PARAÍSO DOS LATIFÚNDIOS
E alguns deles, quando resolvem cultivar alguma coisa, plantam maconha...
O que mais me impressionou enquanto percorria de carro uma estradinha de terra que leva ao povoado Mucuripe (na divisa de Pedro do Rosário com três municípios: Araguanã, Nova Olinda e Santa Helena) foi a paisagem monótona que se vê quase o tempo todo pela janela, na forma de longas extensões de terras não cultivadas, nas quais, de vez em quando, desponta um rebanho de gado ou caprinos.

O grande latifúndio, sem dúvida, achou seu paraíso no município. Um punhado de fazendeiros – a maioria, gente de fora da cidade, como Raimundo Antonio (de Viana) e Marcos Baiano (de Zé Doca) – tem a posse de milhares de hectares de terra.
Enquanto isso, pequenos lavradores pelejam de sol a sol, tendo de caminhar vários quilômetros até chegar aos seus roçados minúsculos de mandioca, milho, feijão, para obterem apenas o alimento suficiente para que eles próprios e suas famílias sobrevivam mais uma safra.
No caminho para Mucuripe, cruzei com as duas faces dessa realidade social perversa: dois lavradores a pé conduzindo mulas carregadas de mandioca e vários caminhões boiadeiros, que passaram por nós em alta velocidade, deixando uma nuvem de poeira.
Os caminhões vinham das grandes fazendas da região e transportavam gado de um lugar a outro, em busca de água. É que os poucos açudes do lugar não dão conta de matar a sede de tanto boi, vaca, cabra, e nessa época do ano já estão quase todos secos.
De qualquer forma, para o gado sempre haverá água em algum lugar. O mesmo não se pode dizer dos seres humanos que vivem nos povoados afastados de Pedro do Rosário, como Fala Só, Roque, Caxias etc.
Cultivo de maconha – Mas nem todos os fazendeiros de Pedro do Rosário pensam só em criar gado. A Polícia Federal investiga a ação de grupos de traficantes que, desde o início do ano, estariam se deslocando para o município, vindos de Maracaçumé, São João do Caru, Zé Doca e região do Gurupi, para cultivar maconha em áreas de difícil acesso de Pedro do Rosário.
Em junho do ano passado, uma fazenda do município, denominada Sítio Corrêa, chegou a ser desapropriada – numa decisão inédita da Justiça Federal, no Maranhão – porque a Polícia Federal encontrou e queimou na propriedade 2 mil pés de maconha.
Por ocasião da operação realizada pela PF, além de armas de fogo e equipamentos utilizados no plantio da maconha, foram apreendidos 14 pacotes em forma de tabletes, contendo maconha prensada (14 quilos); seis sacos de náilon cheios de maconha seca (mais de 53 quilos), além de grande quantidade de sementes para novo plantio.
O juiz federal José Carlos do Vale Madeira, autor da desapropriação, informou que essa foi a primeira ação proposta no estado do Maranhão com esse objetivo.
Em Pernambuco, ante a existência do chamado “Polígono da Maconha” (formado pelas cidades de Serra Talhada, Salgueiro, Cabrobó, Floresta, Orocó, Belém do São Francisco, Ibimirim, Camaubeira da Penha, Santa Maria da Boa Vista e Lagoa Grande), diversas ações já foram julgadas com a desapropriação da área em que foi localizado o plantio.
Em sua decisão, o juiz Madeira determinou a imediata posse do imóvel por parte da União, colocando-o à disposição do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para assentamento fundiário.
(Oswaldo Viviani)