Arleth Borges
Escrevo sobre a UFMA com freqüência acima da média, por razões especiais: sou uma entusiasta da universidade pública, penso que ela tem a cumprir um papel social muito importante e, efetivamente, sempre se destacou no ensino de qualidade e na produção científica do país, embora represente hoje apenas uns 20% das instituições de ensino superior. Outra razão é que, por essa importância, as universidades, principalmente as públicas, não podem fechar-se em torno de si mesmas, têm que ser objeto do debate público, do acompanhamento e controle social.
Na UFMA, dois fatos recentes têm me chamado a atenção. Um, é a decisão do reitor, recém eleito, sob o compromisso de uma “gestão democrática e transparente” e “choque de gestão”, de guindar para uma pró-reitoria que representa o coração desta universidade, um docente do ensino fundamental e médio, recém chegado à UFMA na condição de professor visitante, conforme consta em seu currículo lattes. Isto soa incoerente, no mínimo, com as declarações do reitor, quando ainda era candidato, afirmando que o próximo gestor tem que ter um perfil acadêmico, precisa conhecer a universidade, mas precisa também ter um conhecimento da parte administrativa e da parte de gestão. Nenhum gestor de uma instituição pública ou privada pode se eximir dessa experiência para colocar a universidade nos trilhos (Jornal O Estado do Maranhão 1°/06/2007, p.9). É certo que àquela época o candidato a reitor falava do seu próprio perfil, mas não seria, nem é, razoável que, uma vez eleito, escolhesse para conduzir com ele a prometida “gestão compartilhada” profissionais que destoassem desse padrão. E no entanto, um de seus pró-reitores não poderá dizer que conhece a UFMA, pois embora tenha sido aluno desta instituição nos anos 70, mudou de estado, trabalhou fora por muitos anos, como professor e consultor técnico do ensino fundamental e médio, sendo a sua experiência no ensino superior restrita ao ensino de duas disciplinas, em uma universidade privada durante um ano. Retornou agora à UFMA, “cedido em regime de cooperação técnica”, na condição de pró-reitor. Seria essa a tradução do prometido “choque de gestão”?
É verdade a possibilidade de contratação de profissionais para atuarem em regime de cooperação técnica é legal e, em muitos casos, proveitosa e desejável, mas, por que um professor do ensino médio e fundamental? E, sendo de fora, é razoável lotá-lo em um cargo que exige profundo e refinado conhecimento da realidade da UFMA e do ensino superior do país, especialmente neste momento de atribuladas modificações dos modelos acadêmicos e pedagógicos? Realmente não estou entendendo e diante disso, resta a amarga sensação, de que gestores continuam sendo escolhidos por critérios estranhos à formação ou experiência profissional e às necessidades do cargo. Espero que haja outras e boas razões para a decisão do reitor, e que ele as apresente à comunidade universitária, coerentemente com a “democratização da informação”, explicitada em sua proposta de gestão.
Mas nem só de opacidade vive a UFMA, então, vamos ao luminoso êxito do VII Encontro Humanístico, que iniciou na segunda-feira e estende-e até hoje sendo recepcionado como o maior evento científico do Maranhão. O Encontro é coordenado pelo Núcleo de Humanidades e, nesta sua sétima versão, conta com 1600 inscritos, 21 mini-cursos, 411 comunicações orais, 07 oficinas, 40 mesas redondas, 04 conferências, 87 painéis e rica programação cultural. Muitas coisas boas podem ser ditas deste evento. A primeira é que é uma proeza garantir essa agenda durante oito anos e cumpri-la numa direção de crescimento quantitativo e qualitativo; que o evento estimula o debate e possibilita a divulgação de trabalhos científicos de alunos e professores da UFMA, UEMA e outras IES locais; incentiva o diálogo multidisciplinar, de temas clássicos e contemporâneos das ciências humanas e da sociedade de modo geral; reúne graduação e pós-graduação; promove o diálogo com intelectuais de outros estados e universitários do interior do Maranhão. Por tudo isso, o Encontro Humanístico é uma contribuição inestimável ao desenvolvimento das ciências humanas na UFMA e no estado, que florescem, apesar do tratamento diferenciado e às vezes discriminatório, por parte dos órgãos de fomento científico e tecnológico.
Desde que foi criado, em 1999, o Encontro Humanístico passou de 52 trabalhos inscritos para 412 em 2006 e 600 em 2007. A publicação dos anais ocorre desde 2002 e o número de participantes saltou de menos de 200 para 1600. É certo que os números falam de quantidade, mas a qualidade também se faz presente nos níveis crescentes de engajamento e no amadurecimento conferido pela experiência continuada e bem cuidada. Trata-se de uma produção coletiva, fruto do trabalho árduo e generoso de muitos professores, alunos e técnicos, a todos os quais presto minha homenagem nas pessoas do prof. Claudio Zannoni, do Núcleo de Humanidades, prof. Lyndon Araújo, diretor do CCH e profa. Sílvia Duailibe, ex-diretora do CCH. Belo trabalho, parabéns!
Arleth Santos Borges é Doutora em Ciência Política, professora de Sociologia e Antropologia da Ufma e escreve para o Jornal Pequeno quinzenalmente (sextas-feiras).