Um dia na vida de Róbson Ribamar
Estudante e lavrador, ele dorme menos de 4 horas por noite e caminha 20 km todo dia
Quando cheguei na casa em que Róbson Ribamar Saminez Sousa, de 19 anos, mora com a avó, ele já estava à espera dos outros lavradores do povoado, com quem havia combinado, no dia anterior, “abrir um pico” – ou seja, realizar uma derrubada de mata. Eram 5h40 mais ou menos, mas o jovem estava esperto e falante. Nem parecia que na noite anterior havia dormido menos de 4 horas.
Róbson dormiu pouco não porque estivesse em alguma “balada”, coisa que hoje é normal entre jovens como ele. As poucas horas de sono são parte da rotina inacreditável do rapaz: acordar às 5h30, tomar café, caminhar uns 4 km (40 minutos) para chegar ao seu roçado de mandioca, trabalhar até meio-dia, caminhar mais 4 km na volta para casa, almoçar, descansar por cerca de uma hora (até as 14h30), sair para a escola (no centro de Cachoeira Grande), caminhar 6 km até o povoado São Domingos (onde passa o ônibus da Prefeitura que leva os estudantes), entrar em sala de aula às 18h30 e ficar lá até 23h, regressar a Cabeça d’Anta fazendo a mesma via crúcis. No total, Róbson caminha 20 km por dia.
“É duro. Tem noite na escola que o sono bate, mas eu firmo a idéia e consigo manter a concentração. A gente não consegue nada sem estudo”, contou Róbson, que cursa a 8ª série na Escola Santo Antônio.
A reportagem do JP Realidade acompanhou Róbson na sua sacrificante labuta cotidiana, num dia em que os lavradores não realizariam trabalhos individuais, em suas plantações de mandioca, e sim demarcariam os limites do povoado Cabeça d’Anta e limpariam o terreno, abrindo um “pico” de quase um quilômetro na mata fechada.
De acordo com José Romeu Alves, o “Zé Romeiro”, 54, a tarefa (demarcação e limpeza da área) é uma pré-condição do Instituto de Terras do Maranhão (Iterma) para que projetos de geração de renda cheguem ao povoado.
O problema é que, como é sempre previsível em questões de limites, nem sempre os vizinhos estão de acordo com os marcos estabelecidos. No caso de Cabeça d’Anta, a discórdia quase resultou em conflito com o vizinho povoado Jurubeba.



A reportagem presenciou uma tensa reunião, no meio da mata, entre os grupos de agricultores – cerca de 20 homens de foice e facão na mão – dos dois povoados. Por sorte, o bom-senso prevaleceu e os líderes dos dois lados, Zé Romeiro e Gentil, chegaram a um acordo que pareceu bom a ambas as partes. Um foguete (rojão) foi solto por Zé Romeiro para que os moradores de Cabeça d’Anta, longe dali, ficassem sabendo onde era a divisa do povoado.
Firmado o entendimento, partimos para abrir a mata. Róbson, assim como todos nós, não conseguia caminhar sem tropeçar nos tocos deixados pela vegetação cortada. Os marimbondos e os espinhos – principalmente das folhas de tucum – também são um martírio para os lavradores, assim como a falta de água fresca. Em poucos minutos, o sol inclemente deixa todas as garrafas de água igualmente ferventes.
Ao meio dia, começamos a caminhada de volta ao povoado. Foram quatro sofridos quilômetros. A areia quente, a falta de água, o sol a pino – por vários momentos tive vontade de parar e de me enfiar numa sombrinha, no meio da vegetação e ficar por ali até a atmosfera amainar. Chiquinho me emprestou seu chapéu de palha, estilo “sombrero” mexicano, o que me deu uma reanimada. Em pouco tempo, chegamos a um igarapé e todo mundo foi logo se jogando na água gelada. Minha vontade era fazer o mesmo, mas com receio de um choque térmico, dei um tempo, me molhei aos pouco, bebi três goles de água na palma da mão e só depois entrei no igarapé.
Chegamos ao povoado parecendo um exército de farrapos. Nem fome eu tinha, de tão cansado. Só queria contato com líquidos: até um tal de refrigerante Psiu Cola, estupidamente morno, oferecido por Aparecida, meu estômago aceitou. A verdade é que meus pés estavam em frangalhos, meus sapatos destruídos e eu não queria nem pensar que – para concluir o acompanhamento da rotina de Róbson –, ainda teria de caminhar mais 6 km na areia (de chinelo) para chegar a São Domingos e pegar o ônibus para o centro de Cachoeira Grande.
Um banho no rio Pirangi fez o milagre. Em meia hora, eu já estava pronto para a fase final do “Projeto Cabeça d’Anta”. Botei minha mochila nas costas, me despedi de Chiquinho e Aparecida – campeões em hospitalidade – e “pé na estrada”.
Acompanhando Róbson, um outro estudante e duas senhoras idosas, naquele caminho causticante pensei muito na fragilidade das ganâncias humanas, na crueldade e no orgulho besta dos poderosos. Pensei também no destino daqueles desassistidos, que pode ser mudado, não apenas à custa de sacrifício subumano, como o de Róbson Ribamar, mas por obra de homens públicos com menos vaidade e mais fibra.
(Oswaldo Vivissani)