Responsabilidade social
Alunos, ex-alunos e pro-fessores do colégio San-ta Teresa vivenciaram por três dias, em tempo integral, a realidade de oito comunidades de Paço do Lumiar através do Projeto Frassinetti. O projeto de responsabilidade social acontece todos os anos e propõe aos voluntários do colégio que trabalhem durante três anos para uma mesma comunidade. Isso inclui dormir no local, para maior percepção das necessidades das famílias. O projeto oferece atividades de evangelização, educação, saúde e lazer.
Segundo um dos coordenadores do Frassinetti, João Damiani, o propósito do projeto não é somente assistencialista, é promover uma troca de experiências entre pessoas que vivem em realidades diferentes. “Fazemos, sim, atendimento médico, odontológico, mas cada pessoa que atendemos é tratada como pessoa digna, única, amada”, disse Damiani, que desde o início do ano está envolvido no projeto, em parceria com as lideranças comunitárias, como as pastorais da igreja católica e associações de moradores. “Fizemos um levantamos das maiores carências deles, com foco na evangelização”, explica.
A abertura do projeto foi uma caminhada orante, partindo da comunidade Nova Vida, como uma forma de apresentação às famílias, levando mensagens de conforto espiritual. Foi o primeiro impacto para os alunos que tiveram que andar cerca de duas horas por ruas sem asfalto, esburacadas e com pouca iluminação. “A dificuldade de andar foi um grande aprendizado para os alunos, pois a maioria dispõe de carro para fazer suas atividades diárias. É a experiência de ver a vida sob o ponto de vista do ser e não do ter as coisas, a verdadeira experiência do ser missionário , ressalta João Damiani.
A proposta de despertar os adolescentes para a responsabilidade social deu certo para a aluna Thaísa Rabelo, 17 anos. Pela primeira vez ela participou do projeto e garante que não vai mais parar, mesmo quando sair do Santa Teresa. “Nós andamos durante duas horas no primeiro dia, dormimos tarde esperando na fila para tomar banho, acordamos cedo e passamos o dia inteiro ajudando os que precisavam. Fiquei muito cansada mas me senti muito bem fazendo alguma coisa para transformar a situação dessas pessoas. Com certeza continuarei no projeto”, disse ela, enquanto coordenava a fila de atendimento médico.
Muitos jovens continuam a trabalhar como voluntários mesmo quando entram na faculdade. Jaeanna Reggiani, por exemplo, estudou três anos no Santa Teresa e nos três participou do projeto. Este ano foi como ex-aluna, pois já está fazendo o curso de Educação Artística na Universidade Federal do Maranhão. Nos anos anteriores ela acompanhou as ações do Frassinetti na Raposa, no povoado Pirâmide, e ainda lembra dos nomes de algumas crianças da comunidade. “A gente cria um vínculo forte com as comunidades, pois passa três anos em cada uma. É pouco o que a gente faz, diante de tanta dificuldade deles. Na verdade, acho que ganha mais é a gente, por sair do nosso mundo e aprender a compartilhar”, disse ela.





Tarefas - Para realizarem as tarefas os grupos dividiram-se e partiram para as comunidades Nova Vida, Novo Horizonte, Habitar, Zumbi dos Palmares, Abdala 1, Abdala 2, Vila Cafeteira e Roseana. Na comunidade Zumbi dos Palmares, o grupo conheceu a creche mantida pela Prefeitura de Paço do Lumiar, onde são assistidas cerca de cem crianças entre 4 a 6 anos de idade. As crianças recebem aula e merenda, mas nos dias do Frassinetti receberam reforço na educação, com as histórias da professora Silvana Gusmão e da coordenadora pedagógica, Rogener Almeida, ambas do Santa Teresa. “No início, percebemos a agitação das crianças, o que é natural quando se recebe o novo, mas depois elas se envolveram no lúdico das histórias infantis, respondendo às perguntas da professora, o que mostra que quando a imaginação da criança é provocada, a resposta é sempre positiva”, avalia a coordenadora.
A comunidade Zumbi dos Palmares tem 196 casas e surgiu de uma ocupação. A idéia do grupo era formar um quilombo, onde todos os moradores fossem negros. A idéia não foi avante, mas a homenagem aos negros é percebida nas ruas que levam nomes de negros que defenderam a igualdade racial. Uma das coordenadoras da creche, por exemplo, a professora Vânia Abreu, mora na rua Nelson Mandela.
Na área médica, foram feitos atendimentos de clínica geral, pediatria, ginecologia, além de escovação dentária e aplicação de flúor. A dona de casa Ana Célia Magalhães levou os dois filhos, de 7 e 12 anos de idade, para consultar a clínica geral. Segundo a mãe, as crianças não queriam comer. A enfermeira-chefe do Hospital Guilherme Macieira, Idiana Pereira, não teve dúvidas depois da consulta. As crianças estavam com verminose. “80% das crianças atendidas aqui estão com verme”, observou a enfermeira, que orientava às mães para os sintomas: palidez, enjôo, falta de apetite e emagrecimento. “Foi muito bom esse atendimento perto de casa, porque as consultas são feitas só no Maiobão. Ou andamos uma hora a pé ou pagamos a van, e não temos condição”, disse a mãe Ana Célia. Ela recebeu gratuitamente os remédios. O projeto continuará em 2008 e 2009 nas mesmas comunidades.
Quem foi Paula Frassinetti - No século 19, Paula Frassinetti, moradora nos arredores de Gênova, Itália, sentiu-se impelida a fazer algo para mudar a realidade das crianças e dos pobres que viviam em situação de exclusão material e cultural. Aliou-se a outras jovens e assumiram o compromisso de transformar a realidade evangelizando pela Educação. Surgia a Congregação de Santa Dorotéia.
Em 1894, o Maranhão, através do Asilo de Recolhimento Santa Teresa, recebeu as Irmãs Dorotéias vindas das terras italianas com seus sonhos e propósitos idealizados com Santa Paula Frassinetti. Iniciou-se, então, a proposta educacional do Colégio Santa Teresa, seguindo a filosofia defendida por Paula Frassinetti: educar as crianças e jovens pela “via do coração e do amor” e orientá-los pela vontade de Deus. Ao longo dos anos a concepção educativa foi sendo atualizada pelas teorias educativas cujos princípios são condizentes com as intuições de Santa Paula e com os valores cristãos. Assim a prática recebeu os reforços teóricos de Paulo Freire, Piaget, Vigostky, Freinet e outros que referendam a concepção de educação como um processo de formação integral do sujeito e de aprendizagem como espaço de interações múltiplas.