma personagem ser homossexual quanto o pretensioso censor. Ali, então, a ficção não podia ter concorrência com a realidade e bateu a passarinha do jurado do certame, que, por si, julgou os outros similares. Nesse lugar, dando uma banana para a obra, criticou o ousado (eu) que evidenciou a insistência da criatura em ser possuído por um colega de universidade, ou, talvez, por eu citar que um presunçoso ator, que nem era teatrólogo, alvoroçara São Luís por manter um “bofe” sob seu telhado de vidro, longe de ser, aliás, quanto o parceiro do julgador, do celebrizado filme Gata em Teto de Zinco Quente. Peguei o rato com a boca na botija por ser minha conhecida de antigos carnavais sua letra com que depreciava minha construção fictícia, em que eu não fazia encenação nem número. Em sua próxima encarnação, pode fazer um obséquio à literatura maranhense sendo assento para namorados da Praça Gonçalves Dias.

Cheguei ao tirocínio de que mais desastroso que o supracitado foi um tal que, para o meu livro de contos, na mesma disputa intelectual, achou que o cartório de Eloy Coelho Neto não tirava registro de nascimento, só para desabonar, certamente, a conduta de pessoas do meretrício que foram ali providenciar o documento. O infeliz não manjou que, por isso, que o troço lido era conto, sem a concepção ficcional sujeitada a seguir à risca o cartório, sem leitura com suficiência de que um cérebro mais buliçoso, qual o de um de Andrade (Mário ou Oswald), suavizou a saborosa aproximação do conto com a crônica, sentenciando que “Conto é tudo o que se escreve e se diz que é conto”! Desse jeito o meu livro, nesse gênero, também não iria longe. Outro, quando menos, para o mesmo título, amaciou com a referência de que seria antologia de contos russos, sem clarear neres de neres que bicho era isso pelo sete que recebi e não ter o texto logrado aprovação.

Nas adjacências do amanhecer, reconheço quem nos dera um antológico escritor russo, de uma das literaturas de mais pujança no Mundo. Não é para qualquer bico Dostoievski, a pena de romances da alteza de Crime e Castigo, Os Irmãos Karamazov, etc., e Tolstoi, de Guerra e Paz, Ana Karenina, etc. Todo Globo sabe que eles alicerçaram o sentimento de Mãe Rússia, a pátria acima de religião, com que seus compatrícios salvaram a terra encharcada de sangue e cadáveres contra a invasão de Napoleão, no início dos Oitocentos, e de Hitler, na 2.ª Grande Guerra. Esta foi poetizada, genialmente, por Carlos Drummond de Andrade, em Carta a Stalingrado: “O poema fugiu dos livros, agora está nos jornais (...)/Os telegramas cantam um mundo novo,/ que nós, na escuridão, ignorávamos. /Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,/na paz das tuas ruas mortas, mas não conformadas,/ no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,/na tua fria vontade de resistir./Stalingrado, miserável monte de escombros,/entretanto resplandecente! As belas cidades do Mundo contemplam-te em pasmo e silêncio”. O poeta maior fecha com ouro a missiva, que merecia um Nobel: “Saber que vigias, Stalingrado,/dá um enorme alento à alma desesperada, e ao coração que duvida”! Em Telegrama de Moscou, o guizo benfazejo de mais esperança: “Não há mais livros para ler (...)/todos morreram!/(...) Os últimos defendem pedaços negros de parede./ Mas a vida em ti é prodigiosa/ e pulula como insetos ao Sol, minha louca Stalingrado/! Pedra por pedra reconstruiremos a cidade./Casa em casa se cobrirá o chão/(...) Outros homens, em outras casas, continuarão a mesma certeza/.Aqui se chama/ e se chamará sempre Stalingrado./Stalingrado: o tempo responde.”

Amanheceu completamente. Sugeri-me que prefiro “Quem canta sua aldeia, canta o universo”!, como Tolstoi se universalizou em sua Iasnaia Poliana, a entregar o ouro para os bandoleiros indígenas e intrusos. Quem mora na aldeia, conhece os caboclos e cara de tambor que amanhece! Tambor pequeno, quando fala, no Maranhão, é porque o grande já falou! Na ressurreição, se eu não for melhor do que sou, quero-me qualquer um dos três instrumentos de percussão do nosso tambor-de-crioula, abençoado por São Benedito e já respeitado Patrimônio Imaterial do Brasil. O meu permanecerá em riste para a mais bela e gostosa coreira da roda da punga, para ela gozar comigo tudo de direito. Não vou sentir-me rebaixado, ficando no lugar de personagem fictícia analisada em concurso literário. A vida é mesmo assim, no lé com lé, cré com cré! Vivam nós!

(*)Jornalista, poeta e do IHGM.

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