* Rosemary Rêgo
A poesia é algo sério que fica difícil conceituá-la, só que poucos têm noção dessa verdade. É estarrecedora a confusão que é feita em torno da poesia. Em cada eliminatória do Festival de Poesia do Maranhão é notória essa problemática.
O objetivo de um festival é a revelação de novos talentos. O Festival de Poesia do Maranhão, que antes era conhecido como Festival de Poesia Falada, foi gerado no seio da universidade e revelou nomes como: Paulo Melo Souza, Lenita de Sá, Celso Borges, Fernando Abreu, Antonio Rezende, Hagamenon de Jesus, Antonio Aílton, Bioque Mesito, Dyl Pires dentre outros.
Assistir às eliminatórias desse festival, se constitui hoje um desprazer pela péssima qualidade dos textos e a falta de respeito com a literatura de um estado que foi berço de Gonçalves Dias, Catulo da Paixão Cearense, Ferreira Gullar, etc...
Por ter saído de uma universidade, este festival já deveria ter alcançado um nível mais elevado, isso se seus organizadores entendessem que fazer poesia é algo de inteira responsabilidade e dispensa pieguices.
Lembrando a célebre frase do poeta Carlos Drumond de Andrade: “Não se preocupe em lançar livros, penetre profundamente no reino das palavras, pois lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Através dessa frase quero chamar a atenção dos finalistas do festival, que se realmente a poesia for uma meta a seguir, o caminho do estudo e da leitura são fundamentais para que não saiam por aí confundindo poesia com cartinhas de amor.
O poeta Patativa do Assaré, nunca foi à escola, não sabia ler e escrever, mas conseguiu através de sua simplicidade produzir uma poética que transcendesse. Patativa se constituiu um fenômeno da literatura nacional. Isso prova que a questão do ser poeta é imanente. O poeta Rimbaud com quinze anos escreveu o grande poema de sua trajetória literária.
Para se ter uma idéia, ano passado em uma das eliminatórias, teve poema que foi recitado ao som da banda Calypso, isso nos mostra o estágio de decadência que chegou esse que deveria ser uma referência em termos de descoberta de novos talentos.
É prudente que os organizadores entendam que é inadmissível levar todos os anos tanto besteirol para o palco do teatro. No encerramento da primeira feira do livro de São Luís, encontrei uma amiga que me relatou que no dia anterior esteve presente na apresentação dos finalistas (na feira do livro) e constatou o grande absurdo que se tornou esse festival. Essa pessoa não tem a menor experiência com literatura, mas saiu dali sentindo a imensa necessidade de encontrar alguém que lhe explicasse o que é realmente poesia. Pois, o que ela assistiu naquela noite foi um show de palhaçada diante de uma arte bastante complexa de se produzir. São tantas eliminatórias para absolutamente nada.
Se observa a cada ano que a maioria dos poemas inscritos estão no nível das letras do estilo musical brega que invadem nossos ouvidos a todo instante. Isso prova a falta de leitura dos pretensos candidatos a “poetas”.
Para que esse festival continue acontecendo é necessário que mude, afinal, ele não foi criado numa esquina, mas sim dentro de uma universidade. Termino com as palavras do poeta Nauro Machado “Ser poeta é duro e dura e consome toda uma existência”.
Professora, poeta, autora do livro ‘O Ergástulo Gozo da Palavra. Membro do grupo Poiesis, formada em letras e premiada em terceiro lugar no antigo Festival de Poesia Falada em 1997.