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VIAGEM À TERRA DOS 'SEM-NADA'
Pobreza absoluta castiga mais de 5 mil em Cachoeira Grande

VIAGEM À TERRA DOS 'SEM-NADA'

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Data de Publicação: 11 de novembro de 2007
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POR OSWALDO VIVIANI

A reportagem do JP Realidade viu de perto a rotina de privações dos moradores de Cabeça d’Anta, um povoado esquecido de Cachoeira Grande

Atravessei o rio Munim, de Presidente Juscelino a Cachoeira Grande, mais ou menos às 11h da manhã de um daqueles dias em que o calor maranhense desestimula qualquer atividade que requeira movimentação muscular. Paguei R$ 1 ao canoeiro Manassés e fui até uma “birosca” instalada ao lado do mercado municipal.

'Chiquinho' e Aparecida trazem do centro de Cachoeira os mantimentos que não encontram em Cabeça d’Anta

Raimunda Nonata, 23 anos, o marido ‘Santo’ e os 5 filhos: primeira gravidez foi aos 14 anos

Sentei, pedi uma água mineral e puxei conversa com gente dos povoados – pessoas que se dirigem à sede pelo menos uma vez por semana para comprar tudo o que necessitam, já que onde vivem o comércio é incipiente, quase inexistente.

Não precisei nem de meia hora de papo com alguns lavradores para descobrir que, se quisesse registrar, verdadeiramente, a realidade social do município, teria de me deslocar – apesar do calor e das dificuldades de acesso – a uma daquelas localidades de nomes esquisitos, que zumbiam no meu ouvido o tempo todo: Buriti da Maria Chica, Já Foi Macaco, Cabeça d’Anta, Jurubeba, Areal dos Chumbados, Queimada da Domingas, Riacho Doce, Campo do Meio, Estiva dos Mamédios.

Por sorte, duas das pessoas com quem conversei no centro de Cachoeira Grande – o casal de agricultores Francisco Gomes dos Santos, o “Chiquinho”, 45 anos, e Aparecida Claudiana Alves de Sousa, 44 – regressariam à tarde a Cabeça d’Anta, o povoado no qual nasceram e foram criados.

Curiosas, as crianças do povoado acompanharam o repórter por toda parte

A escola é num casebre e as aulas noturnas são à luz de lampião

'Chiquinho', Aparecida e as filhas Euzamar, Franciane e Francilene

As poucas casas de farinha do povoado ainda funcionam com a roda manual

No lugar, segundo os lavradores contaram, quase 100 pessoas passavam por privações cotidianas, sem energia elétrica, água encanada, escolas, assistência médica, estradas de acesso. Enfim, sem nada. Nessa mesma situação vivem os moradores de pelo menos metade dos 84 povoados de Cachoeira Grande.

Sem Bolsa Família – Comprei alguns mantimentos (arroz, açúcar, cartela de ovos, óleo, macarrão, biscoitos, manteiga, frango congelado, alho) para Chiquinho e Aparecida levarem para casa. Se eles não levassem os alimentos, teriam de esperar até o final de semana para comprar as coisas na feira do povoado Peroba, que fica perto de Cabeça d’Anta.

O casal contou que, apesar de ter três filhas na escola (Euzamar, 16 anos, Franciane, 11, Francilene, 7) e nenhuma renda fixa, não recebe nada do programa federal Bolsa Família. Tampouco o dinheiro do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), no qual a família está inscrita, resolve alguma coisa, já que só depois de quase um ano do cadastramento Chiquinho e Aparecida foram receber alguma coisa – cerca de R$ 50. Cachoeira Grande está entre os dez municípios maranhenses cujas prefeituras ainda não acessaram, este ano, o sistema para o envio das informações do Bolsa Família.

A quarta filha de Chiquinho e Aparecida, Raimunda Nonata, 23 anos, casada, recebe o Bolsa Família (R$ 94), mas não pode ajudar os pais, já que ela e o companheiro, o lavrador Francisco Saminez de Sousa, o “Santo”, 30 anos, têm de sustentar 5 filhos, das sete gestações que Raimunda teve (dois morreram). A primeira gravidez da jovem foi aos 14 anos. Todos os filhos de Raimunda nasceram em casa, pelas mãos de Rita Gomes dos Santos, 67, parteira da comunidade há 30 anos. Dona Rita é mãe de Chiquinho e mora em Riacho Doce. O parto da própria Raimunda foi feito por dona Rita.

No mesmo dia em que a reportagem do JP Realidade esteve em Cabeça d’Anta, Raimunda havia recebido alta do hospital São Bernardo, de Morros, onde fez uma cirurgia para “ligar” (laqueadura). Ela pôde contar com a ajuda do prefeito do município, Chico Barbosa, que a transportou do hospital para o povoado. Mas nem todos os moradores dos povoados de Cachoeira Grande que necessitam de assistência médica têm a mesma sorte. A maioria tem de ser transportada na rede ou em lombo de animais até a sede e de lá para Presidente Juscelino (onde há um hospital), Morros ou São Luís.

O dono de um carro nos propôs levar até o povoado de São Domingos (a 6 km de Cabeça d’Anta) por R$ 40. O preço era um acinte, mas como já estava ficando tarde (eram 16h30), dividimos as despesas e pegamos a estrada.

Pelo caminho, passamos pelos povoados Pindobal, São José dos Lopes e Buritizal. São lugares bem pobres, mas dotados de uma mínima infra-estrutura, como energia elétrica e abastecimento de água. A “dificulidade”, como diz o caboclo, começou mesmo quando chegamos a São Domingos.

Em lombo de mula – Já estava escurecendo (eram 18h) e o que eu, Chiquinho e Aparecida tínhamos pela frente era uma légua (6 quilômetros) de descidas e “oiteiros” da mais pura e fofa areia das estradinhas e veredas que levam a Cabeça D’Anta. Aqueles caminhos só são vencidos por veículos 4 por 4 e alguns tipos de moto. Ou por animais.

O jeito foi procurar em São Domingos alguém solidário que pudesse nos arrumar um burro, um cavalo ou uma mula para carregar os mantimentos.

Um morador conhecido como “Neguinho” – o barbeiro oficial de São Domingos – emprestou sua mula e até nos acompanhou na caminhada até Cabeça d’Anta. Aparecida ia montada no bicho.

Nem bem vencemos os primeiros 200 metros da estradinha, eu já tive certeza de que a empreitada não ia ser nada fácil. Uma coisa é andar por longos percursos na terra firme. Outra completamente diferente é caminhar na areia fofa misturada com poeira, por caminhos que às vezes se transformam em picadas rudimentares abertas na mata.

A escuridão torna tudo mais complicado: a gente tropeça em coisa que não vê (torcendo para que sejam só pedras e galhos e não animais rastejantes...) e escorrega à toa o tempo todo. Sem contar que é preciso desviar de morcegos salientes, que insistem em dar rasantes perto da nossa cara.

“Sinhô Dotô, sobe na mula”, pedia insistentemente Chiquinho, certo de que eu não agüentaria o tranco nem de 3 quilômetros. Resisti. Meu orgulho cigano falou mais alto: a preferência de uma montaria é sempre das mulheres. Apenas pedi para o grupo parar umas três vezes, para beber um pouco de água e tirar areia dos sapatos. As duas solas estouraram e, conforme eu andava, ia “recolhendo” um mundão de areia, o que deixava cada pé pesando quase um quilo.

Já próximos de Cabeça D’Anta, paramos no povoado Jurubeba. Chiquinho e Aparecida queriam me mostrar onde funcionava a “escola” de lá: num casebre de taipa e palha iluminado por uma simples lamparina a querosene. Naquela noite não haveria aula, porque nenhum aluno havia comparecido. “Em Cabeça d’Anta, a escola também fica num casebre, só que é iluminada por lampião de gás”, contou Aparecida.

Luz, só de lamparina – Chegamos em Cabeça D’Anta às 19h30. O povoado era um breu só. Uns poucos pontos de luz em cada casebre, das lamparinas a querosene, amenizavam as trevas. Neguinho bebeu uma tiquira oferecida por Chiquinho e regressou a São Domingos montado em sua mula.

A casa de Chiquinho logo foi tomada pela molecada do povoado, todos querendo ver o “Dotô”, o “homem da cidade” que veio “filmar” (que é como os moradores chamam fotografar) as pessoas e as coisas de Cabeça d’Anta. Apesar dos meus protestos, a forma de tratamento “Dotô” me perseguiria até a hora de partir, no dia seguinte.

Enquanto Aparecida preparava o jantar – juçara, farinha e um peixe chamado tubi –, fui conhecer o local improvisado como sala de aula em Cabeça d’Anta.

O casebre que virou escola é o lar de José Ribamar Sousa, o “Riba”, 33 anos, Rosimar dos Santos, 31, e dos 6 filhos do casal. No período diurno, 31 alunos de 4 a 16 anos fazem ali o Pré e o Fundamental. À noite, 11 alunos de 23 a 54 anos cursam a Educação de Jovens e Adultos (EJA). “A Prefeitura prometeu pagar o aluguel da casa, pelo menos, mas até agora não recebemos nada”, afirmou Riba.

As aulas de ambas as turmas são ministradas pela professora Marinalda Lopes, que passa a semana toda no povoado (hospedada na casa de Chiquinho e Aparecida) e na sexta-feira volta para sua casa, em Cachoeira Grande, retornando a Cabeça d’Anta na segunda. Salário: R$ 380 mensais mais ajuda de custo de R$ 150.

Segundo Marinalda, as condições precárias do local, além da falta de energia elétrica, limitam bastante o aprendizado, mas a situação já esteve pior: até bem pouco tempo, não havia o lampião a gás nem as carteiras. Os alunos se acomodavam no chão de terra batida mesmo.

Chiquinho, que não sabe ler nem escrever, às vezes freqüenta as aulas, mas não se sente muito estimulado. “Minha cabeça não guarda nada, não”, disse. Aparecida sabe ler e escrever e até já foi professora de um povoado.

Noite sem JN – Comi meu peixe com juçara, “banhei” na base da canequinha e me estiquei na rede. Eram umas 21h. Em Cabeça d’Anta, e certamente nas outras localidades maranhenses que ainda vivem na era das trevas, todos dormem cedo. Com isso, se economiza o querosene das lamparinas, que custa R$ 5 o litro e dura no máximo três dias.

Estranhei um pouco a noite sem Jornal Nacional nem novela nem ventilador. Um reggaezinho saído de um microsystem ligado numa bateria de carro embalou minha noite muito bem-dormida (surpreendentemente sem muriçocas) em Cabeça d’Anta.

Acordei às 5h30 da manhã já sentindo o cheiro revigorante do café que Aparecida passava. Tomei um gole, joguei uma água no rosto e saí para acompanhar os lavradores em seu trabalho no campo. Em especial, estava interessado na rotina de Róbson, um estudante e agricultor de 19 anos que caminha 20 quilômetros por dia e dorme menos de 4 horas por noite para cumprir sua árdua jornada cotidiana, dividida entre a roça e a escola.

(Veja na próxima página)

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